A minha palavra final demorou a encontrar a sua saída para o mundo. Como sempre, sou um ser relutante nas despedidas, uma andarilha que prefere sempre dizer até logo em vez de adeus, porque a vida é feita de encontros e despedidas e encontrar novos desafios, novas rotas, novos amores, é um processo de contínua renovação do que existe, que é como quem diz, para algo novo nascer, algo antigo às vezes tem de morrer.
Aprendi ao longo dos meses de escrita diária que a criatividade é um ser vivo e é como uma planta: acarinhada e alimentada, protegida e cuidada, dá flores, dá frutos, dá oxigénio. É um desafio, porque nem sempre espera quando nos atrasamos, nem sempre aparece quando a chamamos. Mas é também filha de um esforço, de um combate, de um espírito de missão, é um rebento que parimos com dores para que no mundo exista algo mais, algo que acrescente, que dê significado à vida.
O hábito fez, de facto, o blogue e só posso sublinhar que é com orgulho no percurso feito que me despeço à laia de Até à próxima. A minha vida teria sido muito diferente sem este hábito, teria sido mais cinzenta, mais fechada, menos emocionante, menos poética, menos subversiva - porque a criatividade é uma forma de nos rebelarmos contra o quotidiano que nos molda a formas que não são as nossas, com que não nos identificamos. Ser criativo é, sem dúvida, estar mais perto de nós mesmos. Por isso, que hábito melhor do que o de ser criativo? Dou por ganhas todas as horas empreendidas, dou por multiplicados todos os esforços investidos.
Adriana, que prazer imenso foi este de partilharmos um espaço de liberdade! Sem quaisquer dúvidas de que outros projectos no unirão no futuro, devo sublinhar que este foi de uma partilha inesquecível, até porque, bem sabemos, são sempre precisos empenhos de parte a parte para pôr certas ideias a mexer.
A todos os que por aqui passaram, muito obrigada!
E... Até já!
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
Palavra final
Não quero lamentar o fim de um projecto que termina para que outros comecem. A vida gera vida, inevitável e maravilhosamente. É assim que deve ser.
Por isso, neste post final, gostaria antes de celebrar o nascimento inesperado de uma ideia, pequenina mas determinada, cuja força serena catapultou tantas outras. Quero celebrar o que aprendi com ela, a persistência que permitiu levá-la a bom porto e o companheirismo que fez furar a direito, mesmo nas horas menos inspiradas.
Aos que por aqui passaram, por intenção ou acaso, obrigada. A vossa presença mais ou menos silenciosa foi um aditamento feliz a este nosso projecto.
E a ti, Carina A.,que dizer? Um furacão depois, 4200 metros depois, 224 posts depois, apenas isto: obrigada, sem a tua companhia teria sido mais difícil, às vezes talvez até impossível e, seguramente, muito menos divertido.
Um abraço e até à próxima aventura!
Um abraço e até à próxima aventura!
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Xaile
Ela soube, assim que ele a cobriu com o velho xaile ao xadrez, que algo havia morrido entre eles. O gesto subtil de quem se despede estava escrito no ligeiro aperto nos ombros, um projecto de abraço que se susteve, inconcretizado. Aquele xaile era a última morada das paixões que partilharam, das noites na tenda fria junto ao mar, das ondas de beijos que sibilavam por entre as marés. Aquele xaile, assim posto sobre ela, era a despedida de anos investidos em reparar as feridas como se fossem frinchas nas paredes. Ele soube, assim que ela lhe disse boa noite, que podia partir sem remorsos e partiu.
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
Xaile
xaile ao ombro
pescoço
na cabeça
rodando ao teu redor
meio dobrado
inteiro
fala por ti
a tua história
contada
no seu movimento triste ou leve
a tua história
bordada
lisa
colorida
mulher dentro
mulher dentro de algo
a flutuar na brisa
e assim que te perco
com um sopro reapareces
clara e nítida
mesmo quando fugaz
domingo, 10 de fevereiro de 2013
Piano
Parou junto à porta de entrada do piano bar. Impromptu em Mi bemol.
Hesitou, quase entrando. Mas quase entrando, acabou por afastar-se.
Ela não o esperava lá dentro.
Schubert, apenas Schubert e o vazio da saudade.
