sábado, 5 de janeiro de 2013

Omelete

Fazer uma omelete... Quão difícil pode ser, pá?! É quase como fritar um ovo, só que se batem os sacaninhas todos juntos com um garfo, sal e pimenta lá para dentro, restos do frigorífico se um tipo se estiver a sentir particularmente inspirado, põe-se a mistela meia dúzia de minutos na frigideira, levanta daqui, vira dali, e voilà, refeição de sucesso garantido.

Certo. Certo? Hmmm... Talvez não.

Gonçalo teve este exacto discurso consigo próprio, a par de algumas auto-admoestações e impropérios silenciosos, enquanto raspava tristes restos de ovo torrado que a primeira passagem da frigideira por água não tinha conseguido arrancar.

Era difícil dizer o que correra mal. E no entanto, o que quer que fosse, tinha corrido muito, mas mesmo muito mal.

Na cozinha, o sol do meio-dia entrava a rodos e um estranho cheiro a ranço e podridão, que podia ou não vir do caixote do lixo cheio até à borda, empestava o ar.

- Ó Quim, meu, ontem não era o teu dia de pôr o lixo na rua?

Encostado à ombreira da porta, Quim mastigava torradas e exibia o seu cabelo petrificado numa estranha dança psicadélica à conta de muito gel, muito suor e muito fumo de discoteca. Os olhos pendurados em cima de dois círculos escuros descaiam a intervalos regulares, naquele piscar lento e pausado que os caracterizava qualquer que fosse a hora da manhã ou o dia da semana. Poderia ter respondido qualquer coisa, mas tudo o que conseguia imaginar lhe soava vagamente auto-incriminatório, por isso optou por encolher os ombros e barrar mais umas postas de manteiga Mimosa no pão torrado.

Gonçalo raspou mais um bocado até se dar por vencido e largar a frigideira debaixo da água morna e amarelada, voltando-se para o caixote do lixo.

- Caraças pá, mas o que é que está a morrer ali dentro?

Pisou o pedal e espreitou. Meia dúzia de cascas de ovos, borras de café, dois pacotes de iogurte que tinham falhado o tiro para o caixote da direita, onde alguém em tempos escrevera "plástico para reciclar", três maços Camel vazios que tinham falhado o tiro para o caixote da esquerda, onde esse mesmo alguém escrevera "papel para reciclar", um saco meio cheio de salada passada da validade, pacotes Lipton ensopados em água outrora fervilhante, cascas várias, restos vários, e, ahá, ali estava o culpado, os restos de um queijo pestilento que a mãe lhe trouxera pelo Natal e que a Diana, ao fim de uns dias de frigorífico infecto, condenara ao exílio do caixote.

Gonçalo abriu os olhos quase até saltarem das órbitas:

- O quê, isto ainda está aqui?! Mas há quanto tempo é que ninguém esvazia esta porcaria?!

Havia momentos, momentos como aquele, em que Gonçalo se sentia a dois segundos de sair pela porta fora, escadaria decrépita abaixo, e voltar para o seu velho quarto em casa da mãe, onde uma estranha magia deixava tudo numa barafunda à sua passagem e misteriosamente imaculado e em ordem aquando do seu regresso.

Felizmente, eram momentos breves e raros. Sempre que aconteciam, Gonçalo acendia um Camel e, por entre baforadas, esperava que passassem.

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