sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Parto

Enquanto a minha mãe me contava o que sentia e pensava durante o meu parto, dei conta de como a minha existência podia ser diferente se eu soubesse o que senti e pensei quando quando vim ao mundo. Será que exclamei: "Uau, valeu a pena sair antes do previsto!"? Será que nasci inconsciente e acordei com um buááá e o mundo pareceu assustador?

- Mãe, achas que nasci entusiasmada? Ou nasci resmungona, como quando me acordam cedo?

- Filha, nasceste saudável e não gritaste muito. A partir daí só dormias. Eras um descanso de bebé.

Sorri-lhe e apertei-lhe a mão com carinho.

Parto

Não há parto sem dor. 
Quando parto, quebro o elo que me segura inteira.
Rasgo a membrana protectora que me abriga do mundo. 
Parto nascendo e nesse momento tenho de gritar porque a força da vida é demasiada em mim.
Há uma brutalidade de que sou capaz.
Há uma brutalidade que me arranca ao vazio.
Faço-me gente.
Dilacero tudo à minha passagem.
Rasgo o que existe para poder existir no seu lugar.
Renasço. Vezes sem conta.
O meu parto não termina nunca.
É o que sou.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Disparo


estava indecisa à mão armada e decidi disparar.

atirei a matar: pá, pá, pá. três disparos, três desafios.

ir comprar preservativos à farmácia,
alistar-me na marinha,
visitar os aracnídeos no jardim zoológico.

pousei a arma e fui-me deitar.


Disparo

Fora um trabalho limpo. Um único disparo, na base do crânio, com morte imediata e sem aparato.
Gabriel agachou-se junto à forma minguada que jazia de bruços e com dedos hábeis arrastou um pedaço de gaze pela mancha escura e peganhenta que alastrava pelo soalho até ao tapete estendido meio metro adiante.

O odor metálico era inconfundível. 

A janela aberta, a geografia circundante e a posição da vítima contavam-lhe parte da história: o disparo viera de longe, com trajectória perfeita e apanhara o alvo desprevenido. Quem quer que tivesse premido o gatilho sabia quando e como alcançar a visibilidade necessária, o que, dadas as circunstâncias, significava que conhecia bem os hábitos da vítima e que, muito provavelmente, aquela não tinha sido a sua primeira vez atrás de uma arma.

Restava uma questão importante, porém: porquê assassinar uma velhota de 80 anos, sem bens nem apelidos assinaláveis, praticamente confinada a um lar e cujas únicas devoções conhecidas eram a missa de domingo e a novela das sete?
 
Gabriel reergue-se e olhou em volta. Uma colcha florida, uma bíblia sobre a mesa, três peças de roupa largadas nas costas de uma cadeira e um andarilho perto do armário. Nada que pudesse guardar segredos ou suscitar surpresa. 
Ou assim parecia.

Gigante

Chasing giants in the dark

 



Gigante

Lia-se, na parede do barracão abandonado, cada palavra sua caligrafia, a seguinte mensagem: "Gigante é o poder de recriar o mundo com as próprias mãos e dar a cada um pão, tecto e liberdade, como deus deu a cada um olhos, braços e pernas."

O grupo de inspiração religiosa Gigantes do Deserto, que poucos admitiam conhecer, mas cujas mensagens iam despontando por toda a cidade, ia partir na manhã seguinte: "E o gigante acordará com o nascer do dia e irá percorrer outras terras para alimentar outros povos."

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Atracção


Amélia tomou a iniciativa. Tinha chegado o momento.

- Amigas, temos de decidir se convidamos ou não a Ofélia. O silêncio colectivo não nos resolve o problema e temos de ser honestas… - Amélia fez uma breve pausa e retomou: - Estamos todas com um ar culpadíssimo e, mais tarde ou mais cedo, ela vai perceber que planeamos a viagem nas costas dela.

