Um dia cheguei a casa e tinha uma carta enfiada debaixo da porta, podendo ler-se na metade do lado de fora a palavra "Notificação". Estranhei, como seria de esperar, que uma carta me esperasse debaixo da porta ao invés de dentro da caixa do correio, o local de estilo para deixar as missivas à consideração do destinatário. Mesmo estranhando a ousadia do remetente, agachei-me logo para apanhá-la, tal era a minha curiosidade, mas a magana da carta, bojuda e encarquilhada, estava presa que nem Cristo à cruz, e tal foi a força que dei por mim a fazer para desencravá-la que, na ânsia quase colérica de rasgá-la dali para fora, acabei por me estatelar de cu no tapete da entrada da casa da vizinha. Levantei-me num ápice, não fosse alguém estar à espreita, e detive-me em silêncio a analisar o absurdo daquela situação. Repensei a estratégia e levei as chaves à porta, afinal o que eu queria mesmo era entrar em casa, pôr as lulas no congelador e calçar os chinelos, porque os malvados dos sapatos novos tinham-me maçado os pés o dia inteiro. Quando vou empurrar a porta para entrar, a porra porta não abria. Empurrei-a com mais força e nada. Dei-lhe um encontrão com o ombro e nem um centímetro se moveu, perra como uma fechadura de ferro mil anos à beira-mar. Voltei a dar-lhe com o ombro, uma vez e mais outra e mais outra, aumentando a violência do embate e nada, imóvel como uma montanha. O ombro é que estava magoado, eu enfurecido, e o vizinho do terceiro a perguntar, lá do alto das escadas, "Ó vizinho, precisa de alguma coisa? Está tudo bem por aí?". "Está, está tudo bem. Estou a experimentar o novo sistema de segurança. É dos bons", respondi, coberto da vergonha que o pugilista reformado sente quando um imberbe lhe dá umas bofetadas sem resposta. Era agora ou nunca, era pela honra e pela pátria, PUM!, dei um tal pontapé na puta da porta que até o prédio estremeceu de medo. Aberta, finalmente. Cambaleei, trôpego de ira e de cansaço, em direcção à parede mais próxima, para amparar a completa desorientação em que imergi. De súbito, recordei-me: a carta! Aproximei-me pé ante pé, mirando-a com uma desconfiança inaudita, quem sabe receando que estivesse colada ao chão. Mas não, ilesa como um diamante, a carta tornara-se por artes mágicas um envelope fino e macio, igual a tantos outros que pegara e abrira ao longo da vida. Fechei a porta e dirigi-me para o sofá, esquecido das lulas e dos chinelos, esquecido do mundo. Que raio de notificação seria aquela? Abri a carta e rezava assim:
"You have now entered the twilight zone. Your name will be Alice and your home will be called Wonderland. Yours truly, Xarade"
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