Hesitou, quase entrando. Mas quase entrando, acabou por afastar-se.
Ela não o esperava lá dentro.
Schubert, apenas Schubert e o vazio da saudade.
sábado, 9 de fevereiro de 2013
Piano
No meio da rua, a despropósito, estava um piano. Daniela quase esbarrou contra ele, de tão alheada que ia a olhar para o empedrado. Era um piano de cauda, um C. Bechstein, visivelmente usado, mas ainda majestoso com os seus reflexos negros e caprichosos.
Daniela olhou em volta. Nem carro de mudanças, nem dono à vista, apenas ruas desertas e portas fechadas às sete da manhã de um domingo. O tempo estava farrusco e havia um ventinho agreste que empurrava o corpo para dentro das roupas.
A medo, levantou a tampa, revelando ao céu cinzento aquele enorme sorriso desdentado. Acariciou o dó maior e o dó sustenido. Fez uma escala. Olhou em redor e ainda assim ninguém.
Há cinco anos que não tocava num piano. Cinco anos desde que vendera o seu, para não passar fome. Literalmente fora assim. No momento chorara, mas seguira em frente. Talvez seja a necessidade de sobreviver que tudo converte em contingências temporárias.
Mas agora alguma coisa lhe estremecia, recuperando o desgosto das suas profundezas insondáveis, e quando deu por si estava a tocar um nocturno no vazio da manhã. Houve uma janela que se abriu. E depois outra. Persianas a correr para cima ao som crescente do grande C. Bechstein a vibrar. Quando terminou, alguém bateu palmas.
Esperou quatro horas inquietas, rezando para que não chovesse, rezando para que ninguém reclamasse a propriedade, guardando fielmente o seu achado. Não apareceu ninguém. Ao início da tarde, três amigos com uma carrinha viram ter com ela e carregaram para dentro o gigante preto, conduzindo-o à sua nova morada, na Rua Angelina Vidal, onde um pequeno quarto vazio passara os últimos anos à espera.
Maratona
Decidiu correr a maratona para se manter à tona: à tona da vida, à tona do mar. Para respirar. Mas foi o mar que veio à tona, à tona dela, à tona da vida. Na maratona foi o mar que respirou.
Maratona
Maratona de café e cigarros esborrachados no fundo do copo. O Simão-nunca-fiz-nenhum-trabalho-que-não-fosse-numa-directa apagou no sofá pouco depois das duas da manhã e continuámos eu e a Rita a passar a pente fino a biografia do Henry James. Algures entre o fim da noite e o despontar do dia encolhemos os ombros perante a inevitabilidade de uma positiva à rasca e alguma humilhação. Fomos para a cozinha comer pão com manteiga e rirmos que nem uns perdidos a acordar o Óscar pacificamente enrolado na sua almofada. Quanto mais sono tínhamos menos dormir parecia um plano viável. De repente estava ela sentada ao meu colo a meter-me a mão por dentro da t-shirt e eu apanhado de surpresa enxotei-a como um bicho que me tivesse caído nas calças. O Simão, caraças, a dormir a sono solto na sala! Gosta de ti há que tempos, não vês, só faz é seguir-te pelos corredores. O Simão é querido, mas é um menino. É meu amigo. E teu também! Exacto, amigo. Não costumo beijar os meus amigos na boca. A Rita tinha um piercing recente no lábio e enquanto discutíamos fixava-me nele quase sem dar conta. Ela sabia-o, de certeza que o tinha posto ali para isso mesmo. Como se a maquilhagem expressiva e o cabelo flamejante não fossem marca suficiente, ela ia compondo a sua persona exterior em camadas cada vez mais complexas e gritantes, um neon fluorescente. Acabei por sugerir que fossemos dormir, mas ela disse que preferia ir para casa e saiu pouco depois, batendo ligeiramente com a porta. O Simão acordou, coçou a perna, perguntou pela Rita, balbuciou umas desculpas ensonadas pelo adormecimento precoce e retirou para o quarto meio trôpego. Eu agarrei no pacote de pringles caído no chão, saquei uma, deixei a superfície colar-se na língua e mastiguei-a lentamente. Algum génio fizera milhões à conta de desidratar batatas e eu era apenas mais um elo na infinita cadeia desses milhões. Algures na paragem do 735 uma miúda de cabelo vermelho rogava-me pragas.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
Amor
Elegantes intelectos
Tão livres e saneados
Ainda um dia lamentarão não fazerem ideia do que é o amor.
