quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Trocadilho

Foi quando voltou de seis meses como enfermeira voluntária numa missão em São Tomé e Príncipe que a minha irmã Inês me telefonou a pedir que a fosse buscar à Portela, com malas e tudo, e a levasse directamente à Versailles a comer castanhas de ovos e tarte de gila. Como quando éramos pequenas e o pai nos passava à surrelfa a sua última castanha, gorda e apetitosa, já muito depois de a mãe ter determinado que "pronto, chega de açúcar por hoje!"

E foi ali mesmo, com os lábios cobertos de açúcar e sem aviso prévio, que a Inês me disse que estava estava a pensar tornar-se freira. Como se me informasse de uma ligeira alteração nos planos para o jantar.

Eu estava sentada a bebericar o meu galão escuro e a sofrer as penas de uma eterna dieta quando, de repente, senti o líquido morno entrar no túnel errado. Tossi até as lágrimas me virem aos olhos, enquanto a Inês me dava pancadinhas afectuosas nas costas, com o seu ar impassível. 

Quando o cliché se tornou demasiadamente insuportável, como um mau filme numa tarde de domingo, pus fim ao ataque de tosse.

- Quer dizer que agora vou ter de passar a chamar-te Irmã?

Ela riu-se e o trocadilho ficou a pairar entre nós por uns momentos, como um sorriso amarelo. E então talvez o tenha imaginado, um curtíssimo flash, um reflexo veloz de qualquer coisa incerta a atravessar-lhe os olhos castanhos, tão rápida que mal se notava. Uma nota de dúvida, ou seria súplica?, que ela apagou de imediato com um golo de chá.

- Sabes, não estão propriamente a dar licenças de freira na Farinha Amparo... Já falei com uma irmã da pastoral vocacional, mas é todo um processo.

- Estou a ver.

Não estava. Aliás, não queria estar. Não queria ver nada, nem saber nada! Tudo aquilo me atingia às ondas, como um interlúdio surreal no meio de uma tarde que começara simples e mundana. Parecia-me impossível que tudo aquilo estivesse a acontecer ali, naquele lugar onde mil e uma vezes tinhamos vindo, no meio de uma troca de galhardetes e duplos sentidos humorísticos igual a tantas outras, e sem que um buraco se abrisse no meio do universo e nos sugasse para outra dimensão, onde as versões alternativas de nós mesmos acontecem.

- Sim. Segundo me explicaram, depois da orientação vocacional, se tudo correr bem aí, começo o pré-noviciado, depois o noviciado, e por fim a profissão temporária e a profissão perpétua.

- Parece complicado - murmurei. E com isto queria dizer: mas como e quando é que isto foi acontecer?! - Ó Inês... mas... sei lá... estás mesmo a falar a sério...? 

- Ahã - exclamou ela enquanto rapava do pires os restos de ovo doce. E depois, notando o meu olhar perdido, bateu-me ao de leve com a colher já vazia na mão e aditou - Está bem, sei que a gula é um pecado capital, mas ainda assim, não achas que tenho hipóteses?

Piscou-me o olho. 

- E porquê? Porquê agora?

Ela lançou um pequeno suspiro e reclinou-se na cadeira. 

- Vá lá, Mariana, é impossível que isto te tenha apanhado completamente desprevenida!

Era verdade. Os factos falavam por si. A Inês sempre tinha sido o motor fervoroso de fé na nossa pequena família moderadamente católica. Sempre tinha havido nela o desejo de algo mais, a que nenhum de nós os três, pai, mãe e irmã mais nova, havia conseguido dar nome ou resposta. Era algo enevoado, indefinido, mas que lhe brilhava dentro sempre que havia missa ao domingo, catequese às terças, cânticos a decorar para o coro, acampamentos do grupo de jovens organizado pelo Padre Migueis, acções de voluntariado na escola e também nos momentos de silêncio, dedicados à conversa pessoal e imediata com Deus.

Mas fora nos últimos dois anos que os primeiros sinais de verdadeira mudança se tinham tornado evidentes.

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