quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Génio

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Poema para ti 
  
Ontem olhei-te nos olhos, procurei-te dentro. 
Procurei-te longe da superfície inerte, no fundo intocado onde guardamos as coisas mais preciosas. 

Foi desse fundo que dissemos adeus. 

Pressentindo, talvez. Ou simplesmente temendo.

Foi desse fundo que falei contigo, na linguagem que resta quando tudo se esbate.

Um olhar. Um toque. Uma ternura breve.

Dia após dia viveste a tua luta. Foste humana com cada génio bom ou mau que guiou os teus passos. Os porquês são mistérios insondáveis. 

Os porquês são o mistério humano. 

A vida segue, lenta como um rio. Rápida como um rio. Imparável como um rio. 

Hoje atravesso-o com uma memória mais. A que escolhi guardar.

Tu, recortada no fundo avermelhado de uma fotografia.
  
Ainda forte. Ainda jovem.

Estás a sorrir.

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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Quebra-luz


Para um encontro casual entre Personagem e Amuleto 


Joel mirou os cadernos de capa negra que Laura colocou estrategicamente à espreita dele no canto direito da mesa de jantar, o único pormenor da sala visível a partir do lugar de trabalho de Joel, a secretária junto à janela com vista para o arvoredo das traseiras, situada num corredor contíguo, alargado a escritório por força da imaginação. Estava pouco habituado a ser confrontado pelas personagens que acolhia em sua casa, mesmo pelas mais excêntricas e aparentemente indómitas, que acabavam sempre por se deixar seduzir pela calma natural de Joel e por se sentarem a seu lado a contar-lhe as histórias que os traziam àquela casa. Porém Laura não hesitava em afastar-se. Era esquiva, silenciosa e os olhos feridos pareciam quase sempre ausentes. Que diriam aqueles cadernos, perguntava-se Joel, enquanto se esforçava por obrigar a curiosidade a recuar ante o orgulho de ser um escritor com pleno comando das personagens que criava.

Mas a vontade de conhecer Laura era maior do que o orgulho. Levantou-se e foi buscar um dos cadernos, abrindo-o na última página escrita:

"29 de Janeiro de 2013

ouço uma voz do fundo da alma a dizer não desistas cedo demais

esta voz dilacera-me como um silício em torno do peito. 
esta voz contraria todas as evidências aparentes e fala-me de um futuro que a razão é incapaz de acariciar.

esta voz diz-me que é possível encolher oceanos e mover placas tectónicas e que cabe-me a mim descobrir como. 

eu não sei se a voz está certa e dói-me fisicamente que me dê esperança. dói-me quase tanto, ou até mais, do que não poder estar com ele e saciar a minha sede.

de uma coisa eu tenho a certeza: tenho um coração de fogo no peito e uma bússola. não me perderei.

haja luz, 
haja luz sem quebras, 
sem corpos estranhos entre mim e o sol. 

enterrem o quebra-luz
é hora da madrugada"

Quem é Laura? Quem é ele?

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Quebra-luz

Às vezes consigo vê-la de modo singularmente distinto. Uma jovem emoldurada num sorriso mais-que-perfeito, a chegar à boca de cena com o seu fato irrepreensível, os seus sonhos numa mão e a sua fragilidade humana a escapar-se-lhe pelas falhas dos olhos. Ela serena, pronta a domar a vida; ela expectante; ela insatisfeita no mais íntimo de si; ela feliz, cheia de amor, por dentro e por fora, amor a jorrar pelo seu fato irrepreensível abaixo. Ela a enfrentar a curva sinuosa para a qual ninguém nos prepara. Isso é viver.

A sua cara cuidadosamente esculpida observa-me ano após ano, sob a protecção do quebra-luz, numa mesa de apoio que é igual a si própria desde sempre, e ela também é igual a si própria desde sempre, desde que eu me vejo existir. Junto ao enorme candeeiro de onde jorra o dia artificialmente abatido, o dia filtrado por um cilindro elegante, estamos eu e ela lado a lado, imagens perenes do que fomos. Hoje ela não me conhece, não sabe no que me tornei. Pergunto-me como me amaria, se pudesse ver-me através da sua moldura inerte.

