sábado, 22 de dezembro de 2012

Lupa

Diego vê o mundo à lupa, na dimensão que é a sua, a dimensão que coloca as coisas mais ínfimas ao centro e que passa indiferente às necessidades da vida como uma fronte séria, um estômago cheio e cabelos alinhados a pente. 

Ele aponta o mundo assim ampliado a pinceladas frenéticas, consciente de que talvez seja ele a registar o último momento de algo insuperavelmente belo. Consciente, consciente, consciente, ele é consciente mais do que tudo, por isso se atormenta tanto com o prazo intrínseco das coisas, pelo saber, como sabe, que o mundo se dissolve a cada micro-segundo e que muito do que nele passa é invisível à nossa vista grossa.

A lupa permite-lhe transpor a barreira. Fazer-se habitante de um cosmos particular ao qual pertence sem nele caber. Mas Diego acredita que cabemos nas coisas mais pequenas pelo facto de elas caberem em nós, pelo facto de tudo existir dentro de tudo, pelo menos em potência, pelo menos como parte de um magma comum que borbulha e explode em forma de universo. 

E é essa pertença que ele retrata nas telas obsessivamente empilhadas em corredores estreitos, telas ao alto, telas deitadas, telas encostadas a telas, com a cara escondida, com as entranhas de fora, telas descartadas porque serviram já a sua função de receptáculo da realidade sem chegarem nunca à dimensão de objecto-em-si.

Diego pinta com a luz do dia, voluntariamente vassalo das suas lógicas, escusando-se à tirania das horas prolongadas por mãos artificiais, com cores mortiças e adulteradas, horas que não prestam para a imortalidade. Horas que são uma ficção. Diego despreza a ficção acima de tudo, ou não fosse a vida tão breve, que um homem não tem tempo a perder com imitações do real, o real não tem cópias!, diz amiúde, com violência, enquanto se desgasta para lá dos anos que tem a tentar materializar a essência desse real sempre esquivo.

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