quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Planalto

Como um homem descobre que quer passar o resto da vida a escalar montanhas é mistério sobre o qual só podemos especular. A perseverança é extraordinária: empreender no objectivo de atingir do cume de sucessivas e cada vez mais altas montanhas exige um empenho físico e psicológico assinalável e um risco considerável. Será para ficar cada vez mais perto do céu mantendo ainda os pés na terra? Para ver o mundo da perspectiva dos deuses? Ou por algo mais prosaico, como uma prova contínua de coragem, como erguer o orgulho de derrotar o inóspito? Ou, ainda, por uma dor tão profunda que só o isolamento do pico pode apaziguar?

Gonçalo descobriu-o na primeira viagem que fez ao Tibete, no ano da glória de 1994, quando percorria os trilhos árduos do Tecto do Mundo. Com uma altitude média de 4500 metros, o Planalto do Tibete impõe respeito físico da sua elevação ao longo de 2,5 milhões de quilómetros quadrados, um território 25 vezes mais extenso do que Portugal. No mais elevado planalto do mundo, com os Himalaias a pontuarem nos limites do olhar a Sul, Gonçalo sentiu-se um homem despojado de obstáculos, uma criatura nómada, um território aberto, virgem, desolado, trespassado pelos cumes do mundo.

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