...de como há uns anos me fascinei com a escrita do Daniel Faria e lhe roubei o compasso ao seu "homens que são como lugares mal situados", para os meus próprios propósitos... uma homenagem, duas homenagens, sem malícia dentro...
A terra incandescente
Na noite da serra há homens sem dormir.
Na noite da serra há homens sem dormir.
Homens crivados de pequenos terrores,
arrancados das suas vidas,
remendados na coragem,
homens marchando contra as entranhas do sol,
empurrando de dentro para fora,
procurando no negro da cinza um rasgo de céu
ou memória de azul.
Homens que são últimas testemunhas.
Que guardam na menina-dos-olhos
uma terra a entregar o respirar.
Rios inteiros a engolirem-se na voracidade das chamdas.
E portas. E mesas. E janelas para sonhos maiores.
Vidas e memórias apagadas dos livros da História,
esgotadas no braseiro interminável de um Agosto cruel.
E cada casa esconde um mundo.
O sofá azul escuro, subitamente emudecido.
Ao canto, a mesinha quadrada de pés baixos,
livros em pilhas sobre o tampo.
A capa envelhecida
e a dedicatória adivinhada.
Depois a parede, a estante cheia até ao topo.
A secretária, os discos espalhados,
sem cuidado,
sem pudor,
caixas abertas, riscos no metalizado.
Dois caixotes abandonados,esperando o desenlace.
A camisola de lã vermelha. O anuário do liceu.
Ali empacotadas vidas inteiras, vidas cortadas ao meio,
terminadas antes do fim.
E as chamas marchando sobre os livros na mesinha,
sobre o pardo dos caixotes,
sobre a fita adesiva castanha, grossa.
Dez, vinte, trinta memórias,
os discos depois e outro caixote.
Quarenta, cinquenta, sessenta memórias,
a perderem-se no túnel do tempo,
a perderem-se no túnel do tempo,
a ficarem mais pálidas,
uma fotografia a desaparecer.
Hoje, na serra, há homens sem dormir.
Homens que são a extensão de todos os anseios.
Que carregam em si todos os cansaços.
Homens que são uma nação
de olhos postos no céu,
buscando uma réstia de salvação.
E na confusão de gritos e hélices,
de muros desmoronados e árvores abatidas,
de olhos cansados,
e fumo - fumo como nunca se viu! -
há homens que marcham sempre.
Empurrando de dentro para fora,
esgravatando com os dedos nas entranhas do sol.
Pés firmes na terra incandescente.
Há homens em busca do azul.
Lisboa, Abril de 2006
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