Estavam os dois aninhados no abrigo debaixo da sala, a ouvir os estrondos lá fora. A terra tremia com cada explosão, como se eletrocutada por um raio, e na ausência de luz, eles pressentiam os terrores um do outro pelo ondular da respiração, de vez em quando mais forte, outras vezes irregular, como um motor engasgado.
- Sabes o que me apetecia agora mesmo?
A pergunta invadiu o espaço, iluminando os cantos à sua pequenez.
- Hã?
- Se sabes o que me apetecia agora mesmo.
- Diz.
- Um prato de puré.
- Puré?!
- Sim. Daquele que o pai fazia, carregado de farinha Maizena, que até dava para remendar paredes com aquilo...
- Mas tu detestavas o puré do pai!
- Eu sei.
No meio do escuro.
- Mas agora apetece-me.
Estavam deitados de costas no meio do escuro, no meio daquela noite absurda sem amanhã provável, a falar de puré, e o ridículo da conversa talvez fosse pouco mais ridículo que o ridículo da situação, porque eles eram jovens, e eram promissores, e tinham esperança a sair pelos bolsos das calças, mas de repente a única esperança que lhes era consentida era a de uma morte tranquila, uma morte esquecida dela mesma, embalada ao som de conversas sobre puré e farinha Maizena. As conversas eram como o silêncio que calava tudo isto, as coisas indizíveis.
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