O silêncio foi breve - foi um silêncio agudo, como um tinido metálico, que entrou na consciência pesada das quatro traidoras. Foi Ana quem tomou a iniciativa.

-  Eu concordo. A Ofélia tem feito os possíveis para nos compensar pela menor sorte que...

A frase atingiu Conceição como uma flecha impensada. Os ventos da conversa mudaram de súbito.

- Menor sorte? Menor sorte é ter um acidente de automóvel e não ter três. Menor sorte é estragar a máquina do café e não todo o equipamento electrónico que esteja por perto. Menor sorte é um eufemismo, Ana. Será que vocês não compreendem? O azar tem uma atracção pérfida pela Ofélia e nós somos apanhadas pela onda gigante como se estivéssemos em pleno oceano numa pequena canoa. Eu não concordo. Desculpem-me, eu não posso concordar.

O facto é que Conceição era quem mais tinha sido prejudicada pelos azares de Ofélia nas ruas da Índia. Podia ter morrido ali, de intoxicação alimentar, no meio daquela gente famélica, das instalações insalubres, do calor peganhento… Que pavor imenso à sensação de vómito permanente, de convulsão ácida, de cheiro amargo, de suor. Não, definitivamente, Conceição ainda não tinha recuperado do sucedido há onze meses, daquele azar, permanente, rodeando Ofélia como as moscas rodeavam aquelas crianças mal-cheirosas.

Leonor tomou a palavra, erguendo a compasso o corpo, como que para acentuar a autoridade que os anos lhe conferiram.

- Eu durmo no quarto com a Ofélia, se necessário. Voltando-se para Conceição, diz-lhe: - A verdade é que tu também não és a típica aventureira e, ainda assim, arriscámos levar-te connosco para o Quénia e para Índia e passámos as viagens inteiras a descobrir o teu horror pelo calor, pelas pessoas, pelas ruas, pelos mosquitos, pela comida, por tudo e mais alguma coisa. E tratar a Ofélia como um íman de todos os azares é muito, muito injusto.

(zzzz....zzzz...)

Atracção

Atrai-te o desconhecido como a atracção entre dois corpos que se agarram e repelem ao mesmo tempo. Estás no centro da convulsão, a subir pela corrente no coração da onda, e os teus pés por vezes são pequenos demais para sustentar o peso do teu corpo contra a água torrencial. Ancoras-te no fundo. Esperas. Revolves-te dentro de ti. Flutuas com impaciência até à próxima tempestade.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Cidade

Lisboa

Novembro de 2012
A arte ao virar da esquina.

E a cidade dentro da cidade. A cidade dentro de si. A cidade aberta ao mundo.

Lisboa. Rossio.

domingo, 25 de novembro de 2012

Cidade

escavações arqueológicas, excertos, 1998 - 2008

a city in your eyes!
the grey smoke
...pipes, cigarettes, chimney tops...
soaring into the blue skies


i love the rain that moves
all around my shoes
i love the rain that stains
this city floor
i love the rain that paints
my soul in blues
i love the rain that licks
the colour off these walls



nesta cidade é tudo uma questão de jeito
de passar a porta
subir a escada
trepar ao parapeito e...

Inventar

Podemos inventar um novo mundo, se quisermos. Se te disserem o contrário estão a mentir-te. Se lhe chamarem utopia, estão a mentir-te. Querem fazer-te pensar mais pequeno do que o espaço do universo consente.

Estamos vivos, neste momento, e somos livres. Somos livres de questionar todos os pressupostos mas não o fazemos porque nos ensinaram que são os pilares da nossa existência e que qualquer mudança súbita pode fazer-nos ruir. 

Na verdade, não somos nós que ruímos. É uma certa forma de ver as coisas, uma certa ordenação imposta à vida. Se removermos a capa, o que fica é a essência. E a essência é virgem, crua, indomada. Por isso temos medo. Porque nós há muito que deixámos de o ser.

