A jornalista a quem fora confiada a missão de entrevistar Mateus Rosado era praticamente uma desconhecida do grande público, ou não se focasse o critério do presidente da estação pública de televisão primacialmente na beleza dionisíaca da jovem. Mau grado o (não tão) subtil afastamento das regras práticas do bom jornalismo - para missões de especial relevo público, os jornalistas mais experientes -, tão habituais no regime deposto, havia na opção do presidente da estação um rasgo de visão não impertinente: dizia-se, pelos corredores sempre discretos do poder, que o novo presidente da república tinha uma paixão incontrolável por mulheres bonitas e que nunca lhes recusava agrados. A inexperiência da jornalista era, vista daquele prisma, negligenciável em face dos benefícios prováveis.
Amena de seu nome, a jornalista acreditou piamente que aquele era, sem dúvida, o zénite da sua carreira, o ponto mais elevado do ofício de bem informar, e estava consciente de que, depois daquele dia miraculoso, pouco mais ou quase nada haveria a alcançar nesta terra. Levando a mão ao crucifixo de madeira que envergava com orgulho ao pescoço desde que se tinha como gente, Amena jurou por alma de sua avó que se prepararia para a entrevista como se preparava para a vida depois morte, decorando o livro de estilo como decora a bíblia, praticando a seriedade e o decoro jornalísticos como quem se vai apresentar ao tribunal do juízo final.
(Para conhecerdes o teor da entrevista, tereis de esperar por outro post, porque aqui a escrevente tem compromissos inadiáveis. Até breve)
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