A casa onde viviam era um apartamento que ficava ao cimo de cinco lances
de escadas para os quais não havia elevador. A porta transpunha-se,
ofegantemente, e desembocava-se numa divisão generosa que servia de sala e
tinha janelas que devoravam a paisagem.
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Ele aqueceu a água na chaleira velha que apitava quando levantava fervura e despejou o líquido para dentro da chávena que perdera a cor à força das lavagens. Reproduzia o hábito mas não a consciência, pois todas as manhãs ele preparava e bebia o chá do mesmo modo ausente.
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Estava sentado à mesa e não tinha para onde ir, o lugar dele era ali. Havia uma folha em branco. Havia sempre uma folha em branco.
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Ele estava sentado e esperava por uma ideia que o atingisse como um raio.
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Ela estava de pé e esperava que ele se soltasse da sua folha em branco e a atingisse como um raio dentro dos olhos, no corredor que descai pelo estômago até à alma.
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Ela beijava-o todas as noites com o fogo de uma pessoa morta. Ele respondia como uma pessoa morta, do fundo do seu túmulo.
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Ela esperava-o e ele esperava a vida. Simplesmente estavam no mesmo lugar à espera, por isso acharam que se amavam. Era legítimo o engano.
Muito bem. Bom texto.
ResponderEliminarLê-lo fez-me regressar a formas narrativas estilisticas de dois grandes escritores russos: Dostoiewski e Tolstoi.
Continua, que as potencialidades estão implícitas.
Até breve