A primeira vez que observou um planisfério invertido, com o Sul a pontear como a direcção ordenadora na parte superior do mapa, ficou boquiaberta: como era possível, ao fim de três décadas de existência, nunca ter pensado na razoabilidade cósmica de o topo da Terra ser ocupado pela Antártica e a Europa ser um pequeno recorte de terra junto a um canto inferior de mundo? "O Universo não tem nenhuma preferência particular por qualquer direcção em especial: todas as direcções estão certas e são igualmente importantes", recordou, ainda não recomposta do estilhaçar de um preconceito geográfico tão enraizado no seu imaginário que bem poderia ter subsistido, sem um arranhão, a toda uma vida dedicada à investigação e à procura da verdade. "Sul, Norte, Oeste, Este".
Ao sair do museu, dirigiu-se à loja de recordações e pediu um planisfério invertido. "Vendem-se muito bem", disse a senhora de meia-idade que a atendia. Esta afirmação surpreendeu-a. "A sério? Sabe, para mim foi uma total novidade. Não imaginava e nunca ninguém me falou sobre isto". A resposta foi clara: "É que pouco conseguem resistir mais do que uns dias a uma visão do mundo ao contrário. As pessoas podem enlouquecer a olhar para este mapa. É uma mudança muito grande de perspectiva". Fazia sentido. "Então dê-me dois".
Sem comentários:
Enviar um comentário