Os solavancos no autocarro davam-lhe vontade de rir e então ela riu. À socapa, com a mão em frente à boca, pigarreando brevemente para disfarçar, como uma pessoa ri sozinha num espaço público a completo despropósito.
- É tão chato quando isso acontece, não é? - quis saber uma voz grave vinda do banco de trás.
Porque o autocarro era pequeno, feito para os cantos esconços daquela zona da cidade, quando ela se virou ficaram os dois de nariz practicamente colado, e de súbito deram conta de como o espaço estava deserto, à excepção deles e do condutor.
Ele era magro e tinha o cabelo sedoso, do qual ela apenas via algumas madeixas negras deixadas à solta pelo barrete cor de laranja. Ela era nem magra nem gorda, nem morena nem loira, um intermédio em tudo excepto no nariz distinto, sólido, perfeito.
- Olá. Sou o Hugo - saudou ele, estendendo a mão, mais para introduzir alguma distância entre eles que para a cumprimentar.
- Bem, suponho que podia ser pior.
- ... o nome?
- Não, o ataque de riso. Podiam ser soluços.
Ele soltou uma gargalhada e ela notou-lhe a pontinha em falta no dente da frente.
- Ou comichão na ponta do nariz - rematou ele, recolhendo a mão subtilmente rejeitada para dentro do bolso do casaco.
Ela sorriu o seu sorriso de ocasião e, assim como havia começado, o quid pro quo secou, uma planta repentinamente drenada de toda a seiva.
Ela voltou-se para a frente e fixou o olhar num ponto perdido lá fora, onde o nada era a coisa mais visível no escuro da noite.
O autocarro seguia no seu tropel por curvas e ruas estreitas, travando apenas o necessário para recomeçar a aceleração com mais garra ainda. Eles saltitavam no lugar, trotando involuntariamente.
- A minha professora de quarta classe costumava mandar-nos buscar água - tornou a voz.
Ela voltou-se novamente.
- Para o nariz?
- Não, para os soluços.
- Ah...
- Sim. Oito golos de água sem parar, era o remédio. E resultava!
Enquanto falava, ele ia arrancando um autocolante velho colado às costas do banco dela.
- Nunca tinha ouvido dizer.
- Pois agora já sabes. Eu é que ainda não sei o teu nome.
Hesitou. Hesitou uma, hesitou duas, hesitou...
- Alice.
- Bonito nome.
- Bonito barrete.
- Noite fria.
- É verdade.
- Vamos chegar às três palavras?
Agora foi a vez dela se rir, desta feita a descoberto, legitimada pela presença de um outro ser no interior daquela piada.
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