domingo, 6 de janeiro de 2013

Zénite

Zénite, auge, apogeu. O que quer que se lhe quisesse chamar, ele tinha-o atingido por volta dos nove anos e desde aí tinha sido uma queda livre atrás da outra.

Filipe era então um miúdo desenvolto e opinativo a ajeitar os óculos de aro fino na primeira fila da turma, fazendo contas de cabeça e debitando definições de dicionário com a precisão de um relógio atómico. No meio da grande pilha em frente à professora, os seus testes eram invariavelmente os que diziam, com grandes letras vermelhas, "excelente", "óptima composição" ou, em inglês, que era a sua disciplina menos favorita, "satisfaz bastante".

Depois, no recreio, a sua magnífica colecção de berlindes vindos dos quatro cantos do mundo garantia-lhe um certo estatuto de autoridade perante os outros, com direito a determinar quem jogava na sua equipa ou se este ou aquele lance mais dúbio tinha ou não dado ponto e para quem.

Nas festas de anos, Filipe trazia sempre as melhores piadas, as histórias mais assustadoras, e era capaz da impressionante proeza de enfiar oito croquetes na boca ao mesmo tempo, assim que o adulto de serviço se distraísse por dois ou três minutos.

Eram os anos dourados da igualdade fundamental de todos os corpos perante a infância. Nessa altura, pré pelos faciais solitários e hormonas em desvario, pouco importavam coisas como a dimensão de um bíceps braquial ou a gravidade da voz de um homem. A vida media-se em unidades mais simples, mais controláveis.

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