Inventar

Inventei um mapa em que todos os caminhos me conduzem a ti. Um mapa sem nomes, um mapa sem fronteiras. Um mapa com terras livres para inventarmos o sonho e semearmos a felicidade. Inventei um mapa em que todos os caminhos me conduzem a ti e é hora de partir. Até já, amor.

sábado, 24 de novembro de 2012

Amuleto

- Preciso de um amuleto, Consuelo. De preferência pequeno, nada de semelhante àquele santo de louça que me ofereceste.
- O santo te fez mal? Não curaste a sarna dos vizinhos malfazejos? A Consuelo não ajudou-te?
- Claro que sim, Consuelo. Ajudaste-me muito. E é ajuda o que te peço agora também. O que eu preciso é de algo como uma pedra mágica, uma medalha santa, algo que eu possa levar comigo para qualquer lugar, no bolso, nas carteira, ao pescoço...
- Humm... Tu decidida a partir?
- Sim..
- E quereres um amuleto?
- Sim, Consuelo.
- Leva um coração de fogo dentro do peito. E uma bússola. No te perderás.

Amuleto

1

Tersan apertou o amuleto com força, deixando a marca do metal na sua pele fina. O ruído branco por trás dos seus olhos dizia-lhe sem sombra de dúvida que Pergon se aproximava com cada hora e que em breve nada mais restaria entre eles do que uma velha porta de madeira que uma patada seca facilmente derrubaria. Talvez melhor assim.

Há dias que estavam as três encerradas ali, na velha cabana de montanha, à luz de velas gastas, sem um sinal de vida que não o dos seus próprios passos ruminantes deambulando pelo espaço, congeminando mil e um cenários possíveis, antecipando o confronto, afastando pressentimentos inconfessáveis. A espera era o mais difícil e a moral de Oran e Celdian, já para não dizer a dela mesma, ressentia-se inevitavelmente. A tranquilidade com que ali haviam chegado, traçando planos de combate e estratégias de fuga, começava a esbater-se sob o manto de uma espera nervosa, que lhes apertava os músculos e aguçava os sentidos.

Dentro da sua mão direita, Tersan sentia o amuleto ganhar vida própria, um calor que escapava já por entre os dedos contraídos, o dourado sujo do metal subitamente mais vivo, o violeta duro da pedra de Quar a ruborescer até um vermelho incandescente.

O momento estava próximo. Voltou-se sobre si própria, com um olhar inexpressivo, e disse a Oran e Celdian que preparassem os arcos. 

2

Semaria encavalitava-se nas dobras de uma cordilheira a que os antigos chamavam Aramad. Aramad, a Morada da Luz, onde na roda das estações nunca o sol se retirava por completo, mesmo quando a água jorrava em torrentes do céu ou os ventos agitavam folhas e arrancavam raízes. Assim iluminada por aquela luz envolvente e dourada, Aramad resplandecia de verde em cada canto dos seus declives.
 
Do ponto mais alto da cordilheira avistam-se, para norte, as terras de Oala, e para sul, as terras de Urd. Os Oali eram um povo de comerciantes, simples e rudes no trato mas corajosos nas ambições, e que justamente à conta dessa coragem havia construído uma profícua rede de trocas com as regiões mesmo para lá do Rio Set. Os Urdin eram guerreiros e viviam sobretudo de campanhas de conquista e pilhagem das terras vizinhas.

Há muito que uma e outra margem de Aramad se envolviam em escaramuças sangrentas pela conquista de rotas e entrepostos comerciais. Semaria, no centro nevrálgico da disputa, conseguia a custo manter a sua independência, mas todos os anos a contenda crescia. Dois anos antes, um grupo de Urdin cavalgara através de um dos trilhos de Aramad incendiando tudo à sua passagem, deixando um rasto de terra e casas destroçadas de que Semaria ainda não se recompusera verdadeiramente. Oito meses mais tarde, num enfrentamento feroz na base do monte Decnan, Urdin e Oali tinham caído uns após outros, arrastando consigo uma pequena aldeia Semari cujos habitantes não tinham podido escapar a tempo.

