A minha palavra final demorou a encontrar a sua saída para o mundo. Como sempre, sou um ser relutante nas despedidas, uma andarilha que prefere sempre dizer até logo em vez de adeus, porque a vida é feita de encontros e despedidas e encontrar novos desafios, novas rotas, novos amores, é um processo de contínua renovação do que existe, que é como quem diz, para algo novo nascer, algo antigo às vezes tem de morrer.
Aprendi ao longo dos meses de escrita diária que a criatividade é um ser vivo e é como uma planta: acarinhada e alimentada, protegida e cuidada, dá flores, dá frutos, dá oxigénio. É um desafio, porque nem sempre espera quando nos atrasamos, nem sempre aparece quando a chamamos. Mas é também filha de um esforço, de um combate, de um espírito de missão, é um rebento que parimos com dores para que no mundo exista algo mais, algo que acrescente, que dê significado à vida.
O hábito fez, de facto, o blogue e só posso sublinhar que é com orgulho no percurso feito que me despeço à laia de Até à próxima. A minha vida teria sido muito diferente sem este hábito, teria sido mais cinzenta, mais fechada, menos emocionante, menos poética, menos subversiva - porque a criatividade é uma forma de nos rebelarmos contra o quotidiano que nos molda a formas que não são as nossas, com que não nos identificamos. Ser criativo é, sem dúvida, estar mais perto de nós mesmos. Por isso, que hábito melhor do que o de ser criativo? Dou por ganhas todas as horas empreendidas, dou por multiplicados todos os esforços investidos.
Adriana, que prazer imenso foi este de partilharmos um espaço de liberdade! Sem quaisquer dúvidas de que outros projectos no unirão no futuro, devo sublinhar que este foi de uma partilha inesquecível, até porque, bem sabemos, são sempre precisos empenhos de parte a parte para pôr certas ideias a mexer.
A todos os que por aqui passaram, muito obrigada!
E... Até já!
O Hábito Faz o Blog
Dois teclados, quatro mãos e uma maratona vertiginosa contra a página em branco
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
Palavra final
Não quero lamentar o fim de um projecto que termina para que outros comecem. A vida gera vida, inevitável e maravilhosamente. É assim que deve ser.
Por isso, neste post final, gostaria antes de celebrar o nascimento inesperado de uma ideia, pequenina mas determinada, cuja força serena catapultou tantas outras. Quero celebrar o que aprendi com ela, a persistência que permitiu levá-la a bom porto e o companheirismo que fez furar a direito, mesmo nas horas menos inspiradas.
Aos que por aqui passaram, por intenção ou acaso, obrigada. A vossa presença mais ou menos silenciosa foi um aditamento feliz a este nosso projecto.
E a ti, Carina A.,que dizer? Um furacão depois, 4200 metros depois, 224 posts depois, apenas isto: obrigada, sem a tua companhia teria sido mais difícil, às vezes talvez até impossível e, seguramente, muito menos divertido.
Um abraço e até à próxima aventura!
Um abraço e até à próxima aventura!
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Xaile
Ela soube, assim que ele a cobriu com o velho xaile ao xadrez, que algo havia morrido entre eles. O gesto subtil de quem se despede estava escrito no ligeiro aperto nos ombros, um projecto de abraço que se susteve, inconcretizado. Aquele xaile era a última morada das paixões que partilharam, das noites na tenda fria junto ao mar, das ondas de beijos que sibilavam por entre as marés. Aquele xaile, assim posto sobre ela, era a despedida de anos investidos em reparar as feridas como se fossem frinchas nas paredes. Ele soube, assim que ela lhe disse boa noite, que podia partir sem remorsos e partiu.
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
Xaile
xaile ao ombro
pescoço
na cabeça
rodando ao teu redor
meio dobrado
inteiro
fala por ti
a tua história
contada
no seu movimento triste ou leve
a tua história
bordada
lisa
colorida
mulher dentro
mulher dentro de algo
a flutuar na brisa
e assim que te perco
com um sopro reapareces
clara e nítida
mesmo quando fugaz
domingo, 10 de fevereiro de 2013
Piano
Parou junto à porta de entrada do piano bar. Impromptu em Mi bemol.
Hesitou, quase entrando. Mas quase entrando, acabou por afastar-se.
Ela não o esperava lá dentro.
Schubert, apenas Schubert e o vazio da saudade.
Hesitou, quase entrando. Mas quase entrando, acabou por afastar-se.
Ela não o esperava lá dentro.
Schubert, apenas Schubert e o vazio da saudade.
sábado, 9 de fevereiro de 2013
Piano
No meio da rua, a despropósito, estava um piano. Daniela quase esbarrou contra ele, de tão alheada que ia a olhar para o empedrado. Era um piano de cauda, um C. Bechstein, visivelmente usado, mas ainda majestoso com os seus reflexos negros e caprichosos.
Daniela olhou em volta. Nem carro de mudanças, nem dono à vista, apenas ruas desertas e portas fechadas às sete da manhã de um domingo. O tempo estava farrusco e havia um ventinho agreste que empurrava o corpo para dentro das roupas.
A medo, levantou a tampa, revelando ao céu cinzento aquele enorme sorriso desdentado. Acariciou o dó maior e o dó sustenido. Fez uma escala. Olhou em redor e ainda assim ninguém.
Há cinco anos que não tocava num piano. Cinco anos desde que vendera o seu, para não passar fome. Literalmente fora assim. No momento chorara, mas seguira em frente. Talvez seja a necessidade de sobreviver que tudo converte em contingências temporárias.
Mas agora alguma coisa lhe estremecia, recuperando o desgosto das suas profundezas insondáveis, e quando deu por si estava a tocar um nocturno no vazio da manhã. Houve uma janela que se abriu. E depois outra. Persianas a correr para cima ao som crescente do grande C. Bechstein a vibrar. Quando terminou, alguém bateu palmas.
Esperou quatro horas inquietas, rezando para que não chovesse, rezando para que ninguém reclamasse a propriedade, guardando fielmente o seu achado. Não apareceu ninguém. Ao início da tarde, três amigos com uma carrinha viram ter com ela e carregaram para dentro o gigante preto, conduzindo-o à sua nova morada, na Rua Angelina Vidal, onde um pequeno quarto vazio passara os últimos anos à espera.
Maratona
Decidiu correr a maratona para se manter à tona: à tona da vida, à tona do mar. Para respirar. Mas foi o mar que veio à tona, à tona dela, à tona da vida. Na maratona foi o mar que respirou.
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