quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Nudez

Três diálogos (im)prováveis: 

- A minha nudez incomoda-o. 
- De forma nenhuma. 
- Sim. Consigo vê-lo nos seus olhos. 
- Perdoe-me a crueza, mas a sua nudez é-me absolutamente indiferente. 
- ... 
- Não me olhe assim, não é o que pensa. 
- E o que penso...? 
- Sou médico, simplesmente. 
 - Ah. E? 
- E... que para o essencial da vida vamos nus. Dar à luz, nascer, morrer, sarar feridas... Os corpos já pouco me surpreendem, por esta altura. 
- Que racional. 
- Apenas constato factos. 
- O meu ponto, precisamente... Quanto a mim, se quer saber, acho que gosta de se enganar. Mas a verdade é que mal consegue olhar-me nos olhos por dois segundos. Talvez porque o recordo que por baixo dessas roupas está avassaladoramente nu. Envergonha-se porque continua a ser aquele animal bruto e assustado que um dia o acaso fez erguer-se em duas patas. 
- Que tirada dramática. 
- Chamo as coisas pelos nomes, é tudo. 


- Não olhes ainda.
- Não. 
- Mas não olhes mesmo. 
- Já te disse que não. 
- Pronto. 
- Já posso olhar? 
- Não! 
- ... 
- Só mais um segundo. Só... um bocadinho... e... pronto, agora sim. 
- Mas assim no escuro não vejo nada. 
- Óptimo. 

*

- ... 
- Amo-te.

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