Pergunto-me se somos iguais ou diferentes. Imagino-a a compor a saia com as mãos e a compor a vida aplicadamente, a tornar-se nela mesma, a viver os sonhos menos as coisas que teve de dar em troca pela existência que escolheu para si. Imagino-a nesse dia preciso em que percebeu que todos damos em troca um parte de nós, pela parte sobrante. Vejo o momento dessa realização esgazeada a abrir espaço numa piscina genética, a mover-se na cadeia, elo a elo, a passar as gerações, a fundir-se com o cordão umbilical ao qual eu me agarrava à espera de nascer.

Ela está a olhar para mim, a sorrir, completa, completa um pouco mais, uma peça do puzzle a encaixar-se na imensidão de um mosaico incompleto até ao fim. Ela está no sítio de sempre e o quebra-luz assinala o local, o quebra-luz que talvez tenha ou talvez não tenha sido ela a escolher, ela a colocar, ela a determinar com um gesto porventura irreflectido o lugar dos nossos encontros regulares.

Se pudesse, dizia-lhe que tentei recolhê-la dos pedaços guardados pelos outros, que não é fácil vê-la inteira porque me chegou dividida, que não é fácil conhecê-la porque me chegou interpretada, mas que ainda assim a guardo entre os meus tesouros, ainda assim a levo comigo como um estafeta carregando uma mensagem cifrada até à meta, passando-a a novas mãos, realizando um ciclo interminável do qual somos todos apenas uma peça.

Personagem

Joel era um caso de estudo com um caso de estudo dentro. Escrito dotado desde tenra idade, Joel tinha um modo muito particular de trabalhar com o seu imaginário: cada livro era um mundo povoado de personagens que lhe batiam à porta e a quem ele deixava entrar sem perguntas. Por vezes, os livros nasciam apenas após a reunião de um grande círculo de personagens; chegado momento de transportá-los para as páginas do novo romance, Joel convidava-os para um grande almoço no terraço soalheiro da casa e explicava-lhes os planos que tinha para eles. Noutras ocasiões, uma personagem solitária era quanto bastava para que uma torrente de caracteres latinos começasse a estabelecer-se na página em branco e a moldar o universo do seu imaginário pela força da sua complexidade. Laura, a personagem que há quinze dias lhe bateu à porta, era um pouco diferente de todas as outras pessoas inventadas a quem recebera de braços abertos em sua casa. Era excêntrica a uma profundidade que desconhecia ser possível, muito mais do que a romena possuída pelo diabo que vendia maçãs envenenada nas feiras e que se imolara ao conhecer o filho que julgava morto, ou o relojoeiro tatuado que construía o seu próprio veleiro monolugar para lançar as velas rumo aos Açores, esperando derrotar os ventos sem tornar rudes as mãos habilidosas de que dependia. Não, Laura era muito diferente dos outros. Começou por pedir as suas próprias chaves, pois podia querer sair de casa de Joel a horas menos vulgares e, logo em seguida, mostrou-se descontente por não poder fechar-se dias sucessivos no quarto a escrever. Joel sentia-se pela primeira vez perdido no seu mundo interior, sem referências a que recorrer, sem o sentido dos limites, das fronteiras do real e do imaginário, sem conhecer outras personagens tão vincadamente independentes quanto Laura. "Escrever é a minha vida", disse-lhe Laura, "por isso, se queres saber quem sou, lê o que escrevo. Aqui tens os meus cadernos." E, assim, de um momento para o outro, Joel descobriu que para conhecer Laura, para incluí-la nos seus escritos, tinha de ler os dela primeiro. Conhecê-la era lê-la.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Personagem

