segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Hábito Velho, Ano Novo

- Tu, em três palavras ou menos.

Sempre à procura.

- Este blog para ti é...
 
A cenoura que me põe a mexer e o cacete que me impede de parar.

- É difícil publicar todos os dias?

É muito mais fácil que publicar só de vez em quando!

- Quanto tempo gostarias que durasse este projecto?

Um ano.

- Qual o meio que ainda não usaste e que mais gostarias de experimentar?

Vídeo.

- Qual o teu post favorito dos que publicaste até hoje? Porquê?

Hmmm... talvez o http://ohabitofazoblog.blogspot.pt/2012/11/idioma.html. Porque me diverti imenso a escrevê-lo, porque foi um desafio, porque tem um pouco de tudo aquilo que quero aprender a fazer melhor e porque o texto publicado é só a ponta do icebergue......... E não, não vou contar mais nada. ;)

- E qual o que menos gostas? Porquê?

Este aqui: http://ohabitofazoblog.blogspot.pt/2012/12/exame_8680.html. Porque não me diverti a fazê-lo e porque desde o primeiro momento o achei imensamente superficial. Mas não me arrependo de nenhum post, nem mesmo dos maus e desinspirados, todos fazem parte do caminho.

- Narrador-personagem, narrador-observador ou narrador-omnisciente?

Narrador-personagem é um vício antigo, mas justamente um dos desafios que me tenho auto-imposto é variar o registo.
 
- Uma lição que tenhas aprendido com este blog.

Se não queres ter sempre o mesmo resultado, não faças sempre o mesmo.

- Um desafio que tenhas conquistado com este blog.

Escrever diálogos.

- Repercussões do blogue no teu dia a dia?

Tenho sonhado mais acordada.

- O que te parece a experiência de fazer um blog a dois?

No fundo, é como ter um parceiro de corrida: os bofes vêm-te na mesma à boca, mas como ninguém quer passar pela vergonha de ser o primeiro a desmaiar, acabam os dois por chegar à meta. Para além disso, a companhia torna o passeio ainda mais agradável. :)

- 2012 numa frase?

Mudar é estar vivo; estar vivo é aqui e agora.

- 2013 numa frase? 

Finalmente pronta para dizer sim.

- Últimas palavras?

O que pensas que consegues, não chega sequer aos calcanhares do que consegues realmente. Por isso, arrisca muito e arrisca com convicção! Faz da vida a tua grande aventura! ..... FELIZ 2013 .....

Hábito Velho, Ano Novo


- Tu, em três palavras ou menos.

Em aperfeiçoamento constante.

- Este blog para ti é...

Um orgulho. Um grande orgulho.

- É difícil publicar todos os dias?

Publicar não todos os dias não é difícil. Ser criativa e ser uma boa criadora, isso sim, é mais difícil.

- Quanto tempo gostarias que durasse este projecto?

Até que dele nasça um outro.

- Qual o meio que ainda não usaste e que mais gostarias de experimentar?

Talvez o vídeo, embora esteja mais concentrada em aperfeiçoar a escrita, a fotografia e o desenho.

- Qual o teu post favorito dos que publicaste até hoje? Porquê?

Tenho mais do que um. Gosto bastante do Potencial e do Molécula, porque são mais estruturados, mas não consigo excluir outros, como o Cata-vento ou o Cavar, porque têm um tom poético que me agrada muito.

- E qual o que menos gostas? Porquê?

Há alguns. Porque foram superficiais, na forma e na substância.

- Narrador-personagem, narrador-observador ou narrador-omnisciente?

Aquele que me permitir ser mais criativa dentro do universo de possibilidades da palavra do dia.

- Uma lição que tenhas aprendido com este blog.

Que com pequenos passos podemos percorrer grandes distâncias.

- Um desafio que tenhas conquistado com este blog.

O medo de não ser suficientemente boa e/ou criativa.

- Repercussões deste blogue no teu dia-a-dia.

Pensamentos mais soltos, hábitos mais espartanos.

- O que te parece a experiência de fazer um blog a dois?

É um estímulo muito grande ter de honrar um compromisso. Tem sido uma experiência muito positiva.

- 2012 numa frase?

Uma inspiradora simbiose entre liberdade e criação.

- 2013 numa frase?

A exploração inteira e apaixonada da simbiose entre liberdade e criação.

- Últimas palavras?

Li recentemente uma frase que me pareceu gozar daquela simplicidade mágica de que gozam as evidências por vezes não tão evidentes: If you want something you've never had, you have to do something you've never done. Feliz 2013!

Ponte


Ponte 25 de Abril

Unindo duas margens, todas as pontes significam a liberdade de ir ou de ficar. E, perante a liberdade de atravessar, atravessemos. 

domingo, 30 de dezembro de 2012

Ponte

Juares é uma ilhota no sul do Managuel, cortada de acessos a não ser pelo barco que duas vezes por semana faz a travessia entre o porto de Morna e o ancoradouro de Ponta Nuar. A população é pobre e vive essencialmente da pastorícia, dedicando-se aos prados verdejantes e ao gado fértil com a simplicidade de quem não conhece outro destino.

Há anos, falara-se em construir uma ponte para ligar a ilha às terras do continente, a ponte da modernidade!, anunciara o presidente da junta com fanfarra ao único periódico local. Mas depois das medidas tiradas e de meia dúzia de apertos de mão, o assunto perdera-se na bruma do tempo, sem ai nem ui da parte de quem quer que fosse. Não, em Juares nem uma única alma tinha reclamado ou exigido um centímetro sequer, porque, a falar verdade, tanto interesse tinham aquelas gentes em sair da ilha como os do continente em lá entrar.

De parte a parte há desde sempre um acordo não escrito de que o que começa em Juares fica em Juares e o que é da margem norte, fica na margem norte. Cada um sabendo assim o seu lugar, as vidas podem decorrer pacíficas, um mundo à parte do outro, dentro do mesmo país diminuto.

Mas esta ordem natural das coisas está prestes a alterar-se sem remédio, com a chegada a Ponta Nuar de um misterioso carregamento endereçado a Nortan Suma, o qual, do alto das suas barbas brancas, se apressará a mandar o neto ao ancoradouro pela carga. Tom Suma seguirá despreocupadamente até Ponta Nuar, prego a fundo na pick-up desengonçada, e carregará o volume indistinto com braços vigorosos, arrumá-lo-á entre sacas de terra, sementes e adubo, e voltará assobiando as canções da rádio, sem suspeitar do seu papel trágico na origem desta história.

