Estevão encolheu-se debaixo do cobertor para enganar o frio que vinha e vinha e tornava a vir como uma maré. Puxou o pano até ao nariz e, espreitando por cima dele, deixou-se navegar por uns momentos no brilho das luzes que envolviam a praça. Alguém passou perto do seu canto, com passo apressado, telemóvel na mão, diz à tia que já vou a caminho...quê?...sim, levo a prenda do Miguel... dez minutos, no máximo.
Estevão ouvia e imaginava-se parte da cena, com a tia que não era a dele, mas que no seu sonho era, e esperava por si. E o Miguel, que desfaria o embrulho de sorriso nos lábios, que talvez gostasse ou não gostasse da prenda, mas que lhe daria um abraço porque no sonho eles não eram estranhos e porque toda a gente sabe que as intenções é que contam.
Deixou-se ficar naquele torpor das imagens que desfilavam na sua cabeça até que uma voz o arrancou ao calor dos pensamentos, boa noite... venho deixar-lhe uma sopa, pode ser?... e ele que sim, que podia ser, hoje leva bacalhau e batata e, claro, umas couvezinhas também não podiam faltar... vai ver que está boa... e ele novamente que sim, já de colher na boca, comendo com sofreguidão.
Trocaram palavras, arremedos monossilábicos de conversa a pontuar goladas de sopa que lhe escorriam pelo esófago até à alma.
Quando terminou, havia um calor novo dentro dele, não o que vinha do estômago, mas outro, mais subtil e ao mesmo tempo mais profundo. Era Natal e não tinha nada em seu nome para além de meia dúzia de cartões e uns cobertores velhos, mas aquela dádiva simples lembrara-lhe que mesmo no deserto mais escuro, existe algures uma centelha de luz, sempre que uma mão se estende a outra.
Voltou-se para a voz e sorriu. Uma oferenda simples, de quem nada tinha.
Deixou-se ficar naquele torpor das imagens que desfilavam na sua cabeça até que uma voz o arrancou ao calor dos pensamentos, boa noite... venho deixar-lhe uma sopa, pode ser?... e ele que sim, que podia ser, hoje leva bacalhau e batata e, claro, umas couvezinhas também não podiam faltar... vai ver que está boa... e ele novamente que sim, já de colher na boca, comendo com sofreguidão.
Trocaram palavras, arremedos monossilábicos de conversa a pontuar goladas de sopa que lhe escorriam pelo esófago até à alma.
Quando terminou, havia um calor novo dentro dele, não o que vinha do estômago, mas outro, mais subtil e ao mesmo tempo mais profundo. Era Natal e não tinha nada em seu nome para além de meia dúzia de cartões e uns cobertores velhos, mas aquela dádiva simples lembrara-lhe que mesmo no deserto mais escuro, existe algures uma centelha de luz, sempre que uma mão se estende a outra.
Voltou-se para a voz e sorriu. Uma oferenda simples, de quem nada tinha.
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