Sou uma personagem ficcional numa história real. Estou a ser escrita por mim própria, linha a linha, e vou para onde quero, que é qualquer sítio para onde me mandam. Sou uma personagem complexa na minha singela platitude. E sou real enquanto alguém mantiver o livro aberto. Tenho a espessura de uma folha e a dimensão de um universo e por vezes pergunto-me se existo aqui ou na cabeça de alguém. Eu falo em diálogos. Eu vivo em parágrafos. As minhas acções são verbos e os meus atributos adjectivos. Eu mesma sou um nome próprio. Sou cuidadosamente composta, para que se possam demonstrar coisas comigo. Eu sirvo para sublinhar argumentos e fazer novas perguntas. Eu sirvo para chegar a um final possível. A uma resolução. A uma síntese. Eu sintetizo a existência numa linha única que me perpassa da cabeça aos pés.

Ouvir

Severina, com o seu cabelo desconcertantemente loiro, formas generosas e semblante em eterno desafio. Severina, de passada larga. A sua entrada exigia respeito. O respeito devido aos que arregaçam as mangas e engrossam a voz frente aos touros desta vida.

Trabalhava a dias para o casal Granja, segundas, quartas e sextas, das nove à uma. Era uma casa que denunciava uma certa ordem natural das coisas, com as suas fotografias meticulosamente desalinhadas e os móveis de mogno maciço a reluzirem na luz da manhã.

A senhora estava pouco, o senhor passava o dia em casa, de roda das partituras (assim ele mesmo explicara, daquela vez em que ela perguntara pelo destino a dar a um monte de folhas, aquelas com muitas linhas todas juntinhas).

As indicações eram as habituais: varrer, aspirar, lavar, passar a ferro, coser o necessário, adiantar as refeições, manter a ordem geral. Uma única regra extraordinária: evitar escrupulosamente o estúdio, aquele quarto pequeno no extremo do corredor, de trânsito quase impossível, redentoramente soalheiro e com janelas voltadas para o mar. Dali saiam continuamente sons, os bons, os maus e os incompreensíveis, curtos silêncios, lamentações exasperadas e por vezes o senhor, num desvario absoluto, trotando em direcção à porta da rua, por onde desaparecia de casaco na mão.

Aos poucos, sem saber porquê, Severina começou a ouvir. Não percebia como era possível semelhante angústia naquela vida adequadamente assente em coisas sólidas, como um apartamento de quatro assoalhadas. Mas alguma parte dela se angustiava também, com cada acesso de fúria, ou então sorria dentro quando uma harmonia mais doce escapava pelas frinchas da porta. Ela abanava a anca e batia o pé ao som de sinfonias, ela suspirava em uníssono com o aspirador ao som de um nocturno ou de um arabesco, ela não saberia dizer estas coisas mas, de uma forma estranha, sabia sobre elas o mais essencial.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Ouvir

As palavras começaram a ruir como um castelo de cartas em movimento irreparável. A música tinha desaparecimentos súbitos, primeiro como fugas de volume, depois como ausência de notas. Era a voz muda da surdez que se impunha no mundo. Estava a deixar de ouvir. Estava a ouvir-se apenas a si mesma, num mundo em que a queda de uma chávena de porcelana soava a vibração indistinta, em que o ruído mecânico do motor do carro era a vibração que sentia no volante e tão-só.

Estava a ensurdecer e era o pior pesadelo que imaginara para si. Podia cegar, mas nunca deixar de ouvir. Foram os ouvidos que lhe permitiram descobrir o sentido vivo da música, a arte a que dedicara uma vida.

Deixar de ouvir o mundo e ouvir-se apenas a si mesma a tocar num anfiteatro vazio.

Deixar de ouvir música no anfiteatro.

Ensurdecer era morrer para tudo aquilo para que sempre tinha vivido.

Tremeluzir

Tremeluzir é a acção do corpo que treme e que reluz. 
E que corpo treme e reluz que não o corpo do amante?
Tremeluzir é estar apaixonado. 