Verdade

A verdade estava exposta nas bancas dos mercados itinerantes, nos múltiplos centros da megalópole, como as frutas e os vegetais, as carnes e os peixes, partilhando a contiguidade com o lixos das gentes, das ruas, da indiferença. Era a verdade nua e crua, sem complexos de ser regateada pelo melhor preço, sempre o menor. A verdade, assim, tão desprovida de dignidade, mostrou-se tão fundamental para a economia dos mercados como os alimentos.

Verdade

Naquele dia não lhe disse a verdade. Foi a primeira vez. Muitas outras se seguiriam, quase involuntariamente, pelo simples facto de que era um caminho demasiado fácil e tudo o resto demasiado difícil. Pequenas omissões, desvios subtis, faltas de rigor inocentes e outros nomes mais que utilizou para justificar cada mentira dita, erguida entre eles como um muro, a afastá-los mais e mais, irremediavelmente, até o silêncio se converter numa segunda pele de todas as palavras que trocavam.

A verdade tem destas coisas: se brincamos com ela arriscamos-nos a perder-lhe o sentido. Enredado na sua teia de ficção cuidadosamente tecida, ele jamais poderia sair dela sem destruir também o fio da ilusão que sustentava tudo o que tinha e tudo em que se tinha tornado.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Quilómetro

Na contracapa de um livro curtido pelo tempo, quiçá também pelo contacto continuado com o cartão agreste da caixa que partilhava com outros livros, lia-se o seguinte: "Tinha duas certezas na vida. A primeira é que a morte sempre chega. A segunda é que nunca saberemos o que nos espera ao dobrar o próximo quilómetro, se não nos dispusermos a percorrê-lo".

Quilómetro

Ao quilómetro quarenta e dois, com a respiração ofegante, o suor a escorrer-lhe pelo corpo e o joelho direito em apuros, a meta parecia-lhe simultaneamente mais perto e mais longe do que nunca. A cada milésimo de segundo o seu cérebro dava ordens e contra-ordens, pára, não, avança!, não podes mais, tens de parar, continua!, o joelho vai ceder, mas está quase feito, não vais desistir agora!  

Em desalinho, as suas sinapses tentavam gerir a informação contraditória que lhes vinha dos membros em sofrimento e da pura vontade.

Quando, um ano e meio antes, e quase com cem quilos de peso, se lembrou de dizer que ia correr uma maratona, houve sorrisos mal dissimulados, incredulidades frontais e até comentários à boca pequena de que talvez aquela fosse a sua ideia de uma crise de meia idade, assim como quem compra um Ferrari ou redescobre os ardores das paixonetas adolescentes. 
  
Na altura tudo aquilo o tinha ferido de morte e se tivesse de confessar-se no mais íntimo de si, reconheceria que parte do que lhe alimentara o ânimo naquele ano de treino após treino após treino fora o fogo do despeito.

Mas agora, nesta esplendorosa manhã de Maio, enquanto lutava contra o cansaço à vista de um desenlace tão próximo que quase lhe podia sentir o sabor, apercebeu-se de que nenhuma daquelas coisas importava verdadeiramente. Nem mesmo a dor lancinante no joelho ou a respiração irregular tinham qualquer significado. Eram circunstâncias, a serem aceites, geridas se necessário, e nada mais. 

Pela primeira vez, percebeu que a pessoa que era, liberta das suas amarras, podia até o inimaginável. E isso fê-lo sentir algo de novo e inesperado. Tinha começado a sua aventura feito escravo, em grilhetas, carregando aos ombros o peso de mil receios e mil rancores. Cruzaria a linha de chegada um homem livre.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Mastro

rodeada de mar . capitã sem mastro nem vela . vogando simplesmente . sem perguntar . para onde leva o vento

não lhe interessa a cartografia . diz por vezes . mapas são prisões . eu prefiro a maré

oscila entre o cá e o lá . por aproximação . e se vê terra firme duvida . está feita às águas mais que ao porto

navega para ir . não para chegar

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Mastro


Visita

Outras épocas... e um piscar de olho ao romantismo:

Minha querida Cécile,

Os dias são longos e Londres cinzenta para lá do que por vezes creio poder suportar. O Tio tem-me mantido ao seu lado em todos os pequenos detalhes da gestão das firmas Hublot, falando-me amiúde de como começou com um pequeno armazém perto de Vincent Square e de como um dia também eu terei de saber levar aos ombros o pequeno império familiar.

A mim, falta-me a Provença, inchada de amarelo e lilás, morna, terna, musical. Por aqui um homem não pode correr sem destino, nem sonhar de olhos abertos, nem abandonar-se ao sol. Tudo é mecânico, até o coração das gentes.

Ultimamente tenho recebido em sonhos a tua visita. Surges-me uma e outra vez na penumbra, o teu rosto iluminado não sei por que estranho luar, sorrindo sem palavras. Mas sempre que estendo a mão para te tocar somes-te por entre os meus dedos, recuando na distância como um paraíso inalcançável. A tua figura vai minguando até não ser mais que um ponto no horizonte e eu tento gritar mas é o vento que me come a própria voz. Depois acordo, em suores aterrados, e só ao cabo de largos minutos consigo forçar-me ao movimento.

Por tais inquietações nocturnas tenho sofrido em dobro a distância que nos separa. Querida Cécile, espero ansiosamente notícias tuas, e nem que todos os Tios deste mundo e do Universo inteiro também quisessem interpor-se entre nós, ainda assim te esperaria, do outro lado da sua barreira!