Tão livres e saneados
Ainda um dia lamentarão não fazerem ideia do que é o amor.
Veloz
Veloz é o grito com que chamo por ti.
A saudade na ponta de uma flecha que rasga o tempo em torno do mundo.
A saudade na ponta de uma flecha que rasga o tempo em torno do mundo.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
Veloz
Ela é aquela que vai sentada à janela do autocarro
A ver correr lá fora
A contar o tempo veloz e alheio
Eu sou aquela que a vê a ela de dentro
A que deseja descolar do assento
Ir nas asas de uma corrida
Ela está aqui enquanto eu ando perdida
A imaginar-me no impossível
Tudo passa inclinado na redoma do vidro
Os meus olhos confundidos
Vêem cor contínua
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
Fiado
Decreto-Lei n.º 1/2020, de 1 de Janeiro
O Governo, no uso da autorização legislativa da Assembleia da República, decreta, para valer como lei geral do Reino, o seguinte:
Artigo Único
É obrigatório conceder fiado para compras públicas do Reino às segundas, quartas e quintas.
Visto e aprovado em Conselho de Ministros
Promulgado
Referendado
Publique-se
Fiado
viver a pedir fiado
comprar tempo a crédito
pagar os juros depois
pagar os juros depois
o tempo é subtil
e invisível
afinal tinhas
e não sabias
afinal pediste em vão
penhoraste em vão
vendeste em vão
andavas a pedir de empréstimo a água que te chovia a cântaros em cima do capote
querias permissão para dispor do que era teu
por nascença
por liberdade inata
começaste a esqueceste a tua liberdade inata
no dia em que começaram a ensinar-te tudo o resto
o depois chega um dia
feito de juros
e tempo de sobra
o tempo dos outros
o teu, esgotaste-o enquanto te ocupavas a acumular o alheio
querias permissão para dispor do que era teu
por nascença
por liberdade inata
começaste a esqueceste a tua liberdade inata
no dia em que começaram a ensinar-te tudo o resto
o depois chega um dia
feito de juros
e tempo de sobra
o tempo dos outros
o teu, esgotaste-o enquanto te ocupavas a acumular o alheio
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
Olfacto
Entro numa sala. No seu promontório de vigia, o meu nariz alerta o resto do corpo para a memória que se avizinha. Eu nunca estive aqui, mas talvez tenha estado numa outra sala que cheirasse como esta. Talvez houvesse no ar o subtil aroma de cabedal velho, livros a amarelecer e flores frescas dispostas numa jarra. Não consigo lembrar-me de caras nem de nomes, mas através desse primeiro nevoeiro que se instala quando entro numa sala o meu olfacto insurge-se como um estalo na face.
E assim, nesta tarde de Novembro, com o céu a despedaçar-se lá fora, as duas mãozinhas roliças estendidas para mim são um pouco menos anónimas, porque com elas vem o cheiro a açúcar queimado e baunilha, mastigado com um pó de talco quase imperceptível.
O cheiro dá-me vontade de tirar os sapatos, enrolar-me numa bola e chorar. Em vez disso, aceito a chávena estendida e dou um gole contido no chá de príncipe.
domingo, 3 de fevereiro de 2013
Olfacto
Diz o Olfacto ao Nariz:
Inspira.
Dá-me alento.
Dá-me vento,
Respira.
sábado, 2 de fevereiro de 2013
Jeans
Maria Adelaide, nascida e criada numa aldeia no interior de Trás-os-Montes, experimentou um par de jeans pela primeira vez aos 86 anos. Contam os que estiveram presentes que Maria Adelaide não gostou da experiência e envergonhou-se dos trajes em menos de uma hora. "Já estou velha para isto. A mim só me caem bem as saias, que é como uma mulher deve andar vestida."
Jeans
As jeans pendiam de ganchos simetricamente alinhados como peças de carne. Lavagens mais escuras à esquerda, lavagens mais claras à direita, brancos e pretos em cada uma das pontas. Levou-lhe duas semanas a saber dobrá-las e dispô-las assim, dentro do tempo cornometrado.
