terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Surpresa

Descobrir, no meio dos escombros da separação, dentro do baú das quinquilharias de solteira, o caderno de notas azul que a tia Ema me ofereceu há anos foi uma surpresa incomensurável. Tacteie a capa de couro com a languidez de quem suspeita que o passado pode soltar-se como um perfume a qualquer gesto mais brusco e fechei os olhos para contemplar a rugosidade dos anos apenas com a ponta dos dedos. Estava sentada no chão, corpo sobre as pernas dobradas, quase sem sangue a percorrer as veias, abandonada a recordações. E na memória acendeu-se a luz sobre a excentricidade das páginas - tão ao género da tia Ema - que teimosamente principiavam por "Querido diário". Só muitos meses depois consegui escrever as primeiras palavras naquele que viria a tornar-se um objecto de culto no início da idade adulta: o repositório dos meus objectivos de vida. Foi neste instante que a mão se susteve e os olhos se abriram, foi um muro que ruiu, a pedra estanque e alta que dividiu a pessoa que fui da pessoa que sou. Tinha de lê-lo, mas não agora, não agora que os livros escorriam das estantes para os caixotes de cartão, que as louças de jantar se alinhavam sobre a mesa com juízo geométrico, não agora. Consumada a quebra definitiva da vida conjugal, feita a derradeira mudança de cidade, de país, de continente, aí sim, aí folhearia as profundezas de mim.

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