Sempre teu,

Sébastian

Visita

- Sabes quem me fez uma visita hoje?
- Quem? O carteiro?
- És muito engraçadinha.
- Ora, acho muito giro ele ser carteiro. Porque o carteiro toca sempre duas vezes.
- És terrível! Queres ou não saber quem apareceu cá em casa hoje?
- Claro que quero. Conta-me.
- O Óscar.
- O Óscar? Não posso crer. Que queria ele?
- Não vais mesmo acreditar. Veio devolver-me o álbum de fotografias do casamento.
- Estás a brincar... Vocês iam-se matando por causa das malditas fotografias - coisa que nunca entendi e de que sempre te tentei dissuadir... - e, agora, ele entrega-tas? Uau, o que se passou?
- Ele disse-me que tem andado a pensar muito na vida e que decidiu corrigir alguns erros para poder finalmente tocar a vida para a frente. Entregou-me o álbum e pediu-me desculpa. Disse-me que ia para a China. Vendeu tudo e não sabe quando regressa. E, no essencial, foi isto.
- Foi isso? Ele não te disse mais nada, não falaram sobre mais nada?
- Não. Ele beijou-me na face, despediu-se e a porta fechou-se. Eu... bem, fiquei alguns minutos estática, incrédula, a tentar recompor-me, e depois... Depois não sei muito bem, acho que não me recordo.
- Não lhe chegaste a dizer que te vais casar?
- Não...
- ...
- Foi a visita mais estranha que recebi...

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Atacador

O júbilo pela conquista de mais uma habilidade de adulto deixou José em êxtase:

- Ó mãe, mãe! Já sei atacar os atacadores! Fiz como se fosse uma borboleta, olha, olha!

À tarde, José dormiu a sesta que nem um anjo. Um anjo com os ténis bem atacados.

Atacador

  
Se eu fosse um atacador de sapatos era daqueles curtos e grossos, que volta meia volta se desatam e arrastam irritantemente pelo chão, varrendo folhas velhas, lixo e água da chuva. Teria cores diferentes, uma para cada sapato, e brilharia no escuro.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Natal

Ele esperou o fim da mensagem de Natal para pôr a mala às costas. Era tempo de partir, de seguir caminho. E tempo de dar. Sobre a mesa deixou um bilhete de despedida e nada mais, porque toda a comida e bebida levou-a consigo para distribuir pelos famintos que encontrasse pelo caminho... E foram muitos.

Natal

Estevão encolheu-se debaixo do cobertor para enganar o frio que vinha e vinha e tornava a vir como uma maré. Puxou o pano até ao nariz e, espreitando por cima dele, deixou-se navegar por uns momentos no brilho das luzes que envolviam a praça. Alguém passou perto do seu canto, com passo apressado, telemóvel na mão, diz à tia que já vou a caminho...quê?...sim, levo a prenda do Miguel... dez minutos, no máximo.
 
Estevão ouvia e imaginava-se parte da cena, com a tia que não era a dele, mas que no seu sonho era, e esperava por si. E o Miguel, que desfaria o embrulho de sorriso nos lábios, que talvez gostasse ou não gostasse da prenda, mas que lhe daria um abraço porque no sonho eles não eram estranhos e porque toda a gente sabe que as intenções é que contam.

Deixou-se ficar naquele torpor das imagens que desfilavam na sua cabeça até que uma voz o arrancou ao calor dos pensamentos, boa noite... venho deixar-lhe uma sopa, pode ser?... e ele que sim, que podia ser, hoje leva bacalhau e batata e, claro, umas couvezinhas também não podiam faltar... vai ver que está boa... e ele novamente que sim, já de colher na boca, comendo com sofreguidão.

Trocaram palavras, arremedos monossilábicos de conversa a pontuar goladas de sopa que lhe escorriam pelo esófago até à alma.

Quando terminou, havia um calor novo dentro dele, não o que vinha do estômago, mas outro, mais subtil e ao mesmo tempo mais profundo. Era Natal e não tinha nada em seu nome para além de meia dúzia de cartões e uns cobertores velhos, mas aquela dádiva simples lembrara-lhe que mesmo no deserto mais escuro, existe algures uma centelha de luz, sempre que uma mão se estende a outra.

Voltou-se para a voz e sorriu. Uma oferenda simples, de quem nada tinha.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Rebuçado

"Para os meninos que não se portam bem não há rebuçados! Compreendeu, menino Henrique?", asseverou a impositiva Madre Teresa, com o dedo lançado em riste e os olhos a raiar da crueldade que alimentava contra criança de olhos azuis, ou com mais de um metro de altura, ou com os cabelos encaracolados, ou com qualquer outra característica aleatória que lhe causasse incómodo. Uma megera, portanto.

Nem todas as freiras eram como Madre Teresa, mas eu sabia que, pelos estreitíssimos critérios de integridade moral que reinavam naqueles claustros sufocantes, o rebuçado iria ser sempre uma miragem, bastava olhar para quem os recebia. E, afinal, como podia eu deixar de ler às escondidas à noite, ou de jogar à bola fora da hora da aula de Educação Física? Ou como podia decorar as passagens bíblicas mais importantes, se havia tanta ciência por descobrir?

Um dia resolvi ripostar. Sentia-me discriminado. Sentia-me ultrajado na minha individualidade, afinal era só uma pequena guloseima, um pequeno mimo, um doce. Tinha direito a um daqueles pedaços de céu embrulhados em papel de manteiga! Sabia onde as freiras guardavam secretamente os rebuçados e qual a freira que costuma guardar a chave do armário. Recorrendo aos mais elevados conhecimentos recolhidos dos livro Uma Aventura em..., criei um plano infalível e zás! roubei-lhes os rebuçados todos! A partir daí foi portar-me que nem um anjinho só para chegar ao dia de receber o rebuçado prémio com um sorriso fluorescente nos lábios.

Pois nem imaginam a cara atrapalhada das freiras quando deram pelo furto dos rebuçados! Eu, nas costas das freiras petrificadas a olhar para o vazio do armário, decidi à herói comer um rebuçado mesmo ali, e mal se ouviram os estalidos típicos do desembrulhar do papel, foi a desordem total! Fugi como se não houvesse amanhã e acabei expulso, mas foi o rebuçado mais delicioso da minha vida, aquele rebuçado roubado às freiras.

