quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Tempo

Carregou o envelope consigo durante toda a tarde, como um tesouro secreto cuja guarda lhe houvesse sido confiada. De vez em quando, afagava-o ao de leve, dentro do bolso do casaco, como que a certificar-se de que ainda lá estava, enquanto uma procissão de olhos tristes se ia desenrolando diante de si, dirigindo-lhe palavras de pesar que a sua mente distante mal podia compreender. 

Só depois do enterro o abriu. A caligrafia irregular fez-lhe vir à memória o rosto macilento do pai, aqueles impossíveis últimos dias, o vai-e-vem de pessoal médico, o desconcertante cheiro que perpassava cada parede, cada lençol, cada milímetro de espaço. O branco cor-de-vácuo que engolia tudo, até os seus pensamentos. 

Era o último de cinco filhos, inesperado e distante na idade de qualquer dos outros irmãos. Recordava-se do pai como um homem de poucas palavras, sem tempo nem sorrisos, um velho já, cansado da vida, desgastado por uma existência de imperativos de toda a espécie, dos quais os mais duros haviam sido talvez os auto-impostos. Aquela natureza espartana, a honra estrita, o sentido de dever. 

A vida do pai fora geométrica, com rumo certo. E aquele percurso há muito traçado parecia não consentir desvios ou gestos espontâneos de ternura. 

A carta fora-lhe entregue pelas enfermeiras, a quem o pai a confiara. À saída do hospital, quando tudo estivesse dito e feito, nem antes nem depois, tinham sido estas as instruções rigorosas. Detestou-o por aquela última cobardia, aquele adeus póstumo de um homem que mesmo no fim não fora capaz de estender a mão. A primeira coisa que quis fazer foi rasgá-la. Depois, pegou nela e leu-a de uma só vez. Dizia isto: 

Meu Filho, 

Um dia acordas e uma música saída da rádio aperta-te o peito porque o tempo passou e há roupas que jamais te voltarão a servir e pessoas que nalgum momento tocaste pela última vez. 

Acordas a saber que um dia segue sempre o outro, inevitavelmente, numa soma sem subtracções, e que, sim, cada escolha que fazes te leva ao que será, no fim de contas, a tua vida. 

Podes tentar fugir às tuas verdades mas um dia o medo da morte vai apanhar-te e então lamentarás não teres sabido parar quando havia tempo para escutares o desejo de vida que pulsava em ti.

Quererás recuperar o tempo, refazer tudo, mas então será tarde demais. A vida terá seguido sem ti. Ou tu terás desaprendido o caminho de volta para dentro dela. Olharás para a tua mulher e verás os seus olhos que te fitam através de milhares de pequenos silêncios e desilusões. Olharás para os teus filhos e verás estranhos, que não conheces nem te conhecem a ti, que amas sem saber como, e a vergonha vai impedir-te de lhes dizeres o essencial. 

Então pára, hoje mesmo. Deixa-te apanhar. Deixa-te apanhar não pelo medo da morte, mas pela fúria de viver infinita que esse medo provoca em ti. Vive tudo o que puderes, vive tudo o que és, mesmo quando isso te for difícil. 

E quando não souberes o caminho recorda a ti mesmo que um dia ele chegará ao fim. Depois senta-te e escuta. O tempo dar-te-á a resposta.

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