domingo, 16 de dezembro de 2012

Exame

O exame médico foi simples e era a última etapa para a admissão no corpo de intervenção especial do exército. Treinara durante anos para realizar todos os exercícios com mestria e desenvolvera cada músculo do corpo como quem concebe uma arma de fogo sofisticada, pronta para a defesa, pronta para matar.

- Luís, tenho comigo os resultados dos exames. Tenho de ser honesto consigo: com os limites de visão que tem só lhe posso oferecer um lugar na cozinha, que é o único que neste momento está vago para quem não pode ir para o terreno. Dou-lhe a oportunidade de escolher entre ficar na cozinha ou...

- Fui o melhor em mais de metade das provas físicas que realizei. Fui o melhor aluno a matemática e física. Treinei cinco anos para, neste dia, tornar-me parte do mais importante corpo de intervenção do exército e para poder finalmente ir para o campo de batalha, para defender a minha pátria com coragem e empenho, e você está a dizer-me que para mim só há um lugar na cozinha?

Defender a pátria de um ataque de frangos? De ovos podres? A cozinha???

- Aqui não há vocês, há "Sim, meu coronel" - disse o coronel com uma rispidez polida. - Diga-me uma coisa: que faria se, em pleno ataque das tropas inimigas, perdesse os óculos ou lhe caísse uma lente de contacto?

- Dispararia em todas as direcções!

- É precisamente por isso que não podemos dar-nos ao luxo de tê-lo na nossa equipa. Mataria o inimigo, mas também mataria os camaradas.

E, assim, por uma nesga, a parelha vesga de olhos que tinha fechou-lhe as portas para o corpo de intervenção especial do exército. À data dos factos, não eram conhecidas ainda as cirurgias milagrosas que devolvem aos miopes a longitude do olhar.

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