segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Rebuçado

"Para os meninos que não se portam bem não há rebuçados! Compreendeu, menino Henrique?", asseverou a impositiva Madre Teresa, com o dedo lançado em riste e os olhos a raiar da crueldade que alimentava contra criança de olhos azuis, ou com mais de um metro de altura, ou com os cabelos encaracolados, ou com qualquer outra característica aleatória que lhe causasse incómodo. Uma megera, portanto.

Nem todas as freiras eram como Madre Teresa, mas eu sabia que, pelos estreitíssimos critérios de integridade moral que reinavam naqueles claustros sufocantes, o rebuçado iria ser sempre uma miragem, bastava olhar para quem os recebia. E, afinal, como podia eu deixar de ler às escondidas à noite, ou de jogar à bola fora da hora da aula de Educação Física? Ou como podia decorar as passagens bíblicas mais importantes, se havia tanta ciência por descobrir?

Um dia resolvi ripostar. Sentia-me discriminado. Sentia-me ultrajado na minha individualidade, afinal era só uma pequena guloseima, um pequeno mimo, um doce. Tinha direito a um daqueles pedaços de céu embrulhados em papel de manteiga! Sabia onde as freiras guardavam secretamente os rebuçados e qual a freira que costuma guardar a chave do armário. Recorrendo aos mais elevados conhecimentos recolhidos dos livro Uma Aventura em..., criei um plano infalível e zás! roubei-lhes os rebuçados todos! A partir daí foi portar-me que nem um anjinho só para chegar ao dia de receber o rebuçado prémio com um sorriso fluorescente nos lábios.

Pois nem imaginam a cara atrapalhada das freiras quando deram pelo furto dos rebuçados! Eu, nas costas das freiras petrificadas a olhar para o vazio do armário, decidi à herói comer um rebuçado mesmo ali, e mal se ouviram os estalidos típicos do desembrulhar do papel, foi a desordem total! Fugi como se não houvesse amanhã e acabei expulso, mas foi o rebuçado mais delicioso da minha vida, aquele rebuçado roubado às freiras.

- Fim -

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