- Fim -

Rebuçado

domingo, 23 de dezembro de 2012

Bicicleta

e se um dia eu deslizasse ao sol nas asas de uma bicicleta
duas rodas a caminho dos sonhos
o sol a pique, o céu azul
e o meu corpo a agitar a brisa

e se um dia uma bicicleta me levasse
como uma criança pela mão
com olhos grandes para o mundo
recém-nascida e inteira
a despontar

um dia, em qualquer lado,
de olhos fechados e sorriso nos lábios
eu largaria a roupa para nadar em águas profundas
e a bicicleta inclinada sobre a relva
guardaria o moment 
com os seus aros a brilhar ao sol 

Bicicleta

Era chegado o momento de testar a sabedoria popular: após dez anos sem andar de bicicleta, será que Carina ainda sabia andar de bicicleta? "Claro que sim, ninguém se esquece", disse a jovem recepcionista com um sorriso incentivante. "Se precisar de ajuda, basta dizer. E se, por acaso, não se adaptar à bicicleta, ou não se sentir confortável a andar, não há problema, pois podemos devolver-lhe o dinheiro." "Muito obrigada. Creio que vou conseguir, mas se precisar de alguma coisa venho falar convosco", comentou Carina, visivelmente agradecida por ter recebido compreensão do outro lado do balcão. "Aqui estão o cadeado e as chaves. Aconselho-a a prender o cadeado na bicicleta, enquanto estiver a andar, para evitar perdê-lo durante o andamento. E a guardar bem as chaves". "Cadeado, chaves, prender cadeado, guardar bem as chaves, ok, vai ser fácil", pensava Carina, sentindo já a alegria das borboletas no estômago. "É a número 15. O meu colega acompanha-a ao terraço aqui nas traseiras", disse a recepcionista, apontando para o lado de lá da pequena janela que estava atrás de si.

"A número 15 é linda", pensou Carina, enfeitiçada pela ideia de domar aquele ser metálico de duas rodas, enquanto o jovem lhe preparava a bicicleta, limpando a água do selim, conferindo os pneus e ajustando um pormenor no cesto. "Hoje... Hoje é dia de licença para andar de bicicleta!" E foi. Foram horas e horas a pedalar, como se aqueles corpos, o da bicicleta e o de Carina, fossem amantes há muito ansiosos por se encontrarem.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Lupa

O avô sempre guardou a lupa na escrivaninha branca, junto dos dicionários e dos mapas. Tirava-a para brincar comigo, para me mostrar os detalhes das asas das borboletas desenhadas nos seus cadernos de notas, a única ocupação que disputava comigo a atenção do avô. Eu ficava maravilhada com o mundo aumentado no centro e distorcido nas bordas, qual pingo de água, uma espécie de olho de peixe, uma imagem brincalhona nas mãos de uma criança curiosa.

Eu cresci, como crescem todas as crianças, e a lupa acabou por permanecer quase sempre guardada no local habitual, com a caixa original ainda imaculada, o conjunto completo, lupa e faca de cortar papel, bem acomodados à passagem do tempo e aos cuidados da avó, que nunca negligenciava os pormenores.

Passados muitos anos, o avô começou a retirar mais vezes a lupa da escrivaninha para outros trabalhos: os jornais desinvestiram da edição em papel e poupavam cada vez mais linhas, encolhendo propositadamente as letras dos artigos, agora umas letrinhas quase ilegíveis, comentava o avô. Agora, dizia-me, às vezes a lupa dava jeito para lutar contra a avareza dos jornais e... alguma falta de vista.

Lupa

Diego vê o mundo à lupa, na dimensão que é a sua, a dimensão que coloca as coisas mais ínfimas ao centro e que passa indiferente às necessidades da vida como uma fronte séria, um estômago cheio e cabelos alinhados a pente. 

Ele aponta o mundo assim ampliado a pinceladas frenéticas, consciente de que talvez seja ele a registar o último momento de algo insuperavelmente belo. Consciente, consciente, consciente, ele é consciente mais do que tudo, por isso se atormenta tanto com o prazo intrínseco das coisas, pelo saber, como sabe, que o mundo se dissolve a cada micro-segundo e que muito do que nele passa é invisível à nossa vista grossa.

A lupa permite-lhe transpor a barreira. Fazer-se habitante de um cosmos particular ao qual pertence sem nele caber. Mas Diego acredita que cabemos nas coisas mais pequenas pelo facto de elas caberem em nós, pelo facto de tudo existir dentro de tudo, pelo menos em potência, pelo menos como parte de um magma comum que borbulha e explode em forma de universo. 

E é essa pertença que ele retrata nas telas obsessivamente empilhadas em corredores estreitos, telas ao alto, telas deitadas, telas encostadas a telas, com a cara escondida, com as entranhas de fora, telas descartadas porque serviram já a sua função de receptáculo da realidade sem chegarem nunca à dimensão de objecto-em-si.

Diego pinta com a luz do dia, voluntariamente vassalo das suas lógicas, escusando-se à tirania das horas prolongadas por mãos artificiais, com cores mortiças e adulteradas, horas que não prestam para a imortalidade. Horas que são uma ficção. Diego despreza a ficção acima de tudo, ou não fosse a vida tão breve, que um homem não tem tempo a perder com imitações do real, o real não tem cópias!, diz amiúde, com violência, enquanto se desgasta para lá dos anos que tem a tentar materializar a essência desse real sempre esquivo.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Esquecimento

Primeiro fora apenas esquecimento, a razão pela qual não lhe telefonara pelos anos, nem dois meses mais tarde, por ocasião daquela data importante, tantas vezes repetida, mas que a sua memória se recusara a fixar. Um esquecimento estúpido, comezinho, de quem andava enterrada em vida até aos olhos, a gerir papéis e a esticar as horas, para que nelas coubesse sempre mais.
 
Mas o silêncio que se seguiu, fora pura vergonha. Vergonha de ter falhado. Vergonha de ser imperfeita. De pedir desculpa. Vergonha de pegar no telefone e dizer "não sei como me esqueci" ou "tenho saudades tuas".
 
Não, não fora a sua memória fraca que roera os cantos àquela amizade, mas sim o orgulho forte, demasiado forte para admitir ou conceder.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Esquecimento


Estava uma noite fria e silenciosa. Apetecia mesmo uma história à lareira, com bom vinho e boa música por perto, com sorrisos e debates, com partilha. Foi Joaquim quem lançou o mote e Ana quem permitiu que a palavras se precipitassem pelo abrigo da sala:

- Hoje vou contar-vos a história de uma sociedade que esteve à beira do precipício do esquecimento e que consegui escapar por um triz a um fatal destino. Pois bem, vou falar-vos do povo de Pristina, uma planície ancorada a uma extensa cordilheira a Noroeste e banhada por um mar tépido e imprevisível a Sudeste.

