sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Utopia

A Utopia espreguiçou-se prazenteiramente no sofá, esticou as suas pernas longas e finas sobre as minhas e olhou-me decididamente nos olhos. Era o jogo de sedução. A corte. Eu tinha passado muitos anos a tentar ignorar o seu charme, envolvida com os cínicos e realistas deste mundo.

A Utopia disse-me:

- Vês como isto é tão bom? Como quando eras pequena e eu te fazia companhia nas tuas meditações mais secretas.

- As crianças acreditam em qualquer coisa - ripostei.

A Utopia riu aquele seu riso cristalino e sem malícia.

- As crianças acreditam, simplesmente. 

O meu braço começara a relaxar, pousado sobre as pernas dela. Tinha passado tanto tempo... e ainda assim, inexplicavelmente, aquela intimidade era-me familiar como se fosse de ontem.

A Utopia continuava a desfiar o seu novelo.

- E tu... Ah, como tu eras gloriosa! O teu coração mal te cabia no peito com tudo o que imaginavas ser possível. Poucas pessoas me guardaram com tanto carinho, sabes? Tu punhas-me em todo o lado. Nos bolsos, entre os berlindes, debaixo de um peluche, na fita de uma gravação... Andavas comigo o dia todo e mesmo se te ralhavam escondias-me dentro de um mapa de quarta classe para que não me vissem.

- Tchiiiii, aquele miserável mapa da volta ao mundo! Lembras-te disso?!

- Miúda, foi o primeiro presente que me deste que verdadeiramente te custou alguma coisa. 

- Nunca fomos a lado nenhum...

- E que importa? Querias ser livre e magnífica, isso bastava-me!

Os meus olhos soltaram o sorriso que tinham amarrado ao escuro da pupila.

Àquela distância, conseguia ler-lhe as linhas da cara, firmes como quando a conheci, mas com sinais do tempo que passara entre nós. A diferença era inexplicavelmente irrelevante. Sentia o calor dela contra a palma da minha mão, suave mas alerta, como o despertar de um sonho, a arrastar-me sem força.
Quando falei, a minha voz saiu trémula, como se revelasse algo de importante e escondido:

- Que queres que faça contigo, agora? As coisas são tão diferentes...  Não tenho berlindes, nem peluches nem gravações e os meus bolsos estão cheios.

A Utopia ergueu-se no sofá, dobrou as pernas sob o corpo e, de joelhos, colou o nariz ao meu.

- Que estás a fazer...?

- Shhhh... espera.

Passou-se um minuto e ela recuou. Plantou-me um beijo ao de leve na bochecha, voltou a reclinar-se no sofá, com as pernas sobre as minhas.

- E...?

Olhou-me com ternura.

- Tu saberás o que fazer.

- Que queres dizer com isso?

- O meu espaço... Não o perdeste. Só o mudaste de sítio.

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