Não era um tipo com sorte, nem a esperava. Passava os dias entre as prateleiras e os balcões de uma pequena mercearia de bairro, acompanhado pelo zumbido ondulante da rádio e os altos e baixos de um leve coxear que lhe ficara de um acidente de bicicleta em criança.
Tinha clientes encurvados, que vinham por uns gramas de isto ou um pacote daquilo, tinha clientes com os cabelos em desalinho, arrastando crianças vermelhas de birra, tinha clientes vermelhos do tinto arrastando uma garrafa às vezes invisível, tinha clientes simplesmente incaracterísticos.
E tinha tempo, carradas dele, a espreitar entre as cestas de fruta, os pacotes de leite e as fileiras de minis alinhadas como soldadinhos de vidro. Do canto, pendiam às resmas as lotarias, os totolotos, os totobolas, os euromilhões, as raspadinhas, a fortuna e o azar à espera de serem distribuídos em parcelas desiguais a troco de uns poucos de euros.
Quando lhe perguntavam se alguma vez lhe tinha saído alguma coisa, estalava a língua e largava um pequeno humpf gutural:
- Sair sai sempre, do bolso!
Se se sentia mais conversador, comentava o tempo ou a bola.
Não é que fosse antipático ou avesso à companhia. A verdade é que raramente via razões para quebrar o silêncio durante muito tempo. Gostava de ouvir o que lhe contavam, sorria ao de leve, oferecia sugestões quanto à escolha da alface, tirava a conta, lamentava-se da chuva, hoje ainda só tive aqui duas pessoas, veja bem!, e algures dentro dele alguma coisa voltava ao descanso.
Um dia, numa hora morta, enquanto o rádio berrava queeeem perdeeeeuuu.... foste tu só tu e nunca eeeeeuuuuuu..., lembrou-se de enganar o tédio com umas apostas no Euromilhões, cerca de uma dezena de números lançados ao acaso. Dias depois, descobriu que estava rico. Tinham-lhe saído uns trocos acima de um milhão e trezentos mil euros e a sua primeira medida foi descer a rua até à mercearia (morava nove prédios acima) e empilhar na parede da direita os sacos de feijão vermelho que tinham chegado na véspera.
Não tinha experiência com a sorte. Se a tivesse sentido antes, em porções toleráveis, geríveis, talvez soubesse o que fazer com ela. Mas na presente circunstância era como uma criança a quem dessem para as mãos uma pipeta, um tubo de ensaio e uma caixa de petri. Tudo o que via era uma montanha de vidro quebradiço. O menor movimento podia ser o fim.
E portanto fez o que sempre fazia. Com o matagal de dinheiro adequadamente guardado numa gaveta electrónica que ele nunca vira, seguiu um mês inteiro naquela vida de levanta a grade exterior, monta o escaparate, acomoda o arroz ao lado do feijão, escolhe uns cachos de uva preta para a D. Susete, guarda no armário a encomenda do casal que acabou de se mudar para o bairro, desembrulha a sandes de presunto à hora de almoço, trinca-mastiga-mastiga, vende dez minis, vende duas garrafas de vinho, vende uma caixa de tremoços, tira a conta, dá o troco, fecha a grade de fora, sobe a rua, janta iscas e arroz, vê o noticiário das nove, vê a bola no café da esquina, ou a novela em casa como último recurso, dorme por fim, repete.
Uma manhã, dobrado a varrer atrás do balcão, achou um bilhete para o metro. E dois dias depois, na paragem da Almirante Reis, uma boina deixada para trás, mesmo a tempo de lhe abrigar a careca dos primeiros pingos de chuva. A marcação no centro de saúde, adiada por ausência do médico e marcada para dali a meses, foi de súbito passada para o fim da semana seguinte, porque alguém telefonara a desistir. E houve mais, e de muitos tipos, estes pequenos inesperados a facilitarem-lhe os dias, a alegrarem-lhe as horas, como se a sorte, sentindo-se ignorada, tivesse decidido seguir-lhe os passos, puxando-lhe a manga do casaco uma e outra vez, até ele parar e dizer Sim?
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