quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Cata-vento

Cata-vento. Tantas vezes o chamaram que o nome pegou. 

Desde cedo Bento Serafim tomara o hábito de trepar aos telhados pela calada da noite, aí ficando horas esquecidas de nariz no ar, adivinhando à distância as correntes que se aproximavam de Sete Fontes. 

Sozinho no escuro, só ele e o pó das estrelas espalhado pelo céu, nem precisava de fechar os olhos para sentir na pele o respirar da Terra, ora manso ora agitado, tão vivo e inconstante como qualquer outra coisa neste mundo de Deus.

A habilidade de adivinhar o vento valera-lhe a alcunha invulgar, misto de escárnio e admiração que o povo sempre dedica às coisas que não compreende.

Fora ele quem antecipara os temporais do Outono de 81 e só graças ao seu alerta veloz tinha sido possível pôr o gado a salvo e resguardar a metade das colheitas já madura, antes que a ventania chegasse disparando água e granizo em todas as direcções.

Uns anos depois, sentindo a brisa pegajosa e morna que vinha das serranias a oeste, pusera-se a correr pela vila como um louco e a gritar "fogo! fogo!" As chamas escondidas do outro lado dos montes pouco haviam tardado em se revelar, lambendo as copas da árvores e pintalgando o horizonte de fumaça escura, de tal modo que só quase às portas de Sete Fontes puderam ser contidas.

Naquela noite, porém, o caso era outro. De fronte espetada contra o escuro, como se espreitasse por uma qualquer fechadura invisível, Bento não conseguia afastar a sensação inquietante de que algo lhe escapava ao controlo. Fechou os olhos, concentrou-se o mais que podia, mas nada... nada lhe chegava a não ser o ritmo vagamente ofegante da sua própria respiração.

Mas que raio...?

Definitivamente, havia algo de perfeitamente distinto e singularmente perturbador a pairar naquele céu estrelado. Bento mirou o infinito, sem expressão. Como um animal ameaçado, sentia cada pequeno cabelo eriçar-se-lhe na nuca, mas não recuou. Deixou-se assim ficar durante muito tempo, simplesmente sentado, à escuta.

De súbito, o seu olhar foi assaltado por uma sombra carregada. O sobrolho afundou-se e um rasgo de escandalizada realização atravessou-lhe o rosto.

Não... não é possível... 

Resoluto, colocou o indicador na boca, lambeu-o e lançou-o em riste em direcção ao céu, como se quisesse intimar as estrelas a revelarem os seus segredos.

O que pressentiu deixou-o atónito.

Nada. Absolutamente nada! A inércia total, o vazio, a dissolução... Na ponta do dedo sentia a Terra inteira mergulhada numa dormente quietude, como um pedregulho gigante. Nada de correntes a norte, nada de cheiros carregados pelo ar, nada de ciclones ou ventos ou brisas sequer!

Voltou a erguer o dedo, agarrado a uma réstia teimosa de esperança. O mesmo silêncio.

Ao cabo de alguns minutos, rendeu-se. Não havia dúvida

Atarantado no meio daquela escuridão amorfa que o rodeava de todos os lados, Bento Serafim compreendeu finalmente o incompreensível: o vento tinha parado de vez.

 (to be continued)

Cata-vento


Éramos crianças. Bordávamos caminhos de cabra cega por entre os lençóis brancos que a avó estendia no terraço e desenhávamos outras brincadeiras simples, como contar chaminés e nuvens até números intermináveis mais 1. Éramos felizes.

Um dia, armados de uma coragem maravilhada, construímos um cata-vento gigante, feito de cartão, e ocupámos o terraço em busca do sopro da sorte nas direcções do vento. Para cada um de nós, o cata-vento apontou um sentido diferente no amplo espaço azul do céu e a avó disse: “Um dia cada um de vós seguirá o seu caminho”.

Eu não acreditei. Tu acreditaste?

