Uma fila de carros soluça pela Avenida abaixo. Meio metro, pára. Mais meio metro, pára. Descai uns milímetros, pára. No corredor do lado, três condutores colam a mão à buzina assim que detectam a mais pequena réstia de movimento e a ideia de ter escolhido a fila errada corre de mente em mente como um dominó interminável.
Naquele que poderia muito bem constar do Guiness Book of Records como o ritual diário mais praticado do mundo, milhares de pais lisboetas saem de casa com as pestanas ainda coladas de sono, a digerir
... a carcaça
... os cereais
... ou o café curto, muito curto, e sem açúcar
distribuindo filhos e distribuindo-se a si próprios pelos cubículos em que cada um passará as próximas oito horas.
São os primeiros momentos da manhã. A cidade incha e entope como uma artéria, fazendo temer o colapso. Nada passa, em lado nenhum, a não ser a muito custo.
À falta de melhor escape, Sara larga as mãos sobre o volante num protesto resignado e com um gesto brusco liga o rádio. Notícias, suspira em silêncio. Até a voz do locutor lhe parece especialmente sonolenta.
No banco de trás, Bruno traça triângulos desajeitados na janela, cinco, seis, os que couberem, e depois apaga-os e volta a embaciar o vidro com expirações sonoras.
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