sábado, 26 de janeiro de 2013

Ouvir

As palavras começaram a ruir como um castelo de cartas em movimento irreparável. A música tinha desaparecimentos súbitos, primeiro como fugas de volume, depois como ausência de notas. Era a voz muda da surdez que se impunha no mundo. Estava a deixar de ouvir. Estava a ouvir-se apenas a si mesma, num mundo em que a queda de uma chávena de porcelana soava a vibração indistinta, em que o ruído mecânico do motor do carro era a vibração que sentia no volante e tão-só.

Estava a ensurdecer e era o pior pesadelo que imaginara para si. Podia cegar, mas nunca deixar de ouvir. Foram os ouvidos que lhe permitiram descobrir o sentido vivo da música, a arte a que dedicara uma vida.

Deixar de ouvir o mundo e ouvir-se apenas a si mesma a tocar num anfiteatro vazio.

Deixar de ouvir música no anfiteatro.

Ensurdecer era morrer para tudo aquilo para que sempre tinha vivido.

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