Cata-vento. Tantas vezes o chamaram que o nome pegou.
Desde cedo Bento Serafim tomara o hábito de trepar aos telhados pela calada da noite, aí ficando horas esquecidas de nariz no ar, adivinhando à distância as correntes que se aproximavam de Sete Fontes.
Sozinho no escuro, só ele e o pó das estrelas espalhado pelo céu, nem precisava de fechar os olhos para sentir na pele o respirar da Terra, ora manso ora agitado, tão vivo e inconstante como qualquer outra coisa neste mundo de Deus.
A habilidade de adivinhar o vento valera-lhe a alcunha invulgar, misto de escárnio e admiração que o povo sempre dedica às coisas que não compreende.
Fora ele quem antecipara os temporais do Outono de 81 e só graças ao seu alerta veloz tinha sido possível pôr o gado a salvo e resguardar a metade das colheitas já madura, antes que a ventania chegasse disparando água e granizo em todas as direcções.
Fora ele quem antecipara os temporais do Outono de 81 e só graças ao seu alerta veloz tinha sido possível pôr o gado a salvo e resguardar a metade das colheitas já madura, antes que a ventania chegasse disparando água e granizo em todas as direcções.
Uns anos depois, sentindo a brisa pegajosa e morna que vinha das serranias a oeste, pusera-se a correr pela vila como um louco e a gritar "fogo! fogo!" As chamas escondidas do outro lado dos montes pouco haviam tardado em se revelar, lambendo as copas da árvores e pintalgando o horizonte de fumaça escura, de tal modo que só quase às portas de Sete Fontes puderam ser contidas.
Naquela noite, porém, o caso era outro. De fronte espetada contra o escuro, como se espreitasse por uma qualquer fechadura invisível, Bento não conseguia afastar a sensação inquietante de que algo lhe escapava ao controlo. Fechou os olhos, concentrou-se o mais que podia, mas nada... nada lhe chegava a não ser o ritmo vagamente ofegante da sua própria respiração.
Mas que raio...?
Definitivamente, havia algo de perfeitamente distinto e singularmente perturbador a pairar naquele céu estrelado. Bento mirou o infinito, sem expressão. Como um animal ameaçado, sentia cada pequeno cabelo eriçar-se-lhe na nuca, mas não recuou. Deixou-se assim ficar durante muito tempo, simplesmente sentado, à escuta.
De súbito, o seu olhar foi assaltado por uma sombra carregada. O sobrolho afundou-se e um rasgo de escandalizada realização atravessou-lhe o rosto.
Não... não é possível...
Resoluto, colocou o indicador na boca, lambeu-o e lançou-o em riste em direcção ao céu, como se quisesse intimar as estrelas a revelarem os seus segredos.
O que pressentiu deixou-o atónito.
Nada. Absolutamente nada! A inércia total, o vazio, a dissolução... Na ponta do dedo sentia a Terra inteira mergulhada numa dormente quietude, como um pedregulho gigante. Nada de correntes a norte, nada de cheiros carregados pelo ar, nada de ciclones ou ventos ou brisas sequer!
Voltou a erguer o dedo, agarrado a uma réstia teimosa de esperança. O mesmo silêncio.
Ao cabo de alguns minutos, rendeu-se. Não havia dúvida.
Atarantado no meio daquela escuridão amorfa que o rodeava de todos os lados, Bento Serafim compreendeu finalmente o incompreensível: o vento tinha parado de vez.
(to be continued)
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