quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Solavancos

Os solavancos no autocarro davam-lhe vontade de rir e então ela riu. À socapa, com a mão em frente à boca, pigarreando brevemente para disfarçar, como uma pessoa ri sozinha num espaço público a completo despropósito.

- É tão chato quando isso acontece, não é? - quis saber uma voz grave vinda do banco de trás.

Porque o autocarro era pequeno, feito para os cantos esconços daquela zona da cidade, quando ela se virou ficaram os dois de nariz practicamente colado, e de súbito deram conta de como o espaço estava deserto, à excepção deles e do condutor.

Ele era magro e tinha o cabelo sedoso, do qual ela apenas via algumas madeixas negras deixadas à solta pelo barrete cor de laranja. Ela era nem magra nem gorda, nem morena nem loira, um intermédio em tudo excepto no nariz distinto, sólido, perfeito.

- Olá. Sou o Hugo - saudou ele, estendendo a mão, mais para introduzir alguma distância entre eles que para a cumprimentar.

- Bem, suponho que podia ser pior.

- ... o nome?

- Não, o ataque de riso. Podiam ser soluços.

Ele soltou uma gargalhada e ela notou-lhe a pontinha em falta no dente da frente.

- Ou comichão na ponta do nariz - rematou ele, recolhendo a mão subtilmente rejeitada para dentro do bolso do casaco.

Ela sorriu o seu sorriso de ocasião e, assim como havia começado, o quid pro quo secou,  uma planta repentinamente drenada de toda a seiva.

Ela voltou-se para a frente e fixou o olhar num ponto perdido lá fora, onde o nada era a coisa mais visível no escuro da noite.

O autocarro seguia no seu tropel por curvas e ruas estreitas, travando apenas o necessário para recomeçar a aceleração com mais garra ainda. Eles saltitavam no lugar, trotando involuntariamente.

- A minha professora de quarta classe costumava mandar-nos buscar água - tornou a voz.

Ela voltou-se novamente.

- Para o nariz?

- Não, para os soluços.

- Ah...

- Sim. Oito golos de água sem parar, era o remédio. E resultava!

Enquanto falava, ele ia arrancando um autocolante velho colado às costas do banco dela.

- Nunca tinha ouvido dizer.

- Pois agora sabes. Eu é que ainda não sei o teu nome.

Hesitou. Hesitou uma, hesitou duas, hesitou...

- Alice.

- Bonito nome.

- Bonito barrete.

- Noite fria.

- É verdade.

- Vamos chegar às três palavras? 

Agora foi a vez dela se rir, desta feita a descoberto, legitimada pela presença de um outro ser no interior daquela piada.

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