Preferia que nunca tivéssemos construído aquele cata-vento.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Colisão


Como o ontem foi o dia da molécula, hoje estou a associar a palavra colisão à colisão… dos átomos. A ideia persistente de encontrar um espaço de arte aberto à ciência como honrosa participante do grande jogo da estética dá nestas interligações e, de facto, imagem mental de átomos a colidirem é bestial, podia dar uma grande pintura ou composição musical. Se fosse cientista, lançava-me à escrita já com uma ou duas prédicas no bolso e escondia-as subtilmente nas entrelinhas do texto, ensinando de mansinho, para desta forma cultivar os bons hábitos da razão no leitor. Por ora, para não me imiscuir em terras alheias, lavrar terrenos que não me pertencem, com humildade me abstenho de semear ciência e com falta de fôlego me retiro das grandes empreitadas do desenho ou da música. Vamos ver o que surge.

Por vezes é difícil dissociarmos uma ideia de outra, são parelhas espontâneas de imans mentais que se procuram e se abraçam e resistem a ser afastados. Temos de tratar estas ideias com uma sensibilidade acrescida se queremos vê-las florir noutras dimensões.

Ah! Que sorte a minha! Dois amigos, que se sentaram no banco em frente ao meu, divagam sobre os possíveis significados da ideia de colisão. Ouçamo-los.
- Foi uma tensão súbita, um frémito, uma ânsia. Foi um segundo, nada mais do que isso, um segundo suspenso e fatalmente cortante, como todas as experiências que envolvem a morte como desfecho possível. Senti-me no limiar dos eventos.
- Tu és doido, sabes disso? Um doido com a mania de que é poeta.
Entrelaçam-se sorrisos. Conhecem-se bem, os corpos escutam-se, os gestos são cúmplices.
- Não gostas de poesia?
- Gosto, muito. E tenho a certeza de que a poesia gosta muito de ti. Mas o aviões não iam colidir… Sabes disso, não sabes? Está tudo programado e ainda há pilotos a gerirem o voo.
Um momento de reflexão. Ele inspira. Ela observa-o.
- Era um grande pássaro mecânico, de bico afiado, a rasgar os céus sem hipótese de suster a marcha. Sei que as rotas estão pré-delineadas e que os pilotos estão em controlo dos aviões. Sei que…
- Sabes que os ponteiros do relógio colidem com a hora certa?
- Colidem com a hora certa?
- Sim, vamos. Este é a nossa estação.

(N.A.: Publicação muit tardia em razão de problemas de ligação.)

Colisão

O meu corpo corre contra o tempo. Em contramão. Objecto inamovível contra força imparável. Colisão fatal.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Molécula

À noite, cada um assumia o controlo do seu objecto favorito da sala de estar, mastigando em silêncio o prazer sóbrio de estar cada um em paz no seu espaço. Ela lia um livro sobre uma loja de artefactos asiáticos, algo que encontrara no caixote de papel dos livros mais baratos do alfarrabista. Era um livro brasileiro que, provavelmente, mais ninguém para além dela própria estaria a ler. Ele assistia a um programa sobre a recriação de carros antigos em máquinas estéticas dos dias presentes. Era um substituto possível para os documentários sobre a vida animal, de que era religioso admirador. Cada um no seu mundo, por vezes conversavam, para quebrar a rotina, para fazer a ponte com o outro lado da humanidade, para se sentirem mais normais, e faziam-no absolutamente inconscientes de que assassinavam a proximidade de forma irrecuperável.

- Sabes o que ouvi hoje o quarteto das torradas a dizer?
- Podias repetir? Estava distraída, não percebi.
- O quarteto das torradas. Sabes qual era a conversa do dia hoje? O desemprego da Ofélia. As madames estão sempre a conversar sobre a vida dos outros, sempre a tecer tapetes para puxar. Devias estar lá para ouvir.
- Quem é a Ofélia?
- A garota do restaurante, aquele onde fomos duas ou três vezes, à beira da estrada, no caminho para Setúbal. Sabes quem é. Uma vez trazia vestida uma saia vermelha, rodada, pelo joelho, muito folclórica, lembras-te?
- Muito me espanta que te lembres da saia.

