sábado, 29 de dezembro de 2012

Quilómetro

Ao quilómetro quarenta e dois, com a respiração ofegante, o suor a escorrer-lhe pelo corpo e o joelho direito em apuros, a meta parecia-lhe simultaneamente mais perto e mais longe do que nunca. A cada milésimo de segundo o seu cérebro dava ordens e contra-ordens, pára, não, avança!, não podes mais, tens de parar, continua!, o joelho vai ceder, mas está quase feito, não vais desistir agora!  

Em desalinho, as suas sinapses tentavam gerir a informação contraditória que lhes vinha dos membros em sofrimento e da pura vontade.

Quando, um ano e meio antes, e quase com cem quilos de peso, se lembrou de dizer que ia correr uma maratona, houve sorrisos mal dissimulados, incredulidades frontais e até comentários à boca pequena de que talvez aquela fosse a sua ideia de uma crise de meia idade, assim como quem compra um Ferrari ou redescobre os ardores das paixonetas adolescentes. 
  
Na altura tudo aquilo o tinha ferido de morte e se tivesse de confessar-se no mais íntimo de si, reconheceria que parte do que lhe alimentara o ânimo naquele ano de treino após treino após treino fora o fogo do despeito.

Mas agora, nesta esplendorosa manhã de Maio, enquanto lutava contra o cansaço à vista de um desenlace tão próximo que quase lhe podia sentir o sabor, apercebeu-se de que nenhuma daquelas coisas importava verdadeiramente. Nem mesmo a dor lancinante no joelho ou a respiração irregular tinham qualquer significado. Eram circunstâncias, a serem aceites, geridas se necessário, e nada mais. 

Pela primeira vez, percebeu que a pessoa que era, liberta das suas amarras, podia até o inimaginável. E isso fê-lo sentir algo de novo e inesperado. Tinha começado a sua aventura feito escravo, em grilhetas, carregando aos ombros o peso de mil receios e mil rancores. Cruzaria a linha de chegada um homem livre.

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