Severina, com o seu cabelo desconcertantemente loiro, formas generosas e semblante em eterno desafio. Severina, de passada larga. A sua entrada exigia respeito. O respeito devido aos que arregaçam as mangas e engrossam a voz frente aos touros desta vida.
Trabalhava a dias para o casal Granja, segundas, quartas e sextas, das nove à uma. Era uma casa que denunciava uma certa ordem natural das coisas, com as suas fotografias meticulosamente desalinhadas e os móveis de mogno maciço a reluzirem na luz da manhã.
Trabalhava a dias para o casal Granja, segundas, quartas e sextas, das nove à uma. Era uma casa que denunciava uma certa ordem natural das coisas, com as suas fotografias meticulosamente desalinhadas e os móveis de mogno maciço a reluzirem na luz da manhã.
A senhora estava pouco, o senhor passava o dia em casa, de roda das partituras (assim ele mesmo explicara, daquela vez em que ela perguntara pelo destino a dar a um monte de folhas, aquelas com muitas linhas todas juntinhas).
As indicações eram as habituais: varrer, aspirar, lavar, passar a ferro, coser o necessário, adiantar as refeições, manter a ordem geral. Uma única regra extraordinária: evitar escrupulosamente o estúdio, aquele quarto pequeno no extremo do corredor, de trânsito quase impossível, redentoramente soalheiro e com janelas voltadas para o mar. Dali saiam continuamente sons, os bons, os maus e os incompreensíveis, curtos silêncios, lamentações exasperadas e por vezes o senhor, num desvario absoluto, trotando em direcção à porta da rua, por onde desaparecia de casaco na mão.
Aos poucos, sem saber porquê, Severina começou a ouvir. Não percebia como era possível semelhante angústia naquela vida adequadamente assente em coisas sólidas, como um apartamento de quatro assoalhadas. Mas alguma parte dela se angustiava também, com cada acesso de fúria, ou então sorria dentro quando uma harmonia mais doce escapava pelas frinchas da porta. Ela abanava a anca e batia o pé ao som de sinfonias, ela suspirava em uníssono com o aspirador ao som de um nocturno ou de um arabesco, ela não saberia dizer estas coisas mas, de uma forma estranha, sabia sobre elas o mais essencial.
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