Silêncio. Livro reeguido. Comando recuperado.

- Eu hoje ouvi falar sobre uma tema muito interessante. Nem fazia ideia que existia.
- Então, o que foi?
- Sobre geometria molecular.
- Sobre o quê?
- Sobre geometria molecular. É a área do saber que estuda as relações espaciais entre os átomos que compõem as moléculas. Dá para medir tudo, descobrir as formas de tudo. Impressionante.
- Tiveste uma epifania intelectual, foi? Com quem estiveste a conversar? Isso é conversa que não conheço...
- Um amigo da Mila. Almoçámos juntas hoje.
- E o que é que isso das moléculas serem quadrados e círculos e afins?
- Elas não são quadrados, círculos ou coisa parecida. São ligações de átomos que se agrupam de diversas formas. Estas formas podem ser estudadas. Como estudas a forma de transformar um carro caduco num automóvel moderno de autor. É isto, basicamente.
- Hummm... tudo bem, compreendi. E quem é o amigo da Mila?
- Não me recordo do nome.

Mário não retorquiu. As tiradas espontâneas de Ana sobre ciência eram fogo-fátuo num horizonte mais vasto de dois universos em afastamento. Que importavam o raio das moléculas? Falando daquele modo, Ana até parecia uma estudante do sexto ano na primeira aula de química e Mário sabia que tudo o que a rejuvenescia assim era por natureza perigoso. Mas de química percebia um pouco e não foi por acaso que ouviu falar de Ofélia hoje. Não, de certeza que não foi por acaso.

Mudou de canal. Mudou tantas vezes quantos os canais de que dispunha sob sua tutela.

Ana queria dizer-lhe. Ricardo, o nome dele é Ricardo. Foi um homem medianamente maçador durante a maior parte do tempo que teve cinco minutos brilhantes de conversa sobre ciência, apenas isso e uma ideia que ficou para a posteridade: a geometria das moléculas. Medir os caminhos que unem os átomos e fazê-lo de forma matemática. Que sabia Mário sobre este espaço em que só ideias interessam? Ana conhecia o tom de Mário de lides antigas, eram as defesas habituais, as marcações de território, era a diferente geografia dos universos em afastamento.

- Sim, recordo-me da Ofélia. A do rebuçado no pires de café.

Ana ergueu-se da cadeira de baloiço e seguiu rumo ao quarto. Apagou a luz, em sinal de protesto. Mário mirou-a com a fala sustida de quem quer justificar um acto de terceiros e perde a coragem por se sentir envolvido da falta que não é sua. Hoje os quartos seriam diferentes.

Os mistérios da química não são insondáveis. Até têm uma geometria! 
Mas é do conhecimento comum que as ligações químicas ora se estabelecem, ora se partem. 
Quebrada a química, sobram os diálogos atónitos de quem premune que a grande roda da vida está em movimento. Que o cosmos está vivo.

domingo, 28 de outubro de 2012

Molécula

Ei, tu! Sim, tu aí! Não te faças de desentendida, é contigo mesmo que estou a falar. A miúda com o éclair de chocolate na mão. Pousa-me já esse bolo, estou a falar a sério! Não sei se já paraste dois segundos da tua mastigação para pensar em nós, as minúsculas moléculas de gordura que tornam o teu precioso éclair tão delicioso. Sem nós esse chocolate com o qual te lambuzas pouco mais seria que uma mistela castanha sem graça e tu nem dois segundos dispensas para nos agradecer o sacrifício! Que criatura mais sem maneiras, Deus meu! Vá lá, anda, arranca mais um naco do teu delicioso éclair e aí vamos nós lançadas pelos teus infinitos tubos digestivos abaixo, nadando no meio de sucos gástricos e sabe-se lá que mais... mas claro, a molécula que faça o seu trabalho sem queixas, que o mundo é dos quimicamente complexos! Bem me diziam os meus botões que me deixasse estar quieta, um átomo para cada lado e já estava, livres que nem pássaros a flutuar nalguma sopa primordial. Mas não, aqui a esperteza saloia tinha de se fazer casamenteira, tinha porque tinha de se tornar glicérido, então contente da vida toca de juntar os ácidos gordos ao glicerol e cá vai disto. Serve-te de boa. E tu faz favor não te acanhes! Continua-me a abocanhar esse éclair, que não tarda nada já me estás a roer a cauda! E depois ainda contas as calorias e dizes mal dos lípidos. Isto há gente muito sem pedigree, mesmo...