3
  
 (to be continued...) 



sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Comida

Pensando num hipotético very short dialogue num quadro festivo não nacional:

- Mamã, por que é que damos graças à comida?
- Minha querida - disse-lhe, acariciando-lhe a face - há muitas pessoas a passar fome no mundo, ter comida na mesa é uma benção e devemos dar graças por isso.
- Hummm... e, mamã, posso também rezar pela família do perú?

Comida

A comida amontoa-se, escasseia, regala, esconde, embrutece e sublima. Divide pessoas consoante as vidas. Decide quem morre. É a história primeira de todos nós.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Saudade

Não é fascinante que, habitando a saudade no nosso peito, digamos "Tenho saudades tuas"? Que caminhos extraordinários terá percorrido a nossa língua para que a saudade, pela força da verbalização, se mostre sempre múltipla, plural? "Tenho saudades tuas" E não é igualmente espantoso que a saudade que trazemos no peito e que, por razões a desvendar,  nos sai sempre multiplicada em mil e uma saudades seja, nos contornos seculares da nossa língua, um sentimento de outrem e não nosso? "Tenho saudades tuas."

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Saudade

Costumava ser saudade, esta coisa escura que se me colou ao peito. Era saudade quando esperava algo, um gesto espontâneo, uma palavra, uma réstia de calor, qualquer coisa, sei lá! Era saudade pura mas sufocaste-a com a tua ausência. Transformaste-a em algo zangado e impossível de redimir.

Tempo

nenhum mistério é descoberto sem espanto

e o tempo permite o espanto da descoberta.


é preciso um pouco de espanto para descobrir

que às vezes o tempo


adiciona para subtrair

e

subtrai para adicionar

Tempo

Carregou o envelope consigo durante toda a tarde, como um tesouro secreto cuja guarda lhe houvesse sido confiada. De vez em quando, afagava-o ao de leve, dentro do bolso do casaco, como que a certificar-se de que ainda lá estava, enquanto uma procissão de olhos tristes se ia desenrolando diante de si, dirigindo-lhe palavras de pesar que a sua mente distante mal podia compreender. 

Só depois do enterro o abriu. A caligrafia irregular fez-lhe vir à memória o rosto macilento do pai, aqueles impossíveis últimos dias, o vai-e-vem de pessoal médico, o desconcertante cheiro que perpassava cada parede, cada lençol, cada milímetro de espaço. O branco cor-de-vácuo que engolia tudo, até os seus pensamentos. 

Era o último de cinco filhos, inesperado e distante na idade de qualquer dos outros irmãos. Recordava-se do pai como um homem de poucas palavras, sem tempo nem sorrisos, um velho já, cansado da vida, desgastado por uma existência de imperativos de toda a espécie, dos quais os mais duros haviam sido talvez os auto-impostos. Aquela natureza espartana, a honra estrita, o sentido de dever. 

A vida do pai fora geométrica, com rumo certo. E aquele percurso há muito traçado parecia não consentir desvios ou gestos espontâneos de ternura. 

A carta fora-lhe entregue pelas enfermeiras, a quem o pai a confiara. À saída do hospital, quando tudo estivesse dito e feito, nem antes nem depois, tinham sido estas as instruções rigorosas. Detestou-o por aquela última cobardia, aquele adeus póstumo de um homem que mesmo no fim não fora capaz de estender a mão. A primeira coisa que quis fazer foi rasgá-la. Depois, pegou nela e leu-a de uma só vez. Dizia isto: 

Meu Filho, 

Um dia acordas e uma música saída da rádio aperta-te o peito porque o tempo passou e há roupas que jamais te voltarão a servir e pessoas que nalgum momento tocaste pela última vez. 

