sábado, 12 de janeiro de 2013

Jardim

É hora do recreio. Uma dezena de enfermeiras vestidas de bata amarela abre a porta das duas camaratas e encaminha-nos para a estrada de pedra do jardim da harmonia. Está na hora de inspirarmos a paz da natureza, circulando os corpos por onde as coisas vivas e imóveis fazem a sua aparição.

Chegamos à entrada do jardim e uma estrada de pedra cinza e negra desenrola-se como um tapete de privilégios para um mundo idílico de flores e de árvores, onde cada pormenor foi pensado até ao limite do detalhe. 

Só flores de tez calmante e de significado claro, cuidadosamente ordenadas por cor e por cambiante de cor. Apenas árvores esguias, com folhagem farta e sem vestígios de fruto. 

"Porque é que não há rosas?", atrevi-me a perguntar no primeiro passeio, desconhecendo que questionar a harmonia criada era conduta punida com choques eléctricos. Aprendi a não perguntar. 

A rota da purificação é um caminho em espiral que nos conduz ao centro do jardim, um ponto insusceptível de ser percebido antes de largos minutos de peregrinação. E quando lá chegamos, ao centro, também não o percebemos. Eu não me recordo de tê-lo de alcançado, sabendo contudo que também nunca recuei. 

Talvez o centro do jardim seja um nada. Um nada como nós, mulheres de olhos perdidos, loucas. 

Um nada como eu. 

Sem comentários:

Enviar um comentário