Público

- O que é a arte sem público? É a arte menor de criar esquecimento. É a árvore que nasce no meio da floresta e, nunca vista, ouvida, ou sentida, tomba no silêncio e morre sem memórias.

sábado, 27 de outubro de 2012

Público

Éramos quatro, naquela noite. Quatro pares de olhos reluzindo num mar escuro de cadeiras desertas. E ele só um, em cena. 

Representou para nós como se fossemos casa cheia, cortando a direito através da sua solidão naquele palco diminuto, onde chegavam ocasionalmente os sons do metro e da água corrente que as cortinas não conseguiam abafar.

Naquele recanto simples de uma cidade alheada, representou com a grandeza dos grandes gestos, das completas entregas, dos actos de amor, oferecendo-se inteiro a quatro estranhas que mal enchiam plateias e muito menos egos.

Nesse dia ensinou-me sobre a verdadeira paixão, sobre o que é amar a nossa verdade mais do que a nós próprios, abdicar do orgulho, ir ao âmago, fazer algo de modo íntegro, porque sim, porque nos é essencial para a sobrevivência de quem genuinamente somos.

O público aplaudiu de pé, durante muito tempo.

Éramos só quatro, naquela noite. E ele só um, em cena.  

Mas entre nós sabíamos que nada faltava. Nada mais era preciso.

Carta

A que eu quereria? A de alforria, convictamente.
Alforria de um destino que alguém quer votar à pobreza.
Alforria de um fado que alguém quer tornar certeza.

A que eu quereria? A de alforria, empenhadamente.
Alforria dos planos adiados, dos sonhos encolhidos, dos sorrisos mal-amados.
Alforria das vistas curtas, das línguas compridas, da justiça a metro.

E a tua. 

Carta

Enviou-lhe numa carta os símbolos de todas as coisas que jamais caberiam num envelope. Palavras enormes, dilatadas, profundas. Profundas o suficiente para afogar uma vida inteira de incompreensões e meias verdades. Embora não o soubesse, aquela era a sua declaração de paz numa guerra que nunca tivera a coragem de declarar olhos nos olhos. A sua forma de dizer
às vezes precisamos que as nossas palavras amem e remendem e perdoem por nós.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Murmurar


E, abrindo as comportas da represa, Ela murmurou aos peixes: Ide banhar as vossas escamas ao Lago dos Poetas e voltai para me contar se ganhastes asas.


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Murmurar


 Os sinais do Outono interpelam-me a cada esquina. 


Murmuram-me ao ouvido verdades que eu não consigo ver mas intuo.
 
Falam-me em surdina do que é estar vivo.

Caligrafia

Na geografia espontânea da tua mensagem, os meus olhos são os dedos peregrinos que ora se abeiram do topo do mundo no grande miradouro dos teus tês, ora escorregam lânguidos e inebriados pelas curvas robustas dos teus ésses.

Seduzida pela tua caligrafia tanto quanto por ti.

Caligrafia



quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Potencial

Dois homens, um com cerca de sessenta anos e o outro com cerca de vinte e cinco, conversavam na mesa do canto, junto ao gradeamento do terraço, no lado virado para o mar. Bebiam chá. "Chá das Índias" ouvi umas senhoras comentar. Sobre o que conversavam?