Acordas a saber que um dia segue sempre o outro, inevitavelmente, numa soma sem subtracções, e que, sim, cada escolha que fazes te leva ao que será, no fim de contas, a tua vida. 

Podes tentar fugir às tuas verdades mas um dia o medo da morte vai apanhar-te e então lamentarás não teres sabido parar quando havia tempo para escutares o desejo de vida que pulsava em ti.

Quererás recuperar o tempo, refazer tudo, mas então será tarde demais. A vida terá seguido sem ti. Ou tu terás desaprendido o caminho de volta para dentro dela. Olharás para a tua mulher e verás os seus olhos que te fitam através de milhares de pequenos silêncios e desilusões. Olharás para os teus filhos e verás estranhos, que não conheces nem te conhecem a ti, que amas sem saber como, e a vergonha vai impedir-te de lhes dizeres o essencial. 

Então pára, hoje mesmo. Deixa-te apanhar. Deixa-te apanhar não pelo medo da morte, mas pela fúria de viver infinita que esse medo provoca em ti. Vive tudo o que puderes, vive tudo o que és, mesmo quando isso te for difícil. 

E quando não souberes o caminho recorda a ti mesmo que um dia ele chegará ao fim. Depois senta-te e escuta. O tempo dar-te-á a resposta.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Recado

Joaquim deixava recados aos filhos nos sítios mais improváveis. Podiam encontrar pérolas na gaveta do armário da casa de banho como "Lavaste os dentes antes de te pentear, ou ainda só penteaste macaquinhos?", ou delícias dentro dos tupperwares com a comida que sobrou do jantar como "Come-me devagarinho, ou faço-te cócegas no estômago a tarde inteira". Às vezes, Joaquim deixava ainda recados de amor nos bolsos dos casacos, como "Meu filho, és a luz dos meus dias", "Minha pequenita, tens os olhos mais doces que esta terra já viu florir", fazia-o sobretudo quando os miúdos se portavam muito bem, como recompensa pelos feitos dos diabinhos; mas, por vezes, eram as saudades lancinantes da falecida esposa que o obrigavam a reinventar o amor e a dá-lo todo àqueles três lindos seres.

Um dia Joaquim chegou a casa e, em cima da mesa da sala, encontrou um pedaço de papel que dizia: "A mamã voltou! A mamã voltou! Fomos com ela dar uma volta ao jardim!". Ouviu-se o pedaço de papel a cair no chão como chumbo. Ouviu-se a alma de Joaquim a tombar num poço sem fundo. As crianças jaziam no relva do jardim, como anjos.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Recado

Encontrei o livro numa estação de metro e dentro dele, um papel dobrado. O recado dizia simplesmente:  
Se me deres uma hipótese, far-te-ei feliz.
Desbotado, gasto, amarelecido, era como um mendigo andrajoso que se apresentava diante de mim. 

Estavamos ambos sós. 

Foi amor à primeira vista.

Desenho

Disse-te que ia mandar emoldurar o desenho de nós dois para pendurar na parede e poder ver-nos sempre que as saudades apertassem. Abraçaste-me e ao ouvido disseste-me que a felicidade deve andar connosco junto ao coração e não ser capturada como um animal selvagem numa prisão de vidro. Hesitei, mas foi irreprimível: mandei emoldurar o desenho de nós dois e pendurei-o na parede para poder ver-nos sempre que as saudades apertassem.

Mas tu nunca mais partiste e nós nunca mais fomos felizes.

domingo, 18 de novembro de 2012

Desenho

No desenho o mundo ganha forma, peso e dimensão. Sintetiza-se a luz. Destila-se a cor. Expande-se a pura essência que a palavra resume e interpreta, manifestando sem sublimar, sentindo milímetro a milímetro a distância que vai da mão até aos olhos, o espaço onde tantas vezes o pensamento se enquista como um corpo estranho.

Deserto

O deserto é a liberdade árida que fala a língua do vento: a sua cartografia é um estado de alma apenas compreendido por quem se desloca antecipando o sopro dos céus.