Tremeluzir

Tremeluzir. Bruxulear. Cintilar. Brilhar com luz trémula ou vacilante. A luz dançando entre os dentes e a língua antes de se tornar respiração branca a flutuar em frente aos olhos. Estrelas ou chamas humanas, a dimensão é a mesma. Não há palavras pesadas para exprimir o que é leve. Não há palavras grandes para exprimir o que é enorme. Há palavras que ondulam, que se enrolam à volta da mão, que se aquietam, antes de se elevarem no ar como brisa.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Sorte

Escrito num muro de papel: "É quando o teu corpo deixar de vibrar de medo que conseguirás ouvir enfim a voz da tua consciência. Será como uma campainha a chamar-te. A ti cabe-te apenas abrir a porta. Quando a abrires, verás que é a sorte que te espera do lado de lá.".

Sorte

Não era um tipo com sorte, nem a esperava. Passava os dias entre as prateleiras e os balcões de uma pequena mercearia de bairro, acompanhado pelo zumbido ondulante da rádio e os altos e baixos de um leve coxear que lhe ficara de um acidente de bicicleta em criança. 

Tinha clientes encurvados, que vinham por uns gramas de isto ou um pacote daquilo, tinha clientes com os cabelos em desalinho, arrastando crianças vermelhas de birra, tinha clientes vermelhos do tinto arrastando uma garrafa às vezes invisível, tinha clientes simplesmente incaracterísticos.

E tinha tempo, carradas dele, a espreitar entre as cestas de fruta, os pacotes de leite e as fileiras de minis alinhadas como soldadinhos de vidro. Do canto, pendiam às resmas as lotarias, os totolotos, os totobolas, os euromilhões, as raspadinhas, a fortuna e o azar à espera de serem distribuídos em parcelas desiguais a troco de uns poucos de euros.

Quando lhe perguntavam se alguma vez lhe tinha saído alguma coisa, estalava a língua e largava um pequeno humpf gutural:

- Sair sai sempre, do bolso!

Se se sentia mais conversador, comentava o tempo ou a bola. 

Não é que fosse antipático ou avesso à companhia. A verdade é que raramente via razões para quebrar o silêncio durante muito tempo. Gostava de ouvir o que lhe contavam, sorria ao de leve, oferecia sugestões quanto à escolha da alface, tirava a conta, lamentava-se da chuva, hoje ainda só tive aqui duas pessoas, veja bem!, e algures dentro dele alguma coisa voltava ao descanso.

Um dia, numa hora morta, enquanto o rádio berrava queeeem perdeeeeuuu.... foste tu só tu e nunca eeeeeuuuuuu..., lembrou-se de enganar o tédio com umas apostas no Euromilhões, cerca de uma dezena de números lançados ao acaso. Dias depois, descobriu que estava rico. Tinham-lhe saído uns trocos acima de um milhão e trezentos mil euros e a sua primeira medida foi descer a rua até à mercearia (morava nove prédios acima) e empilhar na parede da direita os sacos de feijão vermelho que tinham chegado na véspera.

Não tinha experiência com a sorte. Se a tivesse sentido antes, em porções toleráveis, geríveis, talvez soubesse o que fazer com ela. Mas na presente circunstância era como uma criança a quem dessem para as mãos uma pipeta, um tubo de ensaio e uma caixa de petri. Tudo o que via era uma montanha de vidro quebradiço. O menor movimento podia ser o fim.

E portanto fez o que sempre fazia. Com o matagal de dinheiro adequadamente guardado numa gaveta electrónica que ele nunca vira, seguiu um mês inteiro naquela vida de levanta a grade exterior, monta o escaparate, acomoda o arroz ao lado do feijão, escolhe uns cachos de uva preta para a D. Susete, guarda no armário a encomenda do casal que acabou de se mudar para o bairro, desembrulha a sandes de presunto à hora de almoço, trinca-mastiga-mastiga, vende dez minis, vende duas garrafas de vinho, vende uma caixa de tremoços, tira a conta, dá o troco, fecha a grade de fora, sobe a rua, janta iscas e arroz, vê o noticiário das nove, vê a bola no café da esquina, ou a novela em casa como último recurso, dorme por fim, repete.

