Chegamos à entrada do jardim e uma estrada de pedra cinza e negra desenrola-se como um tapete de privilégios para um mundo idílico de flores e de árvores, onde cada pormenor foi pensado até ao limite do detalhe.
Só flores de tez calmante e de significado claro, cuidadosamente ordenadas por cor e por cambiante de cor. Apenas árvores esguias, com folhagem farta e sem vestígios de fruto.
"Porque é que não há rosas?", atrevi-me a perguntar no primeiro passeio, desconhecendo que questionar a harmonia criada era conduta punida com choques eléctricos. Aprendi a não perguntar.
A rota da purificação é um caminho em espiral que nos conduz ao centro do jardim, um ponto insusceptível de ser percebido antes de largos minutos de peregrinação. E quando lá chegamos, ao centro, também não o percebemos. Eu não me recordo de tê-lo de alcançado, sabendo contudo que também nunca recuei.
Talvez o centro do jardim seja um nada. Um nada como nós, mulheres de olhos perdidos, loucas.
Um nada como eu.
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