Joaquim deixava recados aos filhos nos sítios mais improváveis. Podiam encontrar pérolas na gaveta do armário da casa de banho como "Lavaste os dentes antes de te pentear, ou ainda só penteaste macaquinhos?", ou delícias dentro dos tupperwares com a comida que sobrou do jantar como "Come-me devagarinho, ou faço-te cócegas no estômago a tarde inteira". Às vezes, Joaquim deixava ainda recados de amor nos bolsos dos casacos, como "Meu filho, és a luz dos meus dias", "Minha pequenita, tens os olhos mais doces que esta terra já viu florir", fazia-o sobretudo quando os miúdos se portavam muito bem, como recompensa pelos feitos dos diabinhos; mas, por vezes, eram as saudades lancinantes da falecida esposa que o obrigavam a reinventar o amor e a dá-lo todo àqueles três lindos seres.
Um dia Joaquim chegou a casa e, em cima da mesa da sala, encontrou um pedaço de papel que dizia: "A mamã voltou! A mamã voltou! Fomos com ela dar uma volta ao jardim!". Ouviu-se o pedaço de papel a cair no chão como chumbo. Ouviu-se a alma de Joaquim a tombar num poço sem fundo. As crianças jaziam no relva do jardim, como anjos.
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