- Diga-me, lê-me a ideia e diz-me se tem o potencial para singrar?
- Digo-lhe que me reformei das lides. Desliguei para sempre o Leitor.
- Os dons não têm interruptores. O José é lendário na leitura de ideias. Se permanecer em silêncio, daqui a uns anos dirão que foi um mito urbano. Mas sei que não é, é o que importa. Todos sabemos. Sei que o José pode antecipar o sucesso do livro lendo a ideia e a sua ajuda é imprescindível, este livro é muito importante para mim.
- Deixe-me que lhe explique um detalhe. Agora dirijo um pequeno ginásio, dedicado à prática de artes marciais, herança que me deixou a minha primeira mulher, a oriental, e que chegou às minhas mãos por razões obscuras do destino. Fui casado, sabe?

A conversa derivava. Percebia-se à distância que as palavras tomavam caminhos imprevistos.

O velho acendeu finalmente o cigarro contra o qual lutara. As senhoras comiam torradas e falavam sobre póquer, enquanto disputavam sub-repticiamente a atenção de dois cavalheiros, sentados mais além, ainda distantes dos protagonistas.

- A verdade é que este negócio foi imprevisto e foi também a melhor coisa que me aconteceu, deu-me anos de vida e uma vida muito, muito diferente. Teria de explicar-lhe muitos factos para poder justificar por que lhe nego auxílio neste momento. E, compreenda, em rigor, não tenho de justificar a minha reforma, mas gosto sempre de oferecer àqueles que me procuram uma resposta mais completa. Para que não pensem que simplesmente os abandonei.
- Sei o que fez por muitas pessoas e como os livros floresceram nas mãos dos escritores da cidade. Foi o José quem reconheceu a primavera das ideias a emergir à sua volta e que os aconselhou. Apenas pretendo...

Um murro na mesa, como um suspiro de facas. Inesperado. Os olhos do terraço voltaram-se todos para a mesa do canto. Ouve-se o murmurinho dos demais clientes.

- Saber de antemão que o seu intento terá sucesso? Já experimentou apresentar o livro na editora, em conseguir a sua publicação? Ou faz parte do grupo de diletantes impertinentes que, ainda antes de esgotar todas as hipóteses, prefere apostar na futurologia? Porque, sabe, não há nada como insistir, como tentar, como melhorar e voltar a insistir. Isso é potencial!
- Que se passa consigo? Endoideceu?

Pausa. Silêncio.

- Perdoe-me. Sente-se. Desculpe-me, se o ofendi.
- Se não se está a sentir bem... Vim à procura de respostas e não de problemas.
- Ouça-me. A última pessoa que veio tentar convencer-me a regressar à leitura de ideias com o mesmo registo poético disse-me: "Acha mesmo que vou perder dois anos da minha vida a escrever um livro para este morrer nas redes metálicas dos caixotes do lixo das editoras? Eu quero certezas". Quer saber o que lhe respondi?
- O quê?
- Que as certezas matam a vida. Que ele era demasiado jovem para matar a vida.
- Mas eu sou outra pessoa. O livro está aqui. Tome, leia-o. Eu acho que ele tem potencial.

Vejo um envelope grande, cor creme, comum. O jovem põe o envelope volumoso em cima da mesa. O velho recolhe-o e, ao abri-lo, aproxima o nariz do papel, junto à cola não usada.

O jovem abandonou a mesa. Consta que o chá ficou todo por beber na sua chávena. Consta que, depois daquele dia, os dois homens nunca mais se encontraram.

Potencial

Em retrospectiva, como negar? Fora o potencial que o lixara. Ele estava tão cheio de potencial, tão potencialmente destinado às coisas grandes da vida, que toda aquela energia cósmica acumulada tinha de explodir por algum lado. E explodira, sim, prematuramente, num chuvisco de meia dúzia de confettis coloridos que agora jaziam no chão, abandonados como um fim de festa triste.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Pão

De certos dias diz o povo: comer o pão que o diabo amassou. E Álvaro provara-lhe o acre sabor até às lágrimas. Apanhado pelo Zé Carlos nas traseiras do 12-B, ele e a Vera Paiva aos beijos com o desleixo dos arroubos juvenis, mal teve tempo de arrepiar caminho. O outro, cego de raiva e de dor, sai do seu canto como um bicho acossado para fora da toca e prega-lhe com o punho nos dentes. 