- Muito bem, já nasceu mais um lugar! - exclamou Eurico, erguendo o copo com um sorriso. Os demais acenaram em concordância, reconhecendo a verdade daquelas palavras. Havia sempre geografia nova nas histórias de Ana.

- A sociedade era considerada muito desenvolvida para os padrões do continente onde se encontrava, com níveis de autosuficiência e autoestima assinaláveis para uma nação contida num espaço tão limitado de terra, que muitas vezes padecem das doença da pequenez teimosa.

- Chiiiuu! Deixem-na prosseguir - disse Hugo, maravilhado com a ideia de poder participar pela primeira vez na tertúlia.

- A um dado momento da sua história, os pristinianos foram atacados por uma onda de entristecimento colectivo, por uma espécie de doença da alma, um inimigo muito difícil de combater. Os elevados níveis de actividade poluidora das nações vizinhas começara a ter efeitos no terras de Pristina, impondo uma mudança da fauna, da flora, das águas dos rios e do mar, do meio ambiente, tão expressiva que os pristianos ficaram tão desolados como a paisagem que os rodeava.

Uma pausa. Um trago de tinto.

- Como sociedade desenvolvida que era, dispunham de tecnologias avançadas e logo a mole de cientista começou a investigar as plantas, perscrutando a flora disponível em busca de um princípio activo que fosse a chave para a epidemia de tristeza. Como foi encarada como uma doença e, ademais, do foro psicológico, a comunidade académica e médica, bem como a sociedade civil, convenceram-se de que, por vezes, é preciso apagar a dor e que a dor pode estar na memória, na memória da dor que se teve, que passa então a ser a dor que se tem.

- Oi, que confusão é essa? Você já está baralhando tudo! - comentou Rosalinda, a brasileira mais divertida que alguma vez entrou na vida daqueles amigos. Era só esperar pela bobagem no final da noite, a Rosalinda transformada em comediante de palco.

Risos. Respirava-se o aroma do fogo que crepita.

- Ok, reconheço que a sociedade era um pouco confusa quanto a este ponto - desculpou-se Ana, levando o indicador aos lábios, como que reconhecendo que a boca lhe fugia para a verdade. Sim, desta vez não havia história preparada com antecedência.

- Simplificando. A ideia era a de que esquecer algumas memórias dolorosas podia aliviar o peso dos sintomas de entristecimento e, daí, permitir um combate mais intenso à doença. A ideia, claro, era inocente e pura, como todas a ideias começam por ser.

Sem quererem, os olhares de Ana e Joaquim encontraram-se num segundo infinito. Inocência e pureza. Ana prosseguiu:

- A indústria farmacêutica, que declinara de forma constante ao longos dos anos, à medida que os pristinianos se tornavam uma população mais brava, mais resistente à doença, viu na epidemia um negócio com futuro: apagar o passado.

Silêncio. Estão todos compenetrados, envolvidos, no eco das palavras. Apagar. Passado.

- Onde há engenho e arte, cumprem-se sonhos, lia-se no pórtico lateral sul da mais importante construção religiosa de Pristina. E, com um empurrão de financiamento, o sonho alcança-se com maior facilidade. Foi assim que nasceram os comprimidos do esquecimento, o sonho secreto da indústria farmacêutica e dos pristinianos deprimidos. Baptizados sugestivamente de “Mnemonica”, os comprimidos eram a antítese infalível da recordação: consoante a dose tomada, apagavam-se as memórias de dias, de meses, ou mesmo de anos. Só que sonho pode ser um pesadelo mascarado…

Mais um trago de vinho. Há que dar tempo de imaginação ao ouvintes, deixá-los intrigados.

- É como o diabo mascarado de anjo. Ui, ui, cuidado - brincou Eurico, que mais não queria do que interromper Ana, tal era o hábito enraizado de se intrometer nas histórias alheias só para saber em que desvios podiam incorrer os seus contadores.

- A sensação de alívio dos sintomas da dor da tristeza, uma maleita que os espíritos pristinianos só conheciam de nome, registada apenas em livros seculares que quase ninguém leu, tornou os compromidos do esquecimento crescentemente populares. As autoridades centrais foram-se apercebendo dos potenciais malefícios do recurso contínuo e não controlado à substância, tendo instituído mecanismo de controlo de produção, venda e consumo dos Mnemonica. Relatos dos efeitos de exposição prolongada às “borrachas”, nome de código dos comprimidos, foram suscitando a progressiva apreensão por parte dos governos regionais. A verdade é que, havendo arte e engenho… tudo se consegue e o esquecimento tornou-se, rapidamente, ele próprio, numa epidemia de consequências incontroláveis. Com requícios de malícia nunca antes vistos, muitos produtores, comerciantes e dependentes davam aos inspectores de controlo, recorrendo a expedientes variados, as doses mínimas de borrachas necessárias ao esquecimento do ilícito. Aplicar a lei severa - como sempre foram as leis em Pristina, ainda que ninguém tivesse razões para notá-lo, tal era ordem social - tornou-se cada vez mais difícil e perigoso.

- Isso é o faroeste - entrecortou Eurico, com gestos folgazãos.

- Era olhar em redor e ver - prosseguiu Ana. - Havia cada vez mais passados esquecidos nas bermas das estradas, como poças de água choca, vidas e vidas inteiras apagadas, dizimadas primeiro por uns singelos dias de ausência de vida, depois por blocos inteiros de anos escavados fundo numa já só meia-pessoa…

Rosalinda impôs-se: - Oi, Ana, que mudança! O clima está ficando pesado, não é gente? Bota acção e vida nisso, amiga.

Houve uma confluência disfarçada de opiniões. De facto, com o cheiro da lenha estimulava a mente a vaguear pela ideia de esquecer o passado e cada um dos ouvintes tacteava, com maior ou menos hesitação, de forma selectiva, os eventos que eliminaria da sua vida.

 - Tens razão. Vou já terminar. Como podem antever, foi o início do caos, o início da guerra. É que, por razões de segurança e de saúde públicas, os Mnemonica foram totalmente proibidos e acabaram erradicados pelo uso da força, pelo recurso às armas. Os sobreviventes do apocalipse da memória referiram-se à reconquista como “os anos da grande queimada”.

