sábado, 24 de novembro de 2012

Amuleto

1

Tersan apertou o amuleto com força, deixando a marca do metal na sua pele fina. O ruído branco por trás dos seus olhos dizia-lhe sem sombra de dúvida que Pergon se aproximava com cada hora e que em breve nada mais restaria entre eles do que uma velha porta de madeira que uma patada seca facilmente derrubaria. Talvez melhor assim.

Há dias que estavam as três encerradas ali, na velha cabana de montanha, à luz de velas gastas, sem um sinal de vida que não o dos seus próprios passos ruminantes deambulando pelo espaço, congeminando mil e um cenários possíveis, antecipando o confronto, afastando pressentimentos inconfessáveis. A espera era o mais difícil e a moral de Oran e Celdian, já para não dizer a dela mesma, ressentia-se inevitavelmente. A tranquilidade com que ali haviam chegado, traçando planos de combate e estratégias de fuga, começava a esbater-se sob o manto de uma espera nervosa, que lhes apertava os músculos e aguçava os sentidos.

Dentro da sua mão direita, Tersan sentia o amuleto ganhar vida própria, um calor que escapava já por entre os dedos contraídos, o dourado sujo do metal subitamente mais vivo, o violeta duro da pedra de Quar a ruborescer até um vermelho incandescente.

O momento estava próximo. Voltou-se sobre si própria, com um olhar inexpressivo, e disse a Oran e Celdian que preparassem os arcos. 

2

Semaria encavalitava-se nas dobras de uma cordilheira a que os antigos chamavam Aramad. Aramad, a Morada da Luz, onde na roda das estações nunca o sol se retirava por completo, mesmo quando a água jorrava em torrentes do céu ou os ventos agitavam folhas e arrancavam raízes. Assim iluminada por aquela luz envolvente e dourada, Aramad resplandecia de verde em cada canto dos seus declives.
 
Do ponto mais alto da cordilheira avistam-se, para norte, as terras de Oala, e para sul, as terras de Urd. Os Oali eram um povo de comerciantes, simples e rudes no trato mas corajosos nas ambições, e que justamente à conta dessa coragem havia construído uma profícua rede de trocas com as regiões mesmo para lá do Rio Set. Os Urdin eram guerreiros e viviam sobretudo de campanhas de conquista e pilhagem das terras vizinhas.

Há muito que uma e outra margem de Aramad se envolviam em escaramuças sangrentas pela conquista de rotas e entrepostos comerciais. Semaria, no centro nevrálgico da disputa, conseguia a custo manter a sua independência, mas todos os anos a contenda crescia. Dois anos antes, um grupo de Urdin cavalgara através de um dos trilhos de Aramad incendiando tudo à sua passagem, deixando um rasto de terra e casas destroçadas de que Semaria ainda não se recompusera verdadeiramente. Oito meses mais tarde, num enfrentamento feroz na base do monte Decnan, Urdin e Oali tinham caído uns após outros, arrastando consigo uma pequena aldeia Semari cujos habitantes não tinham podido escapar a tempo.

3
  
 (to be continued...) 



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