O sangue espirrou do lábio aberto com facilidade, manchando-lhe a camisa e o orgulho. O Zé Carlos urrou de dor assim que os seus dedos finos conectaram com o sólido maxilar. Mas não contente saltou de novo, ainda antes que ele, por entre dentes cerrados e lábio aberto, terminasse o insulto:

- Filho da...

Zás! Braços e pernas colaram-se-lhe ao corpo e daí até ao asfalto foram dois segundos irreflectidos. Rebolaram como gatos que perdessem de repente toda a agilidade. E teriam feito estragos maiores se os gritos da Vera não tivessem atraído para aquele recanto do pátio meio liceu e dois contínuos que prontamente os puxaram para cantos opostos, de onde continuaram a insultar-se e a desafiar-se com esticões que só a pura adrenalina arranca ao corpo depois de uma valente tareia.

Daquele dia saíram dois resultados imediatos: dois dias de suspensão e uma ida ao hospital, onde ficaram os dois lado a lado, levando pontos e roendo-se de fúria e orgulho ferido, possivelmente castigo maior que o currículo académico manchado.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Pão

Uma oferenda de pão aos pássaros. Um final feliz para o desperdício humano?



Inevitável

Inevitável era um dia adormecer logo após a janta como um bébé despreocupado e acordar a meio da noite como um adulto atarantado. Daí que agora, zarolha de cansaço, pense com rabugice: "Se o sonho comandasse a vida, ia escrevinhar sozinho o seu post inspirado no blogger, enquanto deixava o corpo folgar-me as costas dos seus afazeres diários...".

domingo, 21 de outubro de 2012

Inevitável

inevitável o sono que me carrega as pálpebras de areia e me embrulha a mente num nevoeiro doce. o corpo segue, sem vontade aparente, despoja-se dos pesos quotidianos e mergulha no lodo espesso entre duas margens. queda lenta para dentro de mim.

Rio

Acabei de chorá-lo. Ainda estão quentes as mãos que limparam os destroços da corrente, ainda estão descrentes os olhos frágeis por onde galgaram as águas. A saudade habita os sulcos que o tempo aprofunda somente à espera do dilúvio. E, um dia, a tempestade surge. Hoje. Hoje chorei o rio indómito que corre na noite contra o céu negro da tua ausência. Chegará ele à foz? Chegará ele a ti?

sábado, 20 de outubro de 2012

Rio

e como o rio ela ancora as suas verdades no fundo
longe da transparência imposta pela luz