- Fim - 

Planalto

Como um homem descobre que quer passar o resto da vida a escalar montanhas é mistério sobre o qual só podemos especular. A perseverança é extraordinária: empreender no objectivo de atingir do cume de sucessivas e cada vez mais altas montanhas exige um empenho físico e psicológico assinalável e um risco considerável. Será para ficar cada vez mais perto do céu mantendo ainda os pés na terra? Para ver o mundo da perspectiva dos deuses? Ou por algo mais prosaico, como uma prova contínua de coragem, como erguer o orgulho de derrotar o inóspito? Ou, ainda, por uma dor tão profunda que só o isolamento do pico pode apaziguar?

Gonçalo descobriu-o na primeira viagem que fez ao Tibete, no ano da glória de 1994, quando percorria os trilhos árduos do Tecto do Mundo. Com uma altitude média de 4500 metros, o Planalto do Tibete impõe respeito físico da sua elevação ao longo de 2,5 milhões de quilómetros quadrados, um território 25 vezes mais extenso do que Portugal. No mais elevado planalto do mundo, com os Himalaias a pontuarem nos limites do olhar a Sul, Gonçalo sentiu-se um homem despojado de obstáculos, uma criatura nómada, um território aberto, virgem, desolado, trespassado pelos cumes do mundo.

(...)

Planalto

os sonhos são o planalto das divagações
porque mesmo os elevados são planos
e a duas dimensões
são o topo linear do que julgamos que queremos
as nossas ambições
 
mas nem sempre julgamos com justeza
navegamos com instrumentos cegos
aos contornos da nossa natureza

fazemos dos sonhos o cume
negamos a possibilidade do real
negamos a tridimensionalidade do que é
bom, mau ou simplesmente igual
 
sonhamos de olhos fechados
e sempre no futuro
projectando-nos como ideias
para o sítio onde julgamos que vamos aterrar
 
sonhamos sem duas vezes pensarmos
que fazer é a melhor forma de sonhar

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Hipótese


Ana estava compenetrada a avaliar os últimos trabalhos fotográficos profissionais que tinha realizado, pois tinha de seleccionar cinco fotografias para uma exposição marcada para o mês seguinte, as hipóteses eram muitas e as fotografias tinham de ser enviadas até ao final do dia.

A páginas tantas, transcorridos os vastos álbuns algumas vezes, Ana dá por si a pensar nas pessoas cujos contornos e movimentos ficaram cunhados na película electrónica da câmara e a recordar os lugares e os momentos em que estranhos invadiram o seu olhar (e em que disparou sem piedade os olhos gulosos da lente na sua direcção).

"Quem são estas pessoas?", perguntava-se. Observando o leque de fotografias fortuitas que sempre encontrava nos seus álbuns, reflectia: "Com quem estará este senhor a conversar? Sobre o que será a conversa?" A hipótese de estar a telefonar para a mulher a explicar, desanimado, como ainda não foi desta que conseguiu o emprego era tão provável como a hipótese estar a telefonar para o chefe a explicar porque não tinha ido hoje trabalhar. Tão aleatório como a hipótese de se chamar José ou a hipótese de ter nascido Damião.

Hipótese

acorda cedo
faz a tua cama
começa o teu caminho.

tudo o que precisas
é de um pé à frente do outro.

não digas que não
e não digas sim.
a vida dispensa o teu consentimento
só requer a tua presença. 
ela sabe a sua direcção
mesmo quando tu
não consegues ver a tua.
então, vai.

não te percas a decidir,
pois mesmo do outro lado das tuas más escolhas
tens sempre uma hipótese:
a de estar vivo.
 

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Abrigo

Perambulando...

Abrigo rima com amigo, que rima com antigo, que rima comigo.
Abrigo é o amigo antigo que levo comigo.
Amigo é um abrigo antigo que trago comigo.
Antigo é o amigo abrigo que carrego comigo.

Abrigo

Estavam os dois aninhados no abrigo debaixo da sala, a ouvir os estrondos lá fora. A terra tremia com cada explosão, como se eletrocutada por um raio, e na ausência de luz, eles pressentiam os terrores um do outro pelo ondular da respiração, de vez em quando mais forte, outras vezes irregular, como um motor engasgado.
- Sabes o que me apetecia agora mesmo?
A pergunta invadiu o espaço, iluminando os cantos à sua pequenez.
- Hã?
- Se sabes o que me apetecia agora mesmo.
- Diz.
- Um prato de puré.
- Puré?!
- Sim. Daquele que o pai fazia, carregado de farinha Maizena, que até dava para remendar paredes com aquilo...
- Mas tu detestavas o puré do pai!
- Eu sei.
No meio do escuro.
- Mas agora apetece-me.
Estavam deitados de costas no meio do escuro, no meio daquela noite absurda sem amanhã provável, a falar de puré, e o ridículo da conversa talvez fosse pouco mais ridículo que o ridículo da situação, porque eles eram jovens, e eram promissores, e tinham esperança a sair pelos bolsos das calças, mas de repente a única esperança que lhes era consentida era a de uma morte tranquila, uma morte esquecida dela mesma, embalada ao som de conversas sobre puré e farinha Maizena. As conversas eram como o silêncio que calava tudo isto, as coisas indizíveis.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Avidez

olhou aquele corpo com a avidez do fogo a lamber a savana ao meio-dia e imolou-se no desejo de possui-lo até ao retorno das chuvas ao deserto.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Avidez

Avidez pelo tempo que não tinha e também pelo que lhe sobrava. Pelo nascer do sol, por gelado de avelã, pela rotação regular de cores nos semáforos, pelo próximo beijo, pelo próximo inspirar. Avidez pelas mil e uma pessoas que toda a vida trouxera dentro e com as quais finalmente fizera paz, porque qualquer uma delas era melhor que o vazio da aniquilação total. Não, nem mesmo o seu momento mais medíocre lhe fazia mossa, agora que a sentença final lhe chegara às mãos embrulhada em papel timbrado de centro hospitalar. Naquela tarde, com as mãos trémulas e os olhos turvos, um só pensamento lhe subira ao cérebro por entre o turbilhão de letras que dançavam no papel: limpo. Completamente limpo. Um sorriso das profundezas quebrou-lhe o gelo dos lábio e ele começou a derreter inteiro pelo olhos. E depois, a vida recomeçou.

