Avidez pelo tempo que não tinha e também pelo que lhe sobrava. Pelo nascer do sol, por gelado de avelã, pela rotação regular de cores nos semáforos, pelo próximo beijo, pelo próximo inspirar. Avidez pelas mil e uma pessoas que toda a vida trouxera dentro e com as quais finalmente fizera paz, porque qualquer uma delas era melhor que o vazio da aniquilação total. Não, nem mesmo o seu momento mais medíocre lhe fazia mossa, agora que a sentença final lhe chegara às mãos embrulhada em papel timbrado de centro hospitalar. Naquela tarde, com as mãos trémulas e os olhos turvos, um só pensamento lhe subira ao cérebro por entre o turbilhão de letras que dançavam no papel: limpo. Completamente limpo. Um sorriso das profundezas quebrou-lhe o gelo dos lábio e ele começou a derreter inteiro pelo olhos. E depois, a vida recomeçou.
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