A primeira coisa que aprendeu na loja foi:
Tudo o que é simples tem a sua ordem, para que pareça simples.A segunda coisa que aprendeu na loja foi que a maior parte das pessoas exige às jeans o mesmo tipo de aprumado desleixo que o cinema ensina a apreciar. Ser bonito não chega, é preciso ter swag. Ser bonito e ter swag não chega, é preciso não querer tê-los, mas tê-los na mesma. In spite of oneself.
Não desejamos nos outros o que têm, mas o terem-no sem esforço, o esforço que nós mesmos somos forçados a empregar. É isso que os divide, a nós e a eles, em galáxias distintas. Por isso os desejamos.
Poderiamos ser tentados a dizer que a loja de jeans a tinha tornado cínica, mas na verdade apenas a tinha convertido numa observadora mais astuta da natureza humana. Agora ela compreendia a importância de adivinhar de imediato o corte de um cliente, de lhe ler nos olhos o equilíbrio preciso entre audácia e conforto, de distinguir os limites ultrapassáveis das linhas vermelhas. Ela sabia que à medida que o esforço se instalava e os diferentes modelos se iam acumulando no vestiário, o desejo murchava como uma flor sufocada.
Vender jeans é vender essa perfeição involuntária, a frame congelada no ecrã a que voltamos sem cessar, fazendo rewind, carregando no pause, relembrando aquela vez em que tudo foi fácil, exacto e belo.
Depois é preciso trabalhar com o arranjo. Para a maior parte das pessoas o arranjo é uma concessão necessária às regras do real, mas é importante velar para tal concessão seja breve, de modo a não quebrar a ilusão. Assim, logo no segundo dia de trabalho, foi ensinada a nunca mencionar um arranjo pelo nome e sobretudo nunca no seguimento de uma conjunção coordenativa adversativa. Os arranjos eram, para todos os efeitos, parte integrante de cada peça. Uma consequência lógica da sua perfeita adesão a qualquer forma ou feitio. Os arranjos eram uma evidência intrínseca ao próprio acto de se usar umas jeans. Como tal, os arranjos incorporavam-se na explicação de como um par de jeans assenta perfeitamente num dado corpo. Os arranjos simplesmente vão acontecendo, sem esforço.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
Génio
Uma sequência não-linear possível para Quebra-luz e Personagem
A vida literária de Joel transfigurou-se quando começou a ler os cadernos de Laura. Eram páginas e páginas dedicadas a uma paixão que se impunha como "a onda gigante que se avoluma rumo à costa e que não teme a violência da sua própria rebentação".
Joel sentia-se como a falésia contra a qual a onda gigante rebenta. Sentia-se incapaz de empreender no romance que não conseguia iniciar.
Rabiscava frases soltas em folhas dispersas, e confessava: "A intensidade de Laura revela-se nas epístolas de amor que escreve a um homem que não lhe bate à porta do quarto. Sou eu que o impeço de entrar".
"Por puro ciúme", pensava Laura.
E Laura estava certa. Não era preciso ser um génio para percebê-lo.
A vida literária de Joel transfigurou-se quando começou a ler os cadernos de Laura. Eram páginas e páginas dedicadas a uma paixão que se impunha como "a onda gigante que se avoluma rumo à costa e que não teme a violência da sua própria rebentação".
Joel sentia-se como a falésia contra a qual a onda gigante rebenta. Sentia-se incapaz de empreender no romance que não conseguia iniciar.
Rabiscava frases soltas em folhas dispersas, e confessava: "A intensidade de Laura revela-se nas epístolas de amor que escreve a um homem que não lhe bate à porta do quarto. Sou eu que o impeço de entrar".
"Por puro ciúme", pensava Laura.
E Laura estava certa. Não era preciso ser um génio para percebê-lo.
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
Génio
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Poema para ti
Ontem olhei-te nos olhos, procurei-te dentro.
Procurei-te longe da superfície inerte, no fundo intocado onde guardamos as coisas mais preciosas.
Foi desse fundo que dissemos adeus.
Pressentindo, talvez. Ou simplesmente temendo.
Foi desse fundo que falei contigo, na linguagem que resta quando tudo se esbate.
Um olhar. Um toque. Uma ternura breve.