Uma manhã, dobrado a varrer atrás do balcão, achou um bilhete para o metro. E dois dias depois, na paragem da Almirante Reis, uma boina deixada para trás, mesmo a tempo de lhe abrigar a careca dos primeiros pingos de chuva. A marcação no centro de saúde, adiada por ausência do médico e marcada para dali a meses, foi de súbito passada para o fim da semana seguinte, porque alguém telefonara a desistir. E houve mais, e de muitos tipos, estes pequenos inesperados a facilitarem-lhe os dias, a alegrarem-lhe as horas, como se a sorte, sentindo-se ignorada, tivesse decidido seguir-lhe os passos, puxando-lhe a manga do casaco uma e outra vez, até ele parar e dizer Sim?

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Solavancos

Vai, avança. Não desistas só porque a vida anda aos solavancos. Ela anda ao solavancos porque está em movimento. Afinal tu queres ir a algum lado, não é? Então, qual é problema de sentir os solavancos da vida? Vai, avança! Estavas à espera de um pavimento perfeito, de uma estrada sem rugas? Quando hesitares, lembra-te de que ninguém verdadeiramente quer uma vida sem textura, como ninguém realmente anseia por uma vida sem sabores...

Solavancos

Os solavancos no autocarro davam-lhe vontade de rir e então ela riu. À socapa, com a mão em frente à boca, pigarreando brevemente para disfarçar, como uma pessoa ri sozinha num espaço público a completo despropósito.

- É tão chato quando isso acontece, não é? - quis saber uma voz grave vinda do banco de trás.

Porque o autocarro era pequeno, feito para os cantos esconços daquela zona da cidade, quando ela se virou ficaram os dois de nariz practicamente colado, e de súbito deram conta de como o espaço estava deserto, à excepção deles e do condutor.

Ele era magro e tinha o cabelo sedoso, do qual ela apenas via algumas madeixas negras deixadas à solta pelo barrete cor de laranja. Ela era nem magra nem gorda, nem morena nem loira, um intermédio em tudo excepto no nariz distinto, sólido, perfeito.

- Olá. Sou o Hugo - saudou ele, estendendo a mão, mais para introduzir alguma distância entre eles que para a cumprimentar.

- Bem, suponho que podia ser pior.

- ... o nome?

- Não, o ataque de riso. Podiam ser soluços.

Ele soltou uma gargalhada e ela notou-lhe a pontinha em falta no dente da frente.

- Ou comichão na ponta do nariz - rematou ele, recolhendo a mão subtilmente rejeitada para dentro do bolso do casaco.

Ela sorriu o seu sorriso de ocasião e, assim como havia começado, o quid pro quo secou,  uma planta repentinamente drenada de toda a seiva.

Ela voltou-se para a frente e fixou o olhar num ponto perdido lá fora, onde o nada era a coisa mais visível no escuro da noite.

O autocarro seguia no seu tropel por curvas e ruas estreitas, travando apenas o necessário para recomeçar a aceleração com mais garra ainda. Eles saltitavam no lugar, trotando involuntariamente.

- A minha professora de quarta classe costumava mandar-nos buscar água - tornou a voz.

Ela voltou-se novamente.

- Para o nariz?

- Não, para os soluços.

- Ah...

- Sim. Oito golos de água sem parar, era o remédio. E resultava!

Enquanto falava, ele ia arrancando um autocolante velho colado às costas do banco dela.

- Nunca tinha ouvido dizer.

- Pois agora sabes. Eu é que ainda não sei o teu nome.

Hesitou. Hesitou uma, hesitou duas, hesitou...

- Alice.

- Bonito nome.

- Bonito barrete.

- Noite fria.

- É verdade.

- Vamos chegar às três palavras? 

Agora foi a vez dela se rir, desta feita a descoberto, legitimada pela presença de um outro ser no interior daquela piada.