Deserto

O deserto acontece quando subtrais o essencial. 
O essencial acontece quando deixas de ter medo.

sábado, 17 de novembro de 2012

Boca

Open your mouth, first. I need to see if you are deep enough for me to like you.

Boca

Susana decidiu ser imaginativa com o negócio das comidas caseiras e deu à luz ao “Bocas - Pronto-a-comer & Parlatório”, um snack bar onde era possível comer e falar, falar muito, sobre todo e qualquer tema. O lema, pintado à entrada do estabelecimento, seduzia o cliente assim: “Mande bocas. Mande muitas. Aqui, todos os cantos são deliciosos. Vai ver que a sua boca não se arrepende”. Era um trocadilho com um enorme fundo de verdade: em cada canto do estabelecimento havia uma vitrine com delícias diversas, desde os suculentos salgados de massa tenra ao incontornável bolo de chocolate negro, e cada cada estava estrategicamente decorado com um mural construído a partir frases polémicas de grande vultos da história, onde Susana não se esqueceu de incluir Platão, nem Madonna. Pensado para ser eclético, quanto ao serviço, ao cliente e à ideia, o estabelecimento causou estranheza aos idosos moradores da Rua Direita, esse caminho sinuoso e inclinado perdido do centro da cidade, esquecido pelos mais jovens. A verdade é que nenhuma boca vizinha ousou insurgir-se para além de tímidos murmúrios, colhidos aqui e acolá: fisgados os apetites pela qualidade da merenda, também os ânimos se rendiam a risos espontâneos com a animadas conversas que tinham lugar na sala dos fundos. E a sala dos fundos era digna de se ver e ouvir, baptizada de Parlatório e muito similar a um confessionário, ora dos pecados praticados, ora das ideias pensadas.

(a continuar? muito provavelmente)

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Idioma

Receie que os teus olhos não decifrassem a língua morta do meu coração e tu sentiste-o. Foi então que os teus dedos percorreram as expectativas do meu corpo e desenharam os suspiros de um idioma novo onde a palavra amor se tornou possível.

Idioma

O Professor Buchmann foi trazido de Viena a meio da noite, com duas mudas de roupa na mala e poucas explicações quanto à verdadeira razão daquela viagem-relâmpago.

Reconhecido poliglota e estudioso afincado de línguas mortas e dialectos locais, só o mais atento observador, porém, reconheceria o académico por debaixo das suas roupagens soltas e tez manchada pelo sol. Pois Johannes Buchmann era precisamente o tipo de aventureiro que escalaria até aos confins da terra para registar o nascimento de um novo étimo ou a última palavra proferida de uma língua moribunda, um verdadeiro todo-o-terreno dos percursos linguísticos, que não poucas vezes arriscara a vida em nome do seu amor à arte da fala.

E ainda assim, pouco ou nada nos seus anos de experiências insólitas e aventuras invulgares o poderia ter preparado para a cena que encontrou naquela moradia modesta em Vendas Velhas, no sul mais sul de Portugal. No canto da sala, duas crianças loiras como a luz, gémeas nos traços e nos modos, falavam entre si numa qualquer mistura de línguas que nunca antes ouvira. Soava como todas as línguas sem, na verdade, se confundir com nenhuma. Alemão? Um pouco de chinês? Curdo, aqui e ali? Impossível dizer. Um idioma idiossincrático e absolutamente impenetrável, que as duas crianças pareciam dominar em absoluto, com exclusão de todos os demais.

Incapazes desde a nascença de aprender qualquer língua, comunicando sobretudo por meio de gestos que a família fora decifrando à força da adivinhação paciente, aos três anos fora-lhes diagnosticado um atraso cognitivo que os médicos relutantemente se admitiam incapazes de qualificar ou esclarecer. Pareciam, em tudo, de uma destreza normal, olhos vivos e atentos, rápidos na reacção, curiosos, activos, sorridentes. Apenas incapazes de falar. 