Dia após dia viveste a tua luta. Foste humana com cada génio bom ou mau que guiou os teus passos. Os porquês são mistérios insondáveis.
Os porquês são o mistério humano.
A vida segue, lenta como um rio. Rápida como um rio. Imparável como um rio.
Hoje atravesso-o com uma memória mais. A que escolhi guardar.
Tu, recortada no fundo avermelhado de uma fotografia.
Ainda forte. Ainda jovem.
Estás a sorrir.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
Quebra-luz
Para um encontro casual entre Personagem e Amuleto
Joel mirou os cadernos de capa negra que Laura colocou estrategicamente à espreita dele no canto direito da mesa de jantar, o único pormenor da sala visível a partir do lugar de trabalho de Joel, a secretária junto à janela com vista para o arvoredo das traseiras, situada num corredor contíguo, alargado a escritório por força da imaginação. Estava pouco habituado a ser confrontado pelas personagens que acolhia em sua casa, mesmo pelas mais excêntricas e aparentemente indómitas, que acabavam sempre por se deixar seduzir pela calma natural de Joel e por se sentarem a seu lado a contar-lhe as histórias que os traziam àquela casa. Porém Laura não hesitava em afastar-se. Era esquiva, silenciosa e os olhos feridos pareciam quase sempre ausentes. Que diriam aqueles cadernos, perguntava-se Joel, enquanto se esforçava por obrigar a curiosidade a recuar ante o orgulho de ser um escritor com pleno comando das personagens que criava.
Mas a vontade de conhecer Laura era maior do que o orgulho. Levantou-se e foi buscar um dos cadernos, abrindo-o na última página escrita:
"29 de Janeiro de 2013
ouço uma voz do fundo da alma a dizer não desistas cedo demais.
esta voz dilacera-me como um silício em torno do peito.
esta voz contraria todas as evidências aparentes e fala-me de um futuro que a razão é incapaz de acariciar.
esta voz diz-me que é possível encolher oceanos e mover placas tectónicas e que cabe-me a mim descobrir como.
eu não sei se a voz está certa e dói-me fisicamente que me dê esperança. dói-me quase tanto, ou até mais, do que não poder estar com ele e saciar a minha sede.
de uma coisa eu tenho a certeza: tenho um coração de fogo no peito e uma bússola. não me perderei.
haja luz,
haja luz sem quebras,
sem corpos estranhos entre mim e o sol.
enterrem o quebra-luz
é hora da madrugada"
Quem é Laura? Quem é ele?
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
Quebra-luz
Às vezes consigo vê-la de modo singularmente distinto. Uma jovem emoldurada num sorriso mais-que-perfeito, a chegar à boca de cena com o seu fato irrepreensível, os seus sonhos numa mão e a sua fragilidade humana a escapar-se-lhe pelas falhas dos olhos. Ela serena, pronta a domar a vida; ela expectante; ela insatisfeita no mais íntimo de si; ela feliz, cheia de amor, por dentro e por fora, amor a jorrar pelo seu fato irrepreensível abaixo. Ela a enfrentar a curva sinuosa para a qual ninguém nos prepara. Isso é viver.
A sua cara cuidadosamente esculpida observa-me ano após ano, sob a protecção do quebra-luz, numa mesa de apoio que é igual a si própria desde sempre, e ela também é igual a si própria desde sempre, desde que eu me vejo existir. Junto ao enorme candeeiro de onde jorra o dia artificialmente abatido, o dia filtrado por um cilindro elegante, estamos eu e ela lado a lado, imagens perenes do que fomos. Hoje ela não me conhece, não sabe no que me tornei. Pergunto-me como me amaria, se pudesse ver-me através da sua moldura inerte.
Pergunto-me se somos iguais ou diferentes. Imagino-a a compor a saia com as mãos e a compor a vida aplicadamente, a tornar-se nela mesma, a viver os sonhos menos as coisas que teve de dar em troca pela existência que escolheu para si. Imagino-a nesse dia preciso em que percebeu que todos damos em troca um parte de nós, pela parte sobrante. Vejo o momento dessa realização esgazeada a abrir espaço numa piscina genética, a mover-se na cadeia, elo a elo, a passar as gerações, a fundir-se com o cordão umbilical ao qual eu me agarrava à espera de nascer.