Saltos altos

Numa sapataria qualquer.
- Bom dia. Posso ajudá-la?
- Obrigada, estou só a ver...
- Esteja à vontade.
Refugia-se no escaparate do fundo, mas cedo regressa, perdida.
- Hmm... Bem, na verdade, estava à procura de uns sapatos para uma festa.
- Com certeza. Saltos altos? Tenho ali aqueles nude que são uma maravilha!
- Não. Queria algo mais confortável. Quase raso, mas nem por isso. Assim entre uma coisa e outra, está ver?
- É para um evento à noite?
- Sim, mas tem dança. Queria algo que não fosse demasiado cansativo. Eu, é o conforto acima de tudo.
- Bem, tenho aqui uns de plataforma que são uma beleza.
- Ah não, não gosto de dourado. Nem da florzinha. Estava mesmo à procura era em preto ou cinzento. Azul escuro, quando muito.
- Sim. Também temos em preto. Ou vermelho, que também vendem muito bem.
- Hmmm.. pois, não sei..
- Se não, posso mostrar-lhe estes de cunha.
- Sim... talvez.
- Quer experimentar, então?
- Pode ser.
- Qual é o tamanho?
- 36 e meio.
- Desculpe, não temos meios números. Mas posso trazer-lhe o 37 e põe uma palmilha.
- Não me dou muito bem com palmilhas, sabe? Tenho o pé muito largo e depois fica demasiado apertado nos lados, é umas dores que nem posso.
- Mas se ficar, depois temos ali uma máquina de alargar que sempre dá uma folgazinha.
- E não estraga o sapato?
- Não! Fica muito bem, até. Eu é sempre assim que faço.
- Bom, traga lá o 37 então.
- E meia ou inteira?
- O quê?
- A palmilha.
- Ah. Pode ser meia.
Experimenta-os, dá meia dúzia de passos.
- Hmmm, pois. Não ficam mal, realmente. E até são confortáveis.
- Estes sapatos? São um espectáculo! No outro dia veio aqui uma senhora e levou logo três, um de cada cor.
- Pois. Mas sabe, não os acho assim muito elegantes.
- Bem, os saltos altos é sempre diferente, não é? Mas a cunha também não lhe fica mal. Por acaso há senhoras a quem fazem a perna parecer assim um bocadinho mais gorda, mas no seu caso, como tem a perna fina, é o ideal.
Demora-se ao espelho.
- Olhe, mostre-me lá os de plataforma em preto.
- Os da florzinha?
- Pois... Não tem mesmo outros? É que eu não sou muito de florzinhas.
- Infelizmente por agora é mesmo o que temos. Para a semana chegam mais, se quiser passar por cá.
- Não, eu precisava deles para esta sexta-feira... Bem, vamos ver os de plataforma.
Experimenta-os, ensaiando um passo de dança.
- Pois, realmente não se compara em termos de elegância.
- Ah claro, não tem nada a ver. Estes sapatos são uma autêntica beleza! E digo-lhe já que lhe ficam muito bem.
- Mas são menos confortáveis.
- Claro, a cunha tem as suas vantagens. Mas sabe que a plataforma também ajuda muito. Eu pessoalmente é o que uso à noite.
- E quanto custam?
- Cento e dez.
- Jesus!
- Mas são todos em pele, sabe.
- Hmmm...
- Só se quiser levar os saltos altos. São um bocadinho mais em conta.
- Sim, mas é como lhe disse, depois para dançar é um tormento.
- Olhe que eu levei uns no outro dia para a minha mãe e ela até sofre dos pés mas diz que são muito confortáveis.
- Não sei... E que cores tem?
- Temos os nude, que estão muito na moda.
- E outras cores assim mais para o escuro?
- 37 não é? Tenho preto, cinzento metalizado e acho que... (olha para o computador) sim, ainda temos um par em azul escuro.
Pausa.
- Bom, traga-me lá os pretos, então.
Experimenta-os.
- O direito está um bocadinho a chinelar.
- Mas a palmilha, não se esqueça.
- Lá bonitos são eles...
- Estes sapatos? Fantásticos, só lhe posso dizer! E olhe que são sem dúvida os que lhe ficam melhor. Vai ver que vai gostar.
- E o preço, afinal?
- Esses estão para oitenta.
- Um bocadinho mais baratos, sim.
- É da marca, que é menos conhecida. Mas também são muito bons. Tudo em pele. Tudo nacional!
Hesita, olhando os pares rejeitados, que se acumulam ao seu redor.
- Leve. Vai ver que não se arrepende.
- Bem... realmente...
- Nestas coisas, já a minha mãe diz.. há que sofrer para ser bela.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Relógio

preguiça. brisa breve. um beijo bom.
a dança contínua que vai do sol até aos olhos.
unhas com terra dentro. vidas com gente dentro.
vidas de barriga cheia, pelas costuras, à flor da pele. a deixar rasto.
sulcos, imprevistos, imperfeições. curvas incertas...
e mais que tudo, missões impossíveis.
correrias desenfreadas.
sins rotundos na ponta da língua.
a lua recortada no coração da noite, a roer-lhe as entranhas, a crivá-la de luz. 
uma gargalhada a rebentar no rosto sem pudor.

