sábado, 10 de novembro de 2012

Nevoeiro

Saiu do nevoeiro como uma faca que rasgasse o pano. Era a perfeita figura, impecavelmente abotoado num sobretudo verde escuro e encabeçado por um rosto de simetrias irrepreensíveis. Cruzou-se silenciosamente com as poucas almas que povoavam a praça naquela manhã de brancura cega, sem lhes dedicar um único olhar ou sinal de reconhecimento. E com passos seguros, de quem percorria um trilho tantas vezes seguido,  dirigiu-se à pousada da Rua do Capelão, onde se apresentou com poucas palavras, uma única maleta de viagem e o pedido invulgar de que lhe trouxessem três bacias, dois metros de corda fina e de que em circunstância alguma lhe batessem à porta depois das três da tarde. Não estranha que semelhante recém-chegado rapidamente fizesse correr palavras velozes entre as bocas da aldeia, sobretudo as mais acostumadas a comentar o alheio.

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