quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Naufrágio

Ao tentar escrever sobre naufrágios, ocorre-me que nunca estive no mar revolto. Bem sei que já atravessei o rio num cacilheiro, como toda a gente, e depois houve aquela vez em que me vi enrolada nas ondas do Atlântico indomado, mas isso são coisas que acontecem a qualquer um e, está bem de ver, são assunto muito distinto. Até porque, como amplamente se sabe, nos cacilheiros é quase como na terra, só que se flutua.

É verdade que tenho há anos na estante o "Relato de um Náufrago", do Gabriel García Márquez, mas nunca li o livro. Tentei uma vez e... fiquei a meio. O que é uma confissão grave, se não mesmo gravíssima, porque ele é um génio e eu uma formiga das pequena. Mas lá porque a verdade envergonha nem por isso é menos verdade. E eu, apesar dos muitos esforços, não consigo vencer a preguiça que me dão as primeiras páginas daquela história, vá lá a gente compreender a lógica destas coisas.

Voltando ao ponto: não estou mais perto de saber como se passa um naufrágio, ao certo. Quase tudo o que retenho da palavra é o que aprendi a visitar museus e mesmo aí é preciso uma pessoa ter em mente que quem se dedicou ao retrato dos grandes desastres marítimos em regra não o fez pintando à vista, razão pela qual deve o observador escrupuloso descontar de sua própria iniciativa algumas possíveis imprecisões e liberdades poéticas do artista.

Claro que temos ainda o cinema e, posto que estamos em maré de confissões difíceis, sim, também eu, imagine-se, fui em tempos uma adolescente lacrimejante e solidária a ver o Jack e a Rose de James Cameron correrem pelas suas vidas num ecrã de cinema de proporções titânicas, ao som da Celine Dion e o seu coração que continua e continua.
 
De todo o modo, e para que não haja dúvida quanto ao tema, quando digo que desconheço as particularidades dos naufrágios, não, não me refiro à mise em scène da catástrofe, que é aquela camada superficial das coisas que facilmente uma pessoa apreende, por menos esclarecida que seja sobre um dado assunto.

Ou seja: é fácil presumir que, para escrever um naufrágio, é preciso primeiro que tudo uma embarcação. Pequena ou grande pouco importa, desde que flutue e cumpra as outras tarefas que legitimamente se podem esperar de uma embarcação. Como esta, por exemplo:



Depois, é preciso água, muita e de preferência revolta - vamos, uma tormenta, uma agitação na corrente, algo que nos leve a supor que o perigo espreita, um pouco assim como isto:


Contudo, é evidente que as tormentas não são condição indispensável para um naufrágio, que a história náutica está adequadamente fornecida de embarcações naufragadas em águas mansas, como esta aqui, que se afundou a 10 de Agosto de 1628, apesar de um céu azul e uma brisa suave:


 

De qualquer forma, dizia eu há pouco, estas são as coisas fáceis de supor, a casca da noz, por assim dizer, do relato de viagens marítimas fracassadas, e nada explicam quanto à essência oculta que um naufrágio é verdadeiramente. 

Esta essência oculta não pode ser entendida com os pés em terra firme, suponho. Só a verá quem já um dia balançou suspenso no meio do nada, a caminho entre dois lugares fora de vista, norteado apenas pelo céu e por instrumentos feitos para dar sentido à imensidão do espaço azul. É a essência de estar para lá de todas as referências e à inteira mercê dos deuses - os que se escrevem no plural e com d pequeno, como forma de assinalar a sua natureza caprichosa.

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