Joel era um caso de estudo com um caso de estudo dentro. Escrito dotado desde tenra idade, Joel tinha um modo muito particular de trabalhar com o seu imaginário: cada livro era um mundo povoado de personagens que lhe batiam à porta e a quem ele deixava entrar sem perguntas. Por vezes, os livros nasciam apenas após a reunião de um grande círculo de personagens; chegado momento de transportá-los para as páginas do novo romance, Joel convidava-os para um grande almoço no terraço soalheiro da casa e explicava-lhes os planos que tinha para eles. Noutras ocasiões, uma personagem solitária era quanto bastava para que uma torrente de caracteres latinos começasse a estabelecer-se na página em branco e a moldar o universo do seu imaginário pela força da sua complexidade. Laura, a personagem que há quinze dias lhe bateu à porta, era um pouco diferente de todas as outras pessoas inventadas a quem recebera de braços abertos em sua casa. Era excêntrica a uma profundidade que desconhecia ser possível, muito mais do que a romena possuída pelo diabo que vendia maçãs envenenada nas feiras e que se imolara ao conhecer o filho que julgava morto, ou o relojoeiro tatuado que construía o seu próprio veleiro monolugar para lançar as velas rumo aos Açores, esperando derrotar os ventos sem tornar rudes as mãos habilidosas de que dependia. Não, Laura era muito diferente dos outros. Começou por pedir as suas próprias chaves, pois podia querer sair de casa de Joel a horas menos vulgares e, logo em seguida, mostrou-se descontente por não poder fechar-se dias sucessivos no quarto a escrever. Joel sentia-se pela primeira vez perdido no seu mundo interior, sem referências a que recorrer, sem o sentido dos limites, das fronteiras do real e do imaginário, sem conhecer outras personagens tão vincadamente independentes quanto Laura. "Escrever é a minha vida", disse-lhe Laura, "por isso, se queres saber quem sou, lê o que escrevo. Aqui tens os meus cadernos." E, assim, de um momento para o outro, Joel descobriu que para conhecer Laura, para incluí-la nos seus escritos, tinha de ler os dela primeiro. Conhecê-la era lê-la.
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