Acordou nessa manhã para dois vincos estendidos no enclave entre as suas bochechas rosadas e o maciço inerte do lábio superior.
Mirou-os de lado a lado, cobriu-lhes as arestas de luz, flectiu os músculos até se tornarem fundos, apagou-os à força de dedos repuxando a pele, largou-os por fim, observando o seu retorno quase imediato.
Por esta inesperada descoberta saiu de casa apressada, com aquela noção de urgência de quem foge de uma facada invisível nas costas.
Sentia-se correr para alguma coisa importante sobre a qual nada sabia, a não ser que começara sem a sua permissão ou mesmo consciência.
Vestia umas calças de pano gasto, uma camisola com borboto, casaco anónimo e sapatos descolorados na ponta. Era a carapaça montada à imagem e semelhança do que lhe ia dentro, embora o que lhe ia dentro fosse mais complexo e difícil de diagnosticar.
Caminhava com os olhos baixos e o pescoço escondido na gola do casaco, enterrando-se na torre de roupa incaracterística, escavando um túnel dentro dela, impelida sem remédio a preservar o espaço ao seu redor, mesmo quando tudo o que fazia ao avançar assim por aquela manhã fria fosse procurar a companhia de estranhos, sem o saber.
O jardim esperava por ela à distância de meia dúzia de pensamentos circulares e enquanto tentava recordar-se se os tinha visto, aos vincos, na noite anterior, ou na noite antes dessa, achou-se subitamente jogada no coração da verdura.
O cheiro a jasmim avançou na sua direcção como um muro onde bateu de frente.
Todos os dias vinha ali esperar o raiar de qualquer sentimento profundo que a despertasse do sonambulismo existencial. Às vezes acordava, outras não. De qualquer forma nunca se sentava duas vezes no mesmo banco e nunca em bancos sem árvores ou bancos com gente.
Chorisia speciosa. Ficus altissima. Sequoia sempervirens. Durante minutos ou horas, não saberia dizer, rolava os nomes na língua, de cima para baixo, como um rebuçado redondo.
Cada árvore parecia-lhe qualquer coisa de infinito, como se as suas raízes não estivessem pregadas ao chão mas sim estendidas para lá dos confins da terra, pelo espaço sideral fora, dando a volta sobre si próprias um número indeterminado de vezes, invadindo tudo, ligando as coisas umas às outras pela força simples da sua passagem.
Naquela manhã, porém, não via as árvores mas o vazio por trás delas, o mesmo que havia dentro das covas dos vincos que trazia desenhados na cara. Sentou-se num banco vazio junto a um Bôrdo anímico - Acer negundo, registou em silêncio, mais por hábito que por vontade - e ficou à espera.
O frio da manhã abria fendas aqui e ali, por onde sangrava um sol tímido que branqueava tudo. Se ela pudesse remover-se por dois segundos de dentro da sua roupa-em-forma-de-armadura e dos seus vincos-em-forma-de-mau-presságio veria ao fundo do parque as rajadas de penas que projectavam a água do lago em todas as direcções. Ouviria os gritinhos animados e as conversas lançadas ao desbarato. Sentiria o vento curto, aos soluços, a fazer sussurrar as folhas de tantos em tantos minutos. E sobretudo pressentiria o corpo quente a sentar-se ao lado dela, embrulhado num casaco grosso, a invadir o espaço com o seu peso e dimensão.
Sim, em qualquer outro dia ela pressentiria o corpo, muito antes daquele bom dia inusitado, muito antes de tudo o que se lhe seguiu, com dois dedos a tocarem-lhe no braço e uma voz nasalada a inquirir pelas horas e a comentar o tempo como se o tempo dela fosse o mesmo que o dos outros.
Todas estas coisas ela sentiu apenas quando repentinamente quebraram a sua redoma erguida em volta do vazio, como uma colisão frontal que atira a cabeça para lá da linha dos pés e estica o pescoço muito além de onde ele pode ir.
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