terça-feira, 6 de novembro de 2012

Decisão

- Simplesmente decidi e pronto.
- Assim, sem mais...
- Pois!
- Pof, zuca, já está.
- Exactamente isso.
- E que te disse o Azeredo?
- Nada. Entrei no gabinete do tipo, mandei-lhe das boas e no fim disse que me ia embora.
- Das boas?
- Sim. Que aquilo não podia ser. Que aqueles horários não eram de gente, por um salário de miséria, que éramos piores que bichos ali, enfim, que estava pela ponta dos cabelos.
- Mas não ripostou?
- Nicles. Aceitou-me a demissão ali mesmo. Quis fazer-se de indiferente, mas a verdade é que acho que o intimidei de morte.
- Estou a ver. E a Patrícia?
- A Patrícia nada. Que é que tem a Patrícia?
- Não se chateou de teres mandado tudo às urtigas?
- Ora ora. A Patrícia sabe que comigo quando é a sério é assim e não há mais conversa.
- Bolas. Havia de ser eu e a Manuela. Se lhe entrasse em casa com uma notícia dessas eram três ou quatro noites ao relento com o cão. No mínimo!
- Questão de convicção, ó Pires.
- Talvez.
- Não é talvez, é o que te digo. Caramba, um tipo tem de se dar ao respeito nas coisas essenciais desta vida.
- Pois, talvez tenhas razão, mas que queres? Nunca fui muito de confrontos.
- Mas quem é que falou em confrontos? É como te disse: tomas a decisão e já está! Quem vem atrás que feche a porta.
- Será para os que podem. Eu não tenhas dúvidas que acabava logo na casota do bicho. Bem, por falar nisso, tenho de ir andando, que a Manuela deve estar a pôr o jantar na mesa não tarda.
- Epá, só mais uma imperial.
- Ó Carlos, não dá.
- Vá lá, pago eu!
- Homem, deixa lá a imperial para outro dia. Tenho de ir para casa e tu também devias ir, daqui a nada faz-se tarde.
- Certo mas...
- Mas quê?
- É que...
- Que?
- ... que a Patrícia talvez precise de um bocadinho mais de tempo.
- Para?
- .... digerir a coisa.
- Eu logo vi. Queres tu dizer para lhe passar a fúria.
- Nada disso. Só que, pronto, é sempre um choque, não é?
- Um choque do rolo da massa na tua pinha, até aposto!
- Ok, está bem, confesso que ao princípio chateou-se um bocadinho. Mas depois acalmou logo!
- Ai tantas juras de amor e diamantes lhe deves ter feito, Carlitos!
- Eu?
- Sim tu.
- Não lhe prometi diamantes nenhuns, disso podes ter a certeza.
- Ai não!
- Por acaso não.
- Então quê, fazes a faxina até morrer, é?
- Era boa essa!
- Vais finalmente com ela àquela ópera que te anda sempre a pedinchar.
- Muito menos! 
- Leva-la de fim de semana a Paris, queres ver...
- Ó Pires, que raio, já te disse que nada!!! Bastou dizer-lhe que amanhã ia falar com o A...
- Ias o quê?
- Ia... mmmm....
- Olha agora é que te deu para a gaguez.
- Ia falar com o Azeredo, pronto!
- Ai ias falar com o Azeredo...
- Pois, quer dizer, sim, tu sabes, é que entretanto pus-me a pensar e acho que até posso virar a coisa a meu favor.
- Ah sim?
- Pois, pedir um aumento, por exemplo, tenho a certeza que o gajo cede.
- Ó Carlitos, tu nem tenhas dúvidas! É que é mesmo trigo limpo farinha amparo.
- Podes gozar, mas um tipo precisa é de ter estratégia na vida!
- Claro.
- Planear adiante, delinear a jogada e ter o tiro pronto. 
- Tudo isso.
- No mais, é tudo uma questão de --
- Espera espera, deixa-me adivinhar! De decisão?

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