domingo, 6 de janeiro de 2013

Zénite

Era a entrevista mais esperada do ano. Mateus Rosado, um músico de botequim que um dia teve a impensável sorte de ser enviado para a guerra e salvar mais de cem companheiros, ascendera à Presidência da República na mais revolucionária de todas as eleições até então levadas a cabo no país país: o primeiro escrutínio livre. Mais do que as arrojadas ideias que sustentaram a sua candidatura de oposição ao regime, foi a bravura e sagacidade com que se embrenhou sozinho pela selva e com que resgatou os companheiros do campo de concentração que inspirou o povo a unir-se em massa em torno da sua figura quase mítica e conceder-lhe a inaudita confiança de 76% dos votos. Porém muitas questões permaneciam por responder sobre as origens e a vida do governante acidental, o fura-vidas que furou as defesas do inimigo e do governo déspota, sabendo-se apenas que fora da música que vivera desde os 16 anos, idade com que se viu sozinho no mundo, após a trágica morte dos pais num acidente de aviação (que muito dizem ter sido, afinal, um dos primeiros ataques das forças de opressão externas que pretendiam conquistar o país).

A jornalista a quem fora confiada a missão de entrevistar Mateus Rosado era praticamente uma desconhecida do grande público, ou não se focasse o critério do presidente da estação pública de televisão primacialmente na beleza dionisíaca da jovem. Mau grado o (não tão) subtil afastamento das regras práticas do bom jornalismo - para missões de especial relevo público, os jornalistas mais experientes -, tão habituais no regime deposto, havia na opção do presidente da estação um rasgo de visão não impertinente: dizia-se, pelos corredores sempre discretos do poder, que o novo presidente da república tinha uma paixão incontrolável por mulheres bonitas e que nunca lhes recusava agrados. A inexperiência da jornalista era, vista daquele prisma, negligenciável em face dos benefícios prováveis.

Amena de seu nome, a jornalista acreditou piamente que aquele era, sem dúvida, o zénite da sua carreira, o ponto mais elevado do ofício de bem informar, e estava consciente de que, depois daquele dia miraculoso, pouco mais ou quase nada haveria a alcançar nesta terra. Levando a mão ao crucifixo de madeira que envergava com orgulho ao pescoço desde que se tinha como gente, Amena jurou por alma de sua avó que se prepararia para a entrevista como se preparava para a vida depois morte, decorando o livro de estilo como decora a bíblia, praticando a seriedade e o decoro jornalísticos como quem se vai apresentar ao tribunal do juízo final. 


(Para conhecerdes o teor da entrevista, tereis de esperar por outro post, porque aqui a escrevente tem compromissos inadiáveis. Até breve)

Sem comentários:

Enviar um comentário