O avô sempre guardou a lupa na escrivaninha branca, junto dos dicionários e dos mapas. Tirava-a para brincar comigo, para me mostrar os detalhes das asas das borboletas desenhadas nos seus cadernos de notas, a única ocupação que disputava comigo a atenção do avô. Eu ficava maravilhada com o mundo aumentado no centro e distorcido nas bordas, qual pingo de água, uma espécie de olho de peixe, uma imagem brincalhona nas mãos de uma criança curiosa.
Eu cresci, como crescem todas as crianças, e a lupa acabou por permanecer quase sempre guardada no local habitual, com a caixa original ainda imaculada, o conjunto completo, lupa e faca de cortar papel, bem acomodados à passagem do tempo e aos cuidados da avó, que nunca negligenciava os pormenores.
Passados muitos anos, o avô começou a retirar mais vezes a lupa da escrivaninha para outros trabalhos: os jornais desinvestiram da edição em papel e poupavam cada vez mais linhas, encolhendo propositadamente as letras dos artigos, agora umas letrinhas quase ilegíveis, comentava o avô. Agora, dizia-me, às vezes a lupa dava jeito para lutar contra a avareza dos jornais e... alguma falta de vista.
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