E assim foi durante anos, até que duas semanas antes daquela manhã, exactamente três dias depois de celebrarem o seu oitavo aniversário, os gémeos se haviam lançado num diálogo trauteado, uma melodia que cativava os ouvidos e confundia o cérebro, e que fluía deles como se nunca tivesse sido de outra forma.

A cena estava disposta como se num palco. Buchmann, mal saído da soleira da porta, de mala aos pés e olhar fixo no canto da sala, a rabiscar fonemas num caderninho magro que lhe cabia na palma da mão, os gémeos entretidos lá ao fundo com berlindes que faziam rolar ruidosamente pelo chão, a mãe, sentada na beira do sofá, como quem não ousa denunciar a sua presença, o pai, de pé ao lado de Buchmann, puxando frequentemente do maço de tabaco e voltando a arrumá-lo intocado no bolso da camisa, e os três professores engravatados do CEEFL, Consórcio Europeu para o Estudo dos Fenómenos Linguísticos, que mesmo àquela hora da manhã mantinham a pose de quem houvesse deixado os corredores da faculdade três segundos antes.

Quebrando a inércia que se instalara na divisão, o Professor Buchmann decidiu-se finalmente a avaçar no espaço, tomando a mão da mãe dos gémeos num passou-bem um pouco frouxo, enquanto no seu português limpo, tocado apenas por uma réstia de sibilância germânica, lançava:

- Por favor desculpe esta minha intromissão. Quero que saibam que lhes agradeço muitíssimo a oportunidade de estar aqui e que procurarei em tudo quanto puder respeitar a privacidade da vossa família. Mas é realmente algo... algo... wie sagt man dass..

- Uma aberração - tartamudeou o pai dos gémeos, atrás dele.

- Senhor Correia, penso que está equivocado - retorquiu Buchmann com genuína veemência - É a descoberta do século, atrevo-me a dizer, um passo de gigante para a evolução da linguística! Sabe quantas vezes temos a oportunidade de testemunhar algo como nascimento de uma língua natural? Bom, adianto-me, porque para ser rigoroso ainda temos de fazer alguns testes-- com a vossa permissão, claro!... Mas se os meus ouvidos não me traem, creio que estamos perante um verdadeiro idioma, uma língua de pleno direito! Ainda que não a possamos compreender, parece ter um ritmo próprio, uma estrutura intrínseca, padrões sonoros que se repetem uma e outra vez, se prestarmos atenção.

- Como disse - tornou o outro - uma aberração. Ou pelo menos é o que vão fazer deles, não é?

- Senhor Correia, posso garatir-lhe que o CEEFL...

- Sim, já sei... não tem quaisquer fins comerciais, religiosos ou políticos, pretendendo apenas contribuir para o avanço científico na área da linguística... - Fitou-o com ironia - Não se preocupe, os seus colegas deixaram-me a brochura logo no primeiro dia em que cá vieram.

Buchmann recuou um pouco, perante a hostilidade inesperada. Hesitou sobre a melhor forma de continuar aquela conversa que parecia ser como o início de um pequeno incêndio. Por fim, decidiu ser franco.

- Compreendo o que diz. Acho que também não gostaria de ter quatro desconhecidos plantados na minha casa, rodando de volta da minha família, a tirar notas e a falar de coisas como testes e novas línguas naturais. Mas Senhor Correia, se sente isso, porquê aceitar esta segunda visita? E porquê contactar o CEEFL, em primeiro lugar?

O homem esfregou a bochecha direita com a palma da mão, olhou para o fundo da sala, onde os gémeos brincavam ainda, aparentemente alheados, e com um suspiro respondeu:
 
- Porque são meus filhos, apenas isso. São meus filhos e não consigo compreendê-los quando me olham nos olhos e tentam falar comigo. Não quero que passem a vida toda como ilhas.

(to be continued)