Ela está a olhar para mim, a sorrir, completa, completa um pouco mais, uma peça do puzzle a encaixar-se na imensidão de um mosaico incompleto até ao fim. Ela está no sítio de sempre e o quebra-luz assinala o local, o quebra-luz que talvez tenha ou talvez não tenha sido ela a escolher, ela a colocar, ela a determinar com um gesto porventura irreflectido o lugar dos nossos encontros regulares.
Se pudesse, dizia-lhe que tentei recolhê-la dos pedaços guardados pelos outros, que não é fácil vê-la inteira porque me chegou dividida, que não é fácil conhecê-la porque me chegou interpretada, mas que ainda assim a guardo entre os meus tesouros, ainda assim a levo comigo como um estafeta carregando uma mensagem cifrada até à meta, passando-a a novas mãos, realizando um ciclo interminável do qual somos todos apenas uma peça.
Personagem
Joel era um caso de estudo com um caso de estudo dentro. Escrito dotado desde tenra idade, Joel tinha um modo muito particular de trabalhar com o seu imaginário: cada livro era um mundo povoado de personagens que lhe batiam à porta e a quem ele deixava entrar sem perguntas. Por vezes, os livros nasciam apenas após a reunião de um grande círculo de personagens; chegado momento de transportá-los para as páginas do novo romance, Joel convidava-os para um grande almoço no terraço soalheiro da casa e explicava-lhes os planos que tinha para eles. Noutras ocasiões, uma personagem solitária era quanto bastava para que uma torrente de caracteres latinos começasse a estabelecer-se na página em branco e a moldar o universo do seu imaginário pela força da sua complexidade. Laura, a personagem que há quinze dias lhe bateu à porta, era um pouco diferente de todas as outras pessoas inventadas a quem recebera de braços abertos em sua casa. Era excêntrica a uma profundidade que desconhecia ser possível, muito mais do que a romena possuída pelo diabo que vendia maçãs envenenada nas feiras e que se imolara ao conhecer o filho que julgava morto, ou o relojoeiro tatuado que construía o seu próprio veleiro monolugar para lançar as velas rumo aos Açores, esperando derrotar os ventos sem tornar rudes as mãos habilidosas de que dependia. Não, Laura era muito diferente dos outros. Começou por pedir as suas próprias chaves, pois podia querer sair de casa de Joel a horas menos vulgares e, logo em seguida, mostrou-se descontente por não poder fechar-se dias sucessivos no quarto a escrever. Joel sentia-se pela primeira vez perdido no seu mundo interior, sem referências a que recorrer, sem o sentido dos limites, das fronteiras do real e do imaginário, sem conhecer outras personagens tão vincadamente independentes quanto Laura. "Escrever é a minha vida", disse-lhe Laura, "por isso, se queres saber quem sou, lê o que escrevo. Aqui tens os meus cadernos." E, assim, de um momento para o outro, Joel descobriu que para conhecer Laura, para incluí-la nos seus escritos, tinha de ler os dela primeiro. Conhecê-la era lê-la.
domingo, 27 de janeiro de 2013
Personagem
Sou uma personagem ficcional numa história real. Estou a ser escrita por mim própria, linha a linha, e vou para onde quero, que é qualquer sítio para onde me mandam. Sou uma personagem complexa na minha singela platitude. E sou real enquanto alguém mantiver o livro aberto. Tenho a espessura de uma folha e a dimensão de um universo e por vezes pergunto-me se existo aqui ou na cabeça de alguém. Eu falo em diálogos. Eu vivo em parágrafos. As minhas acções são verbos e os meus atributos adjectivos. Eu mesma sou um nome próprio. Sou cuidadosamente composta, para que se possam demonstrar coisas comigo. Eu sirvo para sublinhar argumentos e fazer novas perguntas. Eu sirvo para chegar a um final possível. A uma resolução. A uma síntese. Eu sintetizo a existência numa linha única que me perpassa da cabeça aos pés.
Ouvir
Severina, com o seu cabelo desconcertantemente loiro, formas generosas e semblante em eterno desafio. Severina, de passada larga. A sua entrada exigia respeito. O respeito devido aos que arregaçam as mangas e engrossam a voz frente aos touros desta vida.
