quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Nuvem

Timóteo entretém-se a adivinhar a vida das nuvens. Está deitado de costas na relva quente e os seus olhos esculpem árvores no branco imaculado, árvores que se convertem em águias, águias que se convertem em peixes, peixes que se convertem em homens que lutam com dragões de lança na mão. As nuvens estão amontoadas como pilhas de açúcar no céu, todas excepto uma, uma pálida nuvem solitária que escapou do rebanho e deriva para sul.

Ele sente o calor do sol esbofetear-lhe a face, como que a dizer acorda! vê com os teus olhos esta imensidão de vida!

Com uma mão debaixo da cabeça, solta a outra para puxar o queixo de Nina na direcção da sua cara, voltando-lhe o olhar para o seu. Beija-a uma, duas, três vezes, e ela trepa com o seu corpo magro como uma planta, deita-lhe o cabelo sobre a cara num beijo lento, afoga a intensidade do sol num calor mais manso.

Subitamente ele sente-se embaraçado por aquela intimidade nova que por vezes ainda toma consciência de si própria. Uma respiração dentro da sua, dedos tacteantes, um corpo onde antes o seu terminava cortado pelo espaço vazio. Timóteo regista estas coisas, tenta fixar o momento.

A nuvem solitária converteu-se num cão que dorme enrolado sobre si próprio. Nina voltou ao sítio debaixo do seu queixo e o sol voltou a derramar-se-lhe sobre o rosto. Ele não se mexe.

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