sábado, 5 de janeiro de 2013

Omelete

Os tempos eram outros. Outros tempos, outras geografias, outras gentes. Um universo desconhecido tornado o centro da vida.

Do centro da cidade para o centro da favela. Do centro do mundo para o centro do fim. 

- Outra vez omelete, mãe? - perguntou Eugénia, com os olhos firmados no prato desolado e as mãos cruzadas sobre a mesa, sustentando o queixo fechado pela desconfiança.
- Sim, filha, foi o que consegui encontrar... Foi a vizinha que...
Entrecortando a mãe com olhar impiedoso, oblíquo, Eugénia perguntou sem suavidade:
- E o dinheiro que lhe dei?
A mãe hesitou por momentos na resposta, quem sabe procurando-a com aqueles olhos que, aflitos, percorriam o chão em busca de migalhas de um tempo que passou. Com a voz insegura, quase trémula, a mãe respondeu:
- A vizinha tinha-me emprestado aquele dinheiro para o autocarro - lembras-te? - e pediu-mo de volta. Já lho devia há algum tempo e...
- Pediu-lhe o dinheiro, mas deu-lhe ovos?
- Ela é assim, um pouco apegada ao pouco dinheiro que tem... Mas generosa, uma mulher muito generosa...
- Mãe, vou perguntar-lhe isto uma única vez: de onde vêm este ovos?
Fitaram-se como o condenado fitaria quem lhe assina a sentença de morte. Condenadas, ambas, a conhecerem-se ali, através daquele olhar, como mulheres despidas de laços de sangue.
- Olha, queres saber de onde vêm? Queres? Vêm do cu da galinha!
Eugénia, levantando-se com o peso de mundo ao peito, aproximou-se da mãe e ao ouvido disse-lhe:
- O cu da galinha deve estar no meio das pernas do vizinho.

Do centro do lar feliz para o centro da prostituição. Eugénia, mas não ingénua. Filha de uma puta.


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