Trabalhava a dias para o casal Granja, segundas, quartas e sextas, das nove à uma. Era uma casa que denunciava uma certa ordem natural das coisas, com as suas fotografias meticulosamente desalinhadas e os móveis de mogno maciço a reluzirem na luz da manhã.
Trabalhava a dias para o casal Granja, segundas, quartas e sextas, das nove à uma. Era uma casa que denunciava uma certa ordem natural das coisas, com as suas fotografias meticulosamente desalinhadas e os móveis de mogno maciço a reluzirem na luz da manhã.
A senhora estava pouco, o senhor passava o dia em casa, de roda das partituras (assim ele mesmo explicara, daquela vez em que ela perguntara pelo destino a dar a um monte de folhas, aquelas com muitas linhas todas juntinhas).
As indicações eram as habituais: varrer, aspirar, lavar, passar a ferro, coser o necessário, adiantar as refeições, manter a ordem geral. Uma única regra extraordinária: evitar escrupulosamente o estúdio, aquele quarto pequeno no extremo do corredor, de trânsito quase impossível, redentoramente soalheiro e com janelas voltadas para o mar. Dali saiam continuamente sons, os bons, os maus e os incompreensíveis, curtos silêncios, lamentações exasperadas e por vezes o senhor, num desvario absoluto, trotando em direcção à porta da rua, por onde desaparecia de casaco na mão.
Aos poucos, sem saber porquê, Severina começou a ouvir. Não percebia como era possível semelhante angústia naquela vida adequadamente assente em coisas sólidas, como um apartamento de quatro assoalhadas. Mas alguma parte dela se angustiava também, com cada acesso de fúria, ou então sorria dentro quando uma harmonia mais doce escapava pelas frinchas da porta. Ela abanava a anca e batia o pé ao som de sinfonias, ela suspirava em uníssono com o aspirador ao som de um nocturno ou de um arabesco, ela não saberia dizer estas coisas mas, de uma forma estranha, sabia sobre elas o mais essencial.
sábado, 26 de janeiro de 2013
Ouvir
As palavras começaram a ruir como um castelo de cartas em movimento irreparável. A música tinha desaparecimentos súbitos, primeiro como fugas de volume, depois como ausência de notas. Era a voz muda da surdez que se impunha no mundo. Estava a deixar de ouvir. Estava a ouvir-se apenas a si mesma, num mundo em que a queda de uma chávena de porcelana soava a vibração indistinta, em que o ruído mecânico do motor do carro era a vibração que sentia no volante e tão-só.
Estava a ensurdecer e era o pior pesadelo que imaginara para si. Podia cegar, mas nunca deixar de ouvir. Foram os ouvidos que lhe permitiram descobrir o sentido vivo da música, a arte a que dedicara uma vida.
Deixar de ouvir o mundo e ouvir-se apenas a si mesma a tocar num anfiteatro vazio.
Deixar de ouvir música no anfiteatro.
Ensurdecer era morrer para tudo aquilo para que sempre tinha vivido.
Estava a ensurdecer e era o pior pesadelo que imaginara para si. Podia cegar, mas nunca deixar de ouvir. Foram os ouvidos que lhe permitiram descobrir o sentido vivo da música, a arte a que dedicara uma vida.
Deixar de ouvir o mundo e ouvir-se apenas a si mesma a tocar num anfiteatro vazio.
Deixar de ouvir música no anfiteatro.
Ensurdecer era morrer para tudo aquilo para que sempre tinha vivido.
Tremeluzir
Tremeluzir é a acção do corpo que treme e que reluz.
E que corpo treme e reluz que não o corpo do amante?
Tremeluzir é estar apaixonado.
Tremeluzir
Tremeluzir. Bruxulear. Cintilar. Brilhar com luz trémula ou vacilante. A luz dançando entre os dentes e a língua antes de se tornar respiração branca a flutuar em frente aos olhos. Estrelas ou chamas humanas, a dimensão é a mesma. Não há palavras pesadas para exprimir o que é leve. Não há palavras grandes para exprimir o que é enorme. Há palavras que ondulam, que se enrolam à volta da mão, que se aquietam, antes de se elevarem no ar como brisa.
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
Sorte
Escrito num muro de papel: "É quando o teu corpo deixar de vibrar de medo que conseguirás ouvir enfim a voz da tua consciência. Será como uma campainha a chamar-te. A ti cabe-te apenas abrir a porta. Quando a abrires, verás que é a sorte que te espera do lado de lá.".
