terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Filosofia

Entrou de rompante na sala, sem apresentações, e pousou uma pasta de couro na cadeira do professor, de onde tirou um livro grosso, escondendo a capa contra o corpo.

Depois, deu a volta à secretária, encostou-se à borda do tampo e após um compasso de espera ergueu o livro acima da cabeça como um troféu ou uma oferenda sacrificial.

- O lugar da filosofia é fora das nossas mentes e dentro das nossas vidas!

Isto quase gritou o homenzinho barbudo e redondo que ocupava o centro da sala, atirando um Aristóteles para cima da mesa. E quase sem uma respiração de permeio, continuou:

- O meu nome é Adolfo Quina e vou ser o vosso professor de Filosofia este ano. Bem sei que este é o vosso último ano nesta casa e apenas o meu primeiro, mas feliz ou infelizmente para vocês, nas minhas aulas a antiguidade não é um posto. Por isso sou eu que dito as regras e as regras são simples: podem rir, podem chorar, podem copiar (desde que eu não veja), podem repetir a mesma pergunta três vezes, podem até dizer os maiores disparates do século - pouco me importa. Mas não... podem... dormir. Não quero zombies na minha turma! Outra coisa: é muito provável que não decore os vossos nomes à primeira, por isso colem-no ao peito se é importante para vocês ou então percam o ego e esqueçam o assunto. Um nome é um autocolante, de qualquer modo...

Sentara-se agora a cavalo no canto da mesa, perante a multidão atónita, e falava gesticulando, de braços abertos. Arrebanhando as ideias livremente, em ramalhetes descompostos como soluços.

- Não se iludam, meus senhores: há mais filosofia no porquê de um abraço ou no copo de leite meio cheio que bebem todas as manhãs do que em cem livros de respostas fechados numa estante. A filosofia não é uma ciência de bisturi; é uma coisa da vida, uma coisa bruta.


Do fundo da sala, um telemóvel soou prolongadamente, mas a sua cara de berlinde rosado a despontar no cimo do fato castanho manteve-se impassível.

- Mais: a filosofia é um tiro no escuro. Surpreendidos?

Nós vivíamos a idade do eterno blazé, do tédio adolescente, e mesmo para os tiros no escuro o nosso capital de espanto era limitado.  

Mas havia algo inegavelmente aliciante na proposta de livros fechados em estantes, assim como havia algo inexplicavelmente atractivo naquela figura aos nossos olhos bacoca, que nos falava de forma desconcertante enquanto agitava os braços como bandeiras a sublinhar as ideias.

- Houve um poeta que disse uma vez qualquer coisa como, protegei-me da sabedoria que não chora, da filosofia que não ri e da grandeza que não se inclina perante as crianças. A filosofia que não ri... alguém sabe o que isto quer dizer? 

Creio que nenhum de nós alguma vez pensara dois segundos segundos sobre a filosofia e as suas gargalhadas, mas ainda assim a mão do costume ergueu-se na mesa junto à janela.

- A filosofia que se leva demasiado a sério?

- Muito bem, a filosofia que se leva demasiado a sério. A filosofia engravatada, por assim dizer - arrematou ele, brandindo jocosamente a sua própria gravata no ar. - A filosofia que considera que as coisas alegres desta vida não têm dignidade para fazer parte das suas meditações, talvez? Mas lá iremos...

Balançou um pé no ar, tocou com a biqueira três vezes no chão, e tossiu mais por decisão que por necessidade. Alguém tossiu em sintonia.

- Muito bem, muito bem - matutava ele, olhando em redor, alisando o bigode com as mãos, analisando-nos um a um. - Mãos no ar se já leram Aristóteles.

E aquilo começava a parecer uma cavalgada em direcção a lugar nenhum, mas espalhados por toda a sala havia rabos sentados na ponta das cadeiras, olhos alerta, cérebros prontos a disparar e uma curiosidade miudinha de que nem nós mesmos nos apercebíamos, como algo novo que nascesse na penumbra de uma alvorada

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