Estava uma noite fria e silenciosa. Apetecia mesmo uma história à lareira, com bom vinho e boa música por perto, com sorrisos e debates, com partilha. Foi Joaquim quem lançou o mote e Ana quem permitiu que a palavras se precipitassem pelo abrigo da sala:
- Hoje vou contar-vos a história de uma sociedade que esteve à beira do precipício do esquecimento e que consegui escapar por um triz a um fatal destino. Pois bem, vou falar-vos do povo de Pristina, uma planície ancorada a uma extensa cordilheira a Noroeste e banhada por um mar tépido e imprevisível a Sudeste.
- Muito bem, já nasceu mais um lugar! - exclamou Eurico, erguendo o copo com um sorriso. Os demais acenaram em concordância, reconhecendo a verdade daquelas palavras. Havia sempre geografia nova nas histórias de Ana.
- A sociedade era considerada muito desenvolvida para os padrões do continente onde se encontrava, com níveis de autosuficiência e autoestima assinaláveis para uma nação contida num espaço tão limitado de terra, que muitas vezes padecem das doença da pequenez teimosa.
- Chiiiuu! Deixem-na prosseguir - disse Hugo, maravilhado com a ideia de poder participar pela primeira vez na tertúlia.
- A um dado momento da sua história, os pristinianos foram atacados por uma onda de entristecimento colectivo, por uma espécie de doença da alma, um inimigo muito difícil de combater. Os elevados níveis de actividade poluidora das nações vizinhas começara a ter efeitos no terras de Pristina, impondo uma mudança da fauna, da flora, das águas dos rios e do mar, do meio ambiente, tão expressiva que os pristianos ficaram tão desolados como a paisagem que os rodeava.
Uma pausa. Um trago de tinto.
- Como sociedade desenvolvida que era, dispunham de tecnologias avançadas e logo a mole de cientista começou a investigar as plantas, perscrutando a flora disponível em busca de um princípio activo que fosse a chave para a epidemia de tristeza. Como foi encarada como uma doença e, ademais, do foro psicológico, a comunidade académica e médica, bem como a sociedade civil, convenceram-se de que, por vezes, é preciso apagar a dor e que a dor pode estar na memória, na memória da dor que se teve, que passa então a ser a dor que se tem.
- Oi, que confusão é essa? Você já está baralhando tudo! - comentou Rosalinda, a brasileira mais divertida que alguma vez entrou na vida daqueles amigos. Era só esperar pela bobagem no final da noite, a Rosalinda transformada em comediante de palco.
Risos. Respirava-se o aroma do fogo que crepita.
- Ok, reconheço que a sociedade era um pouco confusa quanto a este ponto - desculpou-se Ana, levando o indicador aos lábios, como que reconhecendo que a boca lhe fugia para a verdade. Sim, desta vez não havia história preparada com antecedência.
- Simplificando. A ideia era a de que esquecer algumas memórias dolorosas podia aliviar o peso dos sintomas de entristecimento e, daí, permitir um combate mais intenso à doença. A ideia, claro, era inocente e pura, como todas a ideias começam por ser.
Sem quererem, os olhares de Ana e Joaquim encontraram-se num segundo infinito. Inocência e pureza. Ana prosseguiu:
- A indústria farmacêutica, que declinara de forma constante ao longos dos anos, à medida que os pristinianos se tornavam uma população mais brava, mais resistente à doença, viu na epidemia um negócio com futuro: apagar o passado.
Silêncio. Estão todos compenetrados, envolvidos, no eco das palavras. Apagar. Passado.
- Onde há engenho e arte, cumprem-se sonhos, lia-se no pórtico lateral sul da mais importante construção religiosa de Pristina. E, com um empurrão de financiamento, o sonho alcança-se com maior facilidade. Foi assim que nasceram os comprimidos do esquecimento, o sonho secreto da indústria farmacêutica e dos pristinianos deprimidos. Baptizados sugestivamente de “Mnemonica”, os comprimidos eram a antítese infalível da recordação: consoante a dose tomada, apagavam-se as memórias de dias, de meses, ou mesmo de anos. Só que sonho pode ser um pesadelo mascarado…
Mais um trago de vinho. Há que dar tempo de imaginação ao ouvintes, deixá-los intrigados.
- É como o diabo mascarado de anjo. Ui, ui, cuidado - brincou Eurico, que mais não queria do que interromper Ana, tal era o hábito enraizado de se intrometer nas histórias alheias só para saber em que desvios podiam incorrer os seus contadores.
- A sensação de alívio dos sintomas da dor da tristeza, uma maleita que os espíritos pristinianos só conheciam de nome, registada apenas em livros seculares que quase ninguém leu, tornou os compromidos do esquecimento crescentemente populares. As autoridades centrais foram-se apercebendo dos potenciais malefícios do recurso contínuo e não controlado à substância, tendo instituído mecanismo de controlo de produção, venda e consumo dos Mnemonica. Relatos dos efeitos de exposição prolongada às “borrachas”, nome de código dos comprimidos, foram suscitando a progressiva apreensão por parte dos governos regionais. A verdade é que, havendo arte e engenho… tudo se consegue e o esquecimento tornou-se, rapidamente, ele próprio, numa epidemia de consequências incontroláveis. Com requícios de malícia nunca antes vistos, muitos produtores, comerciantes e dependentes davam aos inspectores de controlo, recorrendo a expedientes variados, as doses mínimas de borrachas necessárias ao esquecimento do ilícito. Aplicar a lei severa - como sempre foram as leis em Pristina, ainda que ninguém tivesse razões para notá-lo, tal era ordem social - tornou-se cada vez mais difícil e perigoso.
- Isso é o faroeste - entrecortou Eurico, com gestos folgazãos.
- Era olhar em redor e ver - prosseguiu Ana. - Havia cada vez mais passados esquecidos nas bermas das estradas, como poças de água choca, vidas e vidas inteiras apagadas, dizimadas primeiro por uns singelos dias de ausência de vida, depois por blocos inteiros de anos escavados fundo numa já só meia-pessoa…
Rosalinda impôs-se: - Oi, Ana, que mudança! O clima está ficando pesado, não é gente? Bota acção e vida nisso, amiga.
Houve uma confluência disfarçada de opiniões. De facto, com o cheiro da lenha estimulava a mente a vaguear pela ideia de esquecer o passado e cada um dos ouvintes tacteava, com maior ou menos hesitação, de forma selectiva, os eventos que eliminaria da sua vida.
- Tens razão. Vou já terminar. Como podem antever, foi o início do caos, o início da guerra. É que, por razões de segurança e de saúde públicas, os Mnemonica foram totalmente proibidos e acabaram erradicados pelo uso da força, pelo recurso às armas. Os sobreviventes do apocalipse da memória referiram-se à reconquista como “os anos da grande queimada”.
- Fim -