Sorte
Não era um tipo com sorte, nem a esperava. Passava os dias entre as prateleiras e os balcões de uma pequena mercearia de bairro, acompanhado pelo zumbido ondulante da rádio e os altos e baixos de um leve coxear que lhe ficara de um acidente de bicicleta em criança.
Tinha clientes encurvados, que vinham por uns gramas de isto ou um pacote daquilo, tinha clientes com os cabelos em desalinho, arrastando crianças vermelhas de birra, tinha clientes vermelhos do tinto arrastando uma garrafa às vezes invisível, tinha clientes simplesmente incaracterísticos.
E tinha tempo, carradas dele, a espreitar entre as cestas de fruta, os pacotes de leite e as fileiras de minis alinhadas como soldadinhos de vidro. Do canto, pendiam às resmas as lotarias, os totolotos, os totobolas, os euromilhões, as raspadinhas, a fortuna e o azar à espera de serem distribuídos em parcelas desiguais a troco de uns poucos de euros.
Quando lhe perguntavam se alguma vez lhe tinha saído alguma coisa, estalava a língua e largava um pequeno humpf gutural:
- Sair sai sempre, do bolso!
Se se sentia mais conversador, comentava o tempo ou a bola.
Não é que fosse antipático ou avesso à companhia. A verdade é que raramente via razões para quebrar o silêncio durante muito tempo. Gostava de ouvir o que lhe contavam, sorria ao de leve, oferecia sugestões quanto à escolha da alface, tirava a conta, lamentava-se da chuva, hoje ainda só tive aqui duas pessoas, veja bem!, e algures dentro dele alguma coisa voltava ao descanso.
Um dia, numa hora morta, enquanto o rádio berrava queeeem perdeeeeuuu.... foste tu só tu e nunca eeeeeuuuuuu..., lembrou-se de enganar o tédio com umas apostas no Euromilhões, cerca de uma dezena de números lançados ao acaso. Dias depois, descobriu que estava rico. Tinham-lhe saído uns trocos acima de um milhão e trezentos mil euros e a sua primeira medida foi descer a rua até à mercearia (morava nove prédios acima) e empilhar na parede da direita os sacos de feijão vermelho que tinham chegado na véspera.
Não tinha experiência com a sorte. Se a tivesse sentido antes, em porções toleráveis, geríveis, talvez soubesse o que fazer com ela. Mas na presente circunstância era como uma criança a quem dessem para as mãos uma pipeta, um tubo de ensaio e uma caixa de petri. Tudo o que via era uma montanha de vidro quebradiço. O menor movimento podia ser o fim.
E portanto fez o que sempre fazia. Com o matagal de dinheiro adequadamente guardado numa gaveta electrónica que ele nunca vira, seguiu um mês inteiro naquela vida de levanta a grade exterior, monta o escaparate, acomoda o arroz ao lado do feijão, escolhe uns cachos de uva preta para a D. Susete, guarda no armário a encomenda do casal que acabou de se mudar para o bairro, desembrulha a sandes de presunto à hora de almoço, trinca-mastiga-mastiga, vende dez minis, vende duas garrafas de vinho, vende uma caixa de tremoços, tira a conta, dá o troco, fecha a grade de fora, sobe a rua, janta iscas e arroz, vê o noticiário das nove, vê a bola no café da esquina, ou a novela em casa como último recurso, dorme por fim, repete.
Uma manhã, dobrado a varrer atrás do balcão, achou um bilhete para o metro. E dois dias depois, na paragem da Almirante Reis, uma boina deixada para trás, mesmo a tempo de lhe abrigar a careca dos primeiros pingos de chuva. A marcação no centro de saúde, adiada por ausência do médico e marcada para dali a meses, foi de súbito passada para o fim da semana seguinte, porque alguém telefonara a desistir. E houve mais, e de muitos tipos, estes pequenos inesperados a facilitarem-lhe os dias, a alegrarem-lhe as horas, como se a sorte, sentindo-se ignorada, tivesse decidido seguir-lhe os passos, puxando-lhe a manga do casaco uma e outra vez, até ele parar e dizer Sim?
Subscrever:
Mensagens (Atom)
