domingo, 20 de janeiro de 2013

Chá

Numa noite dessas em que as palavras não ficam na boca nem na ponta dos dedos, em que as palavras parecem bichos em fuga através de buracos invisíveis nos cantos do ar, ela agarrou a caneca com as duas mãos e bebeu o chá muito vagarosamente.  

Ela bebeu gole a gole o chá fumado, que não tinha escrito no seu sabor a palavra chá, que tinha muitas coisas dentro, como madeira, como fumo, como presunto fatiado sobre a mesa.

A televisão estava ligada mas sem som e ela observava uma procissão de personagens desfilar a preto e branco. Os mortos contavam aos vivos a sua história mas os vivos apenas davam de si meia atenção, os vivos apenas exigiam aos mortos companhia.

Sem comentários:

Enviar um comentário