Exame

- Por amor de Deus, pára com isso, Beatriz! Porque é que tens de transformar cada segundo desta relação num exame?
- Diz-me tu. Se te sentes avaliado, talvez seja porque tens algo a provar...?
- Não sejas injusta! Deixei Seattle por ti, acho que já te provei o suficiente...
- Sim, deixaste Seattle. E então? Quando vais deixar de me atirar isso à cara? Com tanta vezes que falas no assunto, se calhar arrependes-te, não?
- Óbvio que não me arrependo. Mas tu tomas tudo por garantido. Esqueces-te dos sacrifícios que fazem por ti.
- Sacrifícios?! Se foram assim tão grandes--
- Por favor, não recomeces. Não foram grandes nem pequenos, foram os que foram. Só falo nisso porque quero que te lembres que não foste a única a abdicar de alguma coisa na vida.
- ...
- ...
- Pedro, não quero discutir.
- Então pára.
- Eu não--
- Beatriz... pára! Está tudo bem. Eu estou aqui, não vou a lado nenhum. Pára de me pôr à prova.

Exame

O exame médico foi simples e era a última etapa para a admissão no corpo de intervenção especial do exército. Treinara durante anos para realizar todos os exercícios com mestria e desenvolvera cada músculo do corpo como quem concebe uma arma de fogo sofisticada, pronta para a defesa, pronta para matar.

- Luís, tenho comigo os resultados dos exames. Tenho de ser honesto consigo: com os limites de visão que tem só lhe posso oferecer um lugar na cozinha, que é o único que neste momento está vago para quem não pode ir para o terreno. Dou-lhe a oportunidade de escolher entre ficar na cozinha ou...

- Fui o melhor em mais de metade das provas físicas que realizei. Fui o melhor aluno a matemática e física. Treinei cinco anos para, neste dia, tornar-me parte do mais importante corpo de intervenção do exército e para poder finalmente ir para o campo de batalha, para defender a minha pátria com coragem e empenho, e você está a dizer-me que para mim só há um lugar na cozinha?

Defender a pátria de um ataque de frangos? De ovos podres? A cozinha???

- Aqui não há vocês, há "Sim, meu coronel" - disse o coronel com uma rispidez polida. - Diga-me uma coisa: que faria se, em pleno ataque das tropas inimigas, perdesse os óculos ou lhe caísse uma lente de contacto?

- Dispararia em todas as direcções!

- É precisamente por isso que não podemos dar-nos ao luxo de tê-lo na nossa equipa. Mataria o inimigo, mas também mataria os camaradas.

E, assim, por uma nesga, a parelha vesga de olhos que tinha fechou-lhe as portas para o corpo de intervenção especial do exército. À data dos factos, não eram conhecidas ainda as cirurgias milagrosas que devolvem aos miopes a longitude do olhar.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Zebra

Catarina, dividida entre o português nativo e o português transatlântico, entre a passadeira e a passarela, refugiava-se numa metáfora e referia-se sempre às faixas brancas desenhadas sobre o alcatrão negro como a "zebra".

Zebra

a zebra is a zebra by any other name. but is a zebra the dark or the light stripe? what is the essence and if you lose it have you traded the zebra for some other animal that is equally wild? no no no! a zebra is a zebra even when she takes off her coat. even then a zebra is not slippery like a fish nor unpredictable like a goat. the zebra carries the day and the night all over her body and she knows where she goes without the need to follow somebody. the zebra is what is inside of the zebra. she is as is. and we know it because she won't deny it, nor try to hide it, even when she is chased by a lion. even when the lion digs deep into her flesh. the zebra does not change. she is still a zebra is a zebra is a zebra by any other name.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Planisfério

Passou cinco anos a desenhar o planisfério com os pés e voltou com ele tatuado no corpo inteiro. Entrava numa sala com a Ásia estampada no rosto, na voz que surgia com a tranquilidade da penumbra, no olhar atento para onde tudo fluía como um rio ininterrupto. Mas na pele do Buda havia recortes, interrupções, pistas dos outros que guardava dentro.

Planisfério

A primeira vez que observou um planisfério invertido, com o Sul a pontear como a direcção ordenadora na parte superior do mapa, ficou boquiaberta: como era possível, ao fim de três décadas de existência, nunca ter pensado na razoabilidade cósmica de o topo da Terra ser ocupado pela Antártica e a Europa ser um pequeno recorte de terra junto a um canto inferior de mundo? "O Universo não tem nenhuma preferência particular por qualquer direcção em especial: todas as direcções estão certas e são igualmente importantes", recordou, ainda não recomposta do estilhaçar de um preconceito geográfico tão enraizado no seu imaginário que bem poderia ter subsistido, sem um arranhão, a toda uma vida dedicada à investigação e à procura da verdade. "Sul, Norte, Oeste, Este".
Ao sair do museu, dirigiu-se à loja de recordações e pediu um planisfério invertido. "Vendem-se muito bem", disse a senhora de meia-idade que a atendia. Esta afirmação surpreendeu-a. "A sério? Sabe, para mim foi uma total novidade. Não imaginava e nunca ninguém me falou sobre isto". A resposta foi clara: "É que pouco conseguem resistir mais do que uns dias a uma visão do mundo ao contrário. As pessoas podem enlouquecer a olhar para este mapa. É uma mudança muito grande de perspectiva". Fazia sentido. "Então dê-me dois".

