segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Notificação

Da-ding

A notificação de uma nova mensagem arrancou-a ao nevoeiro do sono, apenas o suficiente para iniciar o mesmo movimento mecânico de sempre. Olhos fechados, braço esquerdo dobrado pelo cotovelo, apontado às dez horas de um relógio imaginário nas suas costas, a palma da mão tacteando impacientemente, escavando entre a carne e a almofada do sofá. Havia migalhas espalhadas por todo o lado e no fim do caminho, um tesouro escondido pela coberta amarrotada debaixo do seu corpo, o telemóvel. 

O tesouro insistiu: 

Da-ding

No segundo que levou a erguer o telemóvel até à linha dos olhos cerrados, Sara ponderou a hipótese de o seu corpo ter estabelecido contacto durante o sono. Alguém, do outro lado da linha, importunado a meio dos seus momentos de penumbra, estremunhado, acordado apenas para lhe ouvir o respirar profundo, talvez um conjunto de incoerências balbuciadas involuntariamente, talvez um segredo revelado.

Quando abriu os olhos, o ecrã desenhava repetidamente o símbolo da mensagem amarela, a mesma mensagem uma e outra vez, a desaparecer e a reaparecer, sempre amarela, sempre virtual, como se todas as mensagens alguma vez escritas e lidas naquele quadrado de cristal líquido fossem a mesma manifestação singela do tipo de solidão existencial que só é possível num mundo de permanente contacto. 

A mensagem dizia isto: 

Chego amanhã. Onde e quando? 

A linguagem reduzida à expressão do subtexto, à revelação do oculto, onde as afirmações continham perguntas e as perguntas determinações. E no entanto o anacronismo da escrita ainda estava lá, na forma como quando ainda era quando, inteiro, íntegro, e não qd, qdo ou outra qualquer forma amputada do termo.

Sara sabia exactamente o que aquelas palavras significavam. O seu corpo sabia-o antes de ela o saber, porque o corpo desenfreado raramente se edita naquilo que quer, e talvez por isso tenha subitamente ordenado às pernas que a erguessem de rompante e a sentassem no sofá, perfeita boneca sem vontade própria impelida por um mola.

Sara estava estarrecida. Sara já não era Sara, nem sentia dentro de si própria o que quer que fosse a não ser um zumbido entre os olhos e um borbulhar incessante algures atrás do umbigo.

Nesse estado estuporado, consentiu que os dedos navegassem corajosamente pelo menu, até os seus olhos estacarem na pergunta: 

Eliminar mensagem? 

Maldito! Maldito sejas! Como se aquele pedaço de plástico soubesse dos seus impulsos mais do que ela. Que eram impulsos logo perdidos à mais leve resistência, que bastava uma pontuação inquisitiva para forçar a desistência.

E era por isso que quando tudo terminava em corpos nus jogados ao abandono sobre um sofá ou uma cama, os seus olhos se enchiam de lágrimas que ela tentava aprisionar debaixo das pálpebras. 

Porque não era vontade o que a prendia àquela história mil vezes repetida, nem era vontade o que vez após vez arrancava o selo do não de cada lugar onde ela o tinha laboriosamente colado.

Sara sabia que qualquer pessoa que se afogasse no meio do oceano espernearia e esbracejaria sem cessar, tentaria vir à superfície, tentaria roubar ao mundo mais uma golfada de oxigénio, e para isso faria e quebraria todas as promessas. Sara sabia que era assim e que com ela não era diferente, só que em vez de subir ela lutava para se manter no fundo, ancorada ao único sítio onde eles os dois ainda podiam ser eles os dois.

À tona, sob a luz inclemente do dia, tudo se tornava confuso e enredado em si mesmo. As coisas ganhavam contornos e barreiras contra os quais ela chocava dolorosamente. Havia ele e havia ela, mas nunca os dois. Havia entre eles o fantasma de uma família inteira que lhe espiava os movimentos, empurrando-a com as suas mãos invisíveis, fazendo dela o corpo estranho, exigindo que removesse a sua âncora, que expiasse as suas culpas, que deixasse aquele lugar.

E ela sentia essa culpa, profunda como um punhal, e punha fim a tudo.

Até que tudo recomeçava com o símbolo de uma mensagem amarela, a mesma mensagem uma e outra vez, a desaparecer e a reaparecer, sempre amarela, sempre virtual, como se todas as mensagens alguma vez escritas e lidas naquele quadrado de cristal líquido fossem a mesma manifestação singela do tipo de solidão existencial que só é possível num mundo de permanente contacto.

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