Juares é uma ilhota no sul do Managuel, cortada de acessos a não ser pelo barco que duas vezes por semana faz a travessia entre o porto de Morna e o ancoradouro de Ponta Nuar. A população é pobre e vive essencialmente da pastorícia, dedicando-se aos prados verdejantes e ao gado fértil com a simplicidade de quem não conhece outro destino.
Há anos, falara-se em construir uma ponte para ligar a ilha às terras do continente, a ponte da modernidade!, anunciara o presidente da junta com fanfarra ao único periódico local. Mas depois das medidas tiradas e de meia dúzia de apertos de mão, o assunto perdera-se na bruma do tempo, sem ai nem ui da parte de quem quer que fosse. Não, em Juares nem uma única alma tinha reclamado ou exigido um centímetro sequer, porque, a falar verdade, tanto interesse tinham aquelas gentes em sair da ilha como os do continente em lá entrar.
De parte a parte há desde sempre um acordo não escrito de que o que começa em Juares fica em Juares e o que é da margem norte, fica na margem norte. Cada um sabendo assim o seu lugar, as vidas podem decorrer pacíficas, um mundo à parte do outro, dentro do mesmo país diminuto.
Mas esta ordem natural das coisas está prestes a alterar-se sem remédio, com a chegada a Ponta Nuar de um misterioso carregamento endereçado a Nortan Suma, o qual, do alto das suas barbas brancas, se apressará a mandar o neto ao ancoradouro pela carga. Tom Suma seguirá despreocupadamente até Ponta Nuar, prego a fundo na pick-up desengonçada, e carregará o volume indistinto com braços vigorosos, arrumá-lo-á entre sacas de terra, sementes e adubo, e voltará assobiando as canções da rádio, sem suspeitar do seu papel trágico na origem desta história.
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