segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Quebra-luz

Às vezes consigo vê-la de modo singularmente distinto. Uma jovem emoldurada num sorriso mais-que-perfeito, a chegar à boca de cena com o seu fato irrepreensível, os seus sonhos numa mão e a sua fragilidade humana a escapar-se-lhe pelas falhas dos olhos. Ela serena, pronta a domar a vida; ela expectante; ela insatisfeita no mais íntimo de si; ela feliz, cheia de amor, por dentro e por fora, amor a jorrar pelo seu fato irrepreensível abaixo. Ela a enfrentar a curva sinuosa para a qual ninguém nos prepara. Isso é viver.

A sua cara cuidadosamente esculpida observa-me ano após ano, sob a protecção do quebra-luz, numa mesa de apoio que é igual a si própria desde sempre, e ela também é igual a si própria desde sempre, desde que eu me vejo existir. Junto ao enorme candeeiro de onde jorra o dia artificialmente abatido, o dia filtrado por um cilindro elegante, estamos eu e ela lado a lado, imagens perenes do que fomos. Hoje ela não me conhece, não sabe no que me tornei. Pergunto-me como me amaria, se pudesse ver-me através da sua moldura inerte.

Pergunto-me se somos iguais ou diferentes. Imagino-a a compor a saia com as mãos e a compor a vida aplicadamente, a tornar-se nela mesma, a viver os sonhos menos as coisas que teve de dar em troca pela existência que escolheu para si. Imagino-a nesse dia preciso em que percebeu que todos damos em troca um parte de nós, pela parte sobrante. Vejo o momento dessa realização esgazeada a abrir espaço numa piscina genética, a mover-se na cadeia, elo a elo, a passar as gerações, a fundir-se com o cordão umbilical ao qual eu me agarrava à espera de nascer.

Ela está a olhar para mim, a sorrir, completa, completa um pouco mais, uma peça do puzzle a encaixar-se na imensidão de um mosaico incompleto até ao fim. Ela está no sítio de sempre e o quebra-luz assinala o local, o quebra-luz que talvez tenha ou talvez não tenha sido ela a escolher, ela a colocar, ela a determinar com um gesto porventura irreflectido o lugar dos nossos encontros regulares.

Se pudesse, dizia-lhe que tentei recolhê-la dos pedaços guardados pelos outros, que não é fácil vê-la inteira porque me chegou dividida, que não é fácil conhecê-la porque me chegou interpretada, mas que ainda assim a guardo entre os meus tesouros, ainda assim a levo comigo como um estafeta carregando uma mensagem cifrada até à meta, passando-a a novas mãos, realizando um ciclo interminável do qual somos todos apenas uma peça.

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