pausa.

ali está o céu.
vês?

sentes a pele de galinha que arranca ao teu corpo aquele azul familiar?

as verdades enormes andam atadas a coisas pequenas.
coisas de gente que mede os dias sem relógio.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Comboio

- Perdi o comboio. Como é que eu perdi o comboio? Isto não me está a acontecer... Como é que eu falho logo no início da viagem? E agora? Quatro horas...
- Senhora, posso ajudá-la em alguma coisa?
- Como?
- Ajudá-la. Posso ajudá-la de alguma forma?
- Ajudar-me? Quer mandar parar o comboio? É que não vejo outra solução para o problema.
- Posso transportá-la, em alternativa.
- Como? Importa-se de repetir?
- Disse-lhe que há duas soluções. Ou mando parar o comboio, como sugeriu. Ou levo-a até ele, em alternativa. Qual é que prefere?
- Desculpe, deve estar a brincar comigo. Agradeço muito a simpatia, mas... boa tarde, sim?
Agarrou-a gentilmente pelo braço e disse:
- Espere. Diga-me: acha que não há outra solução para o seu problema para além de mandar parar o comboio?
- Outra solução? A solução é simples, não há nada a fazer, é esperar quatro horas pelo próximo.
- Ah, então sempre posso ajudá-la. Espero consigo.


Comboio

Terça-feira de Outono. A chuva martela os corpos polvilhados sobre a terra. Projecta-se sobre as superfícies, demora-se nas irregularidades do piso, abre chapéus, enverga impermeáveis e envolve no seu abraço a massa indistinta de tecido, arame e gente.

Esfrego as mãos com gestos largos, sentindo o algodão roçar entre as minhas palmas.

- Temos sorte, amiguinhos! Nada como uma escapadela de comboio à chuva!

Um coro de exclamações excitadas, um yeeeeaaaaaahhhh! multiplicado em várias vozes, e depois o habitual tropel de criançada a ajeitar pés e mãos, puxando cobertas, acomodando fios, fazendo ranger o metal.

Mesmo sem os fitar, pressinto os seus olhos crescerem na luz parda. Cravados nas minhas costas de xadrez azul e branco, no dedo da minha luva erguida, no vermelho exuberantemente redondo do meu nariz. Aqui, são estas as minhas únicas provas de credibilidade, a minha senha secreta de entrada para os seus universos particulares.

- Micas, põe-me esse motor a rugir! Depressa!

- Pronto, chefe!

- Lipe, as malas dos passageiros?

- A postos!

- Rodas, quem são as minhas rodas hoje?

- Euuuuuuuuuuuu! - a resposta arrasta consigo uma multidão de braços que desenham círculos no ar.

-  Joaninha, o aviso final.

- Tu-u-uuuuuu! Pouca-terra, pouca-terra!

E aquele pouca-terra lança-nos por montes e vales sem destino, correndo sob a chuva, cantando à desgarrada, descortinando aventuras em paredes nuas, cumprimentando magos e reis em cabides de pé e suportes para sacos de soro, pintando a paisagem a lápis de cor ou cera ou o mais que houver à mão. 

Eu agito-me na minha cadeira montada a cavalo, viro-me para eles e lanço na minha melhor voz esganiçada:

-  Senhoras e senhores, meninos e meninas, o circo-comboio está a caminho da vossa cidade! Não percam este magnífico espectáculo, que é o mais mega-hiper-brutalmente fixe que alguma vez viram nas vossas vidas!

E o comboio atravessa tudo, atravessa sempre, rasga o véu das incertezas com as suas rodas feitas de gente e o seu motor feito de sonhos, um só corpo que somos nós. Eles, os meus fiéis escudeiros, com pernas de gesso, cabeças calvas e cicatrizes no corpo, e eu, o palhaço com um homem dentro, que por vezes carrega sombras no interior das suas risadas. Um bando de irmãos a deslizarem juntos pelos carris à chuva, quase quase a descolar, quase quase a roçar as nuvens.