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Compasso

compasso.
com. passo.
com um passo interior
fico mais perto
do ritmo
certo
que é ritmado
e musical
fico mais dentro
da constelação
do hemisfério celestial
que vai do coração
à cabeça
 
o meu compasso não é moral
nem imoral
é amoral
desenha geometricamente
os arcos da minha hesitação
o compasso
é o passo
pelo qual eu acho
o centro
da circunferência

Compasso


Compasso e outros exercícios circulares


quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Reportagem

A recente notícia de avistamento de um ovni na cidade de Monforte do Rio despertou a curiosidade conspirativa de Alberto e de Ricardo, dois amigos e colegas de trabalho que eram, em simultâneo, parceiros do periódico independente “o Fantástico”. Como o facto fora ignorado pelos canais oficiais de informação, havia um motivo adicional para Alberto e Ricardo começarem a delinear um plano para visitar aquela pequena cidade do interior do país: darem um novo rumo à publicação e, quem sabe, conseguir um dinheiro extra para investir no ambicionado negócio da banda desenhada. Estavam decididos: iam fazer a sua primeira reportagem.
- Temos de planear bem a reportagem. Ouvi dizer que a população ficou um pouco amedrontada com a agitação que se gerou na orla da cidade e que estão renitentes em abordar o incidente, como lhe chamam. Sabes que a cidade de Monforte do Rio é uma ilha numa imensa planície? É uma estranha construção da natureza... - comentou Alberto, enquanto manobrava o carro com cuidado pelos buracos da estrada fustigada pelas chuvas de Inverno.
- Li um artigo sobre o assunto na página do Alcides, aquele tipo que te apresentei quando fomos ao festival de filmes de terror. Lembras-te?
Alberto acenou positivamente.
- Segundo ele, os habitantes incendiaram a biblioteca municipal para apagarem da origem da cidade o facto de o rio ter sido construído pelo homem e não pela natureza. Reza a lenda que a cidade se tornou ilha pelo esforço empreendedor dos homens que defendiam a cidade do assalto dos mouros, uma lenda em cinzas como a biblioteca.
Entreolharam-se e riram. Havia pessoas tão estranhas tão perto deles que às vezes parecia uma insensatez adolescente procurar indícios de contactos de extraterrestres com os humanos. Sem saberem, os dois amigos tiveram o mesmo pensamento: o Alcides é que daria um bom ET.
Ricardo retomou:
- De todo o modo, o melhor é fazermos o trabalho de casa. Que tal eu pesquisar sobre a cidade, com ou sem lenda, e tu desenhares uma ou duas tiras com base no relato que vimos no You-tube?
- Marcas tu a pensão?
- Claro.
- Estamos então combinados. Vai ser uma reportagem fantástica!
Dois dias depois, preparam o equipamento e trocaram notas. Iam partir durante a noite.


Reportagem

Nunca tinha querido ser outra coisa que não aquilo. O pensamento martelava-lhe o cérebro enquanto esperava, misturando-se com o troar contínuo dos disparos cada vez menos distantes. Umas horas antes tinham chegado ao hotel os primeiros alertas de novos conflitos junto à fronteira e cada jornalista, o melhor que pudera, fizera chegar notícia à capital. Iriam para o ar dali a minutos. Era noite em Lisboa e eles seriam a grande reportagem do horário nobre, um relato de medo e carnificina suficientemente distante para chocar sem interromper a refeição. Nunca tinha querido ser outra coisa que não aquilo, mas a primeira vez que reportara de uma zona de guerra vomitara de medo, e nessa altura soubera que o preço da coragem não se paga de ânimo leve. Fora há cinco anos atrás.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Esperar

Esperei que as palavras viessem à superfície da página em branco. Esperei tanto tempo que as palavras vieram e não se demoraram. As palavras, ao contrario de mim, não quiseram esperar.

Esperar

A casa onde viviam era um apartamento que ficava ao cimo de cinco lances de escadas para os quais não havia elevador. A porta transpunha-se, ofegantemente, e desembocava-se numa divisão generosa que servia de sala e tinha janelas que devoravam a paisagem.
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Ele aqueceu a água na chaleira velha que apitava quando levantava fervura e despejou o líquido para dentro da chávena que perdera a cor à força das lavagens. Reproduzia o hábito mas não a consciência, pois todas as manhãs ele preparava e bebia o chá do mesmo modo ausente.
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Estava sentado à mesa e não tinha para onde ir, o lugar dele era ali. Havia uma folha em branco. Havia sempre uma folha em branco.
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Ele estava sentado e esperava por uma ideia que o atingisse como um raio.
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Ela estava de pé e esperava que ele se soltasse da sua folha em branco e a atingisse como um raio dentro dos olhos, no corredor que descai pelo estômago até à alma.
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Ela beijava-o todas as noites com o fogo de uma pessoa morta. Ele respondia como uma pessoa morta, do fundo do seu túmulo.
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Ela esperava-o e ele esperava a vida. Simplesmente estavam no mesmo lugar à espera, por isso acharam que se amavam. Era legítimo o engano.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Miséria

A miséria pode atingir o âmago do humano.

A miséria curvando o ser humano

Miséria

- É escusado! É absolutamente escusado!

Uma cabeleira grisalha em desalinho cortou a direito pelo salão, seguida por uma restolhada de tule. 

- As meninas são um desastre, fiquem sabendo, e direi à vossa mãe que nem o Santo Senhor Ele mesmo, se descesse à Terra, conseguiria do alto da Sua misericórdia infinita meter senso nessas cabeça ou talento nesses pés!

O caso parecia grave, pois nunca antes Rita e Antónia tinham ouvido a Senhora Tate invocar o nome do Senhor daquela maneira, assim como que a cheirar à blasfémia de que lhes falavam aos domingos na missa e às terças na catequese. Não, nem mesmo daquela vez em que a Antónia tinha rasgado a saia de tule novinha em folha ao insistir em salvar um bichano vadio do alto de um carvalho minutos antes da aula. Nem mesmo dessa vez a fúria da Senhora Tate tinha sido tão completa.
  
A sua voz admoestadora voltou à carga:

- Veja-me a miséria desses pliés, Antónia! E a menina Rita, que é dos ronds de jambe que a fiz treinar na quinta-feira passada? Que é da firmeza do movimento? Que é da subtileza? Estamos a dançar ballet, minhas meninas, não a sacudir o pó às roupas! Uma miséria, uma completa miséria... E pensar nos meus pobres professores, que por esta hora estarão às voltas na tumba perante o triste espectáculo que me havia de calhar em sorte!

Mais uma blasfémia, contou mentalmente Antónia. Talvez. Para dizer a verdade, apesar dos esforços incansáveis e bem intencionados do Padre Américo, não podia dizer que estivesse completamente certa do que constituía ou não uma blasfémia. Mas como em tudo o mais que dizia respeito aos seus ensinamentos, há muito percebera que em matéria de pecados, blasfémias e quejandos, antes errar as avaliações por excesso que por defeito. Caso contrário, o risco de um puxão de orelhas ou de meia dúzia de Avé Marias reparadoras aumentava de esticão.