I
(...)
Conceberei por entre estas estreitas margens de papel o traçado à mão livre de reflexões incontíveis que ao longo do tempo fui escrevendo e guardando no fundo das gavetas da memória, como uma síntese de momentos de iluminação que recuperei do baú, selado pelo pó do esquecimento. Cada meditação está para mim contextualizada no espaço e no tempo, tem uma génese concretamente motivada, tem uma história que conheço por experiência própria; porém, para além da atomização de contextos que eu lhes reconheço, é possível discernir um elo sublime a unir cada meditação, que são as dúvidas persistentes, intransitivas, sobre o que é a condição humana, sobre como se caracteriza o ser humano, sobre como é pensável o destino da humanidade. Condição humana: duas singulares palavras que designam uma única realidade são o horizonte translúcido em que se encontra fundida a página das reflexões.
(...)
II
Ser humano é, antes de mais, ser um ser vivo: nele se realizam as condições de vida, os dados tangíveis que a biologia apreende e interpreta. De outro modo: o ser humano é um ente da natureza sujeito às condições de existência (fenomenológicas) dos seres vivos e, como qualquer outro ser vivo, o ser humano tem um corpo, uma massa orgânica, apreensível e definível, possui uma condição biológica específica. O corpo integra a condição humana, é imanente à fenomenologia do humano e apresenta-se em simultâneo como um princípio e um limite de ser, porquanto todos o seres humanos nascem, desenvolvem-se e definham num corpo concreto, onde a vida começa e acaba de forma inelutável.
A descoberta da biologia é a descoberta da vida no que tem de mais simples, de mais espontâneo e de mais sublime. A biologia, enquanto ciência dos seres vivos, desmistifica a vida ao estudar os fenómenos vitais, capta na mecânica anímica da natureza a aparição da vida (noema). A vida é assim para a biologia ciência um pressuposto insusceptível de especulação , a vida existe e é explorada nas inúmeras manifestações. Posso afirmar que a vida se inscreve em mim tal como a engrenagem nos ponteiros no relógio: se estou aqui neste momento, sentada, escrevendo, a meditar com o papel, é antes de mais porque o coração me bate, porque respiro, porque o cérebro labuta. Nada disto é um sonho esotérico ou um delírio febril, não é uma morta quem escreve, estou biologicamente viva, é comprovável, é ciência, a morte ainda não me atingiu. Sou um ponteiro que se move no tempo porque a engrenagem continua a funcionar – a energia propulsora da corda do relógio ainda flúi e nenhuma peça fundamental se quebrou irreversivelmente. Sinergia.
Na senda de uma abordagem científica da vida humana, no âmbito de uma taxionomia simples e incontroversa, o ser humano é classificável como um animal mamífero da família dos primatas que adoptou uma posição erecta, que é bípede e bímano, com certa dimensões e peso do crânio, possuidor de aptidões intelectuais singulares na Natureza, que são os elementos mais sólidos para a distinção de outras espécies. Num périplo pela biblioteca, encontrei uma enciclopédia com uma entrada relativa ao ser humano que retive pela sua aparente simplicidade e limpidez: «o facto de ser um mamífero de posição normal vertical, capaz de linguagem articulada, possuidor de uma cultura material e que constitui uma entidade moral e social (…) como critério correntemente aceite para o distinguir de outros animais» . O verbete corroborava a boa escolha das características que enunciei por fundamentais, mas ia mais longe do que a minha reflexão quase minimalista me consentiu: trouxe ao eixo vertebral do ser humano a espiritualização, com a referência à entidade moral. Ora, mencionei como sendo inerentes ao ser humano certas características morfológicas e cognitivas, porém omiti qualquer referência às ideias de cultura e de moralidade. Fi-lo com o propósito de estabelecer um critério em exclusivo atinente ao corpo, pois o corpo é, como demonstrei, um princípio de ser, devendo portanto constar de modo inequívoco no princípio de uma reflexão sobre a condição humana. Pergunto então: Será que a espiritualização também é um princípio de ser (humano)? A cultura e a moralidade são condições intrínsecas da vida humana?
Com efeito, ninguém contestará que a cultura e a moralidade são ideias ou conceitos intangíveis e assim inapreensíveis pela biologia enquanto ciência dirigida ao fenómeno físico, pelo que a não inclusão inicial da cultura e da moralidade no elenco das características humanas é perfeitamente coerente com - e justificável face – as premissas de que parti. Porém, se subjacente ao raciocínio se encontra a ideia de que o corpo não contém, ou dele não deriva, o espírito, e portanto de que não se pode inferir do facto de que o corpo é um princípio de ser que o espírito também o é, não parti da corporeidade com necessária exclusão do espírito – este também pode ser um princípio de ser. Porque não há incompatibilidade insuperável entre espírito e corpo; porque o espírito habita, em simbiose, o imaginário humano e está por excelência patente na representação do homem perante o homem.
(...)
Se o ser humano descende dos primatas ou, numa outra formulação, evoluiu a partir deles (desconsiderando, portanto, o início teológico da humanidade) pergunto-me a partir de que momento pode falar-se, em rigor, do ser humano, enquanto tal, isto é, enquanto aquele animal mamífero com uma morfologia típica e idiossincrática que descrevemos supra? (Será importante sabê-lo?) Será a ciência aplicada capaz de precisar o momento? E, supondo-a capaz, com que critérios a ciência determinará a marca do início do ser humano no mundo?
Um problema é a consideração da entidade moral e cultural como um dos critérios identificadores do ser humano; estes critérios, devendo guiar com maior ciência as mentes a uma arqueologia da existência humana, entrariam em crise, perdiam o carácter de certeza que lhes é exigido; e uma simples pergunta como “a partir de quando se pode falar em ser humano enquanto tal?” faria emergir um debate circular e infecundo sobre a aparição das almas no tempo, minando de fés um solo que se desejam enxuto. Teríamos que fundamentar ontologicamente a entidade moral e cultural e lançaríamos bem longe as redes apertadas dos nossos preconceitos.
E, se não há uma última palavra sobre quais as características imprescindíveis para que possamos afirmar que um certo ser é humano, como se pode então, com a exactidão que se requer, remontar a um passado tão distante para nele colher provas irrefutáveis? Só desconsiderando a moralidade se poderá situar no tempo a metamorfose dentro de uma periodificação em que o ponto inicial seja o ciclo provável da especiação.
Quanto a mim, desde há muito que mantenho com firmeza a ideia de que é a capacidade artística, a fertilidade e a geração de arte, que constituem o espírito que nos distingue em absoluto de quaisquer outros animais, embora tal dádiva não seja o suficiente para deixarmos de ser animais.